kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

terça-feira, fevereiro 10, 2009

MARY AND MAX


É outra coisa que obviamente não vai estrear por cá mas que parece merecer toda a atenção. Realizado por Adam Elliot - vencedor de um Oscar para a melhor curta de animação em 2004 com "Harvey Krumpet" - "Mary and Max" é um filme de animação como já não se fazem filmes de animação, e que conta com as vozes de Phillip Seymour Hoffman - que hoje teve particular destaque neste blog - Toni Collette e Eric Bana, entre outros.
Estejam atentos, piratas cibernéticos, coisas destas começam cada vez mais a ficar afastadas das salas cá da terrinha.

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DOUBT

Há filmes que não sendo uma obra-prima, acabam por nos satisfazer totalmente. "Doubt" é um desses filmes. Não tem um argumento vertiginosamente genial, não é original na forma ou na técnica e não nos surpreende de modo algum. É um filme rígido - o que vai bem com o tema e com o cenário da história - aritmético, desenhado a régua e esquadro, rigorosamente disciplinado. É um filme frio, gélido, e que tem nos desempenhos dos actores principais a chama que lhe dá o equilibrio necessário. Impressionante o trabalho dos quatro actores em torno dos quais a história se desenrola. Meryl Streep - cada vez mais a melhor actriz de todos os tempos - Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams - quem diria - e Viola Davis. Streep e Hoffman fazem aquilo que esperamos sempre deles, e se não tivessem tão bons companheiros de cena, facilmente transportariam o filme às suas costas, e a coisa resumir-se-ia a um constante duelo de gigantes. Streep merece o Oscar, mas também a verdade é que parece merecê-lo em cada filme que faz. A irmã Aloysius que desempenha é verdadeiramente assustadora, e uma das melhores personagens inventadas por Streep. Hoffman foi injustamente nomeado para o Oscar de actor secundário, o que não faz qualquer sentido. Assim sendo tem a vida dificultada pelo desempenho de Heath Ledger. Ainda assim, a sequência do confronto entre ele e Streep no escritório da madre superiora é antológica e vital no cetro da história. Amy Adams, que até aqui não tinha feito outra coisa que não fosse papel de tontinha, surpreende completamente com uma freira constantemente à beira do abismo, sempre num estado emocional prestes a explodir. É impressionante, o seu desempenho, e partia desde já como favorita à estatueta de actriz secundária, não fosse a concorrência absolutamente desleal da sua colega de filme, Viola Davis. O trabalho da quase desconhecida Davis podia ser resumido pelo facto de estar nomeada por apenas oito minutos de filme. Uma única sequência, mas que me impressionou como já há muito não acontecia e que deixou metade dos EUA em polvorosa -a própria Merryl Streep, numa qualquer entrega de prémios, gritou ao microfone the giganticly gifted Viola Davis. My god somebody give her a movie! Viola Davis merece sem hipótese de concorrência o Oscar. O Oscar e todos os prémios que conseguir. Como se imita um olhar? Como se consegue transmitir tanta dor e a certeza de que a vida que se tem é um pesadelo insuportável ainda antes de se ter proferido uma palavra sequer? É isso e muito mais que Viola faz numa das cenas mais terrivelmente pesadas e sufocantes dos últimos anos. Um diálogo em que a personagem não diz tudo o que queríamos ouvir, mas mostra-nos o que não gostamos nunca de ver. Uma daquelas situações em que não sabemos bem o que dizer, o que fazer, e que nos esmaga por completo. Viola Davis atropela o espectador de uma forma implacável, e assina uma das melhores interpretações de que tenho memória. Sem exageros. Sem histerias. Completamente low profile mas um poderoso soco na cara (ver a sequência mais abaixo, obrigatoriamente).
De resto o filme é tudo o que já disse e mais uma coisa; uma maldade do realizador - dramaturgo e encenador da peça que originou o filme, e com a qual venceu o Pulitzer - que se dá ao luxo de nos deixar na mais completa dúvida em relação ao que se terá realmente passado com o padre Flynn (Hoffman). O desconforto à saída da sala sente-se entre todos os espectadores, mas a opção é inteligente. Fazer um juízo de valor acerca de qualquer uma daquelas pessoas que vemos no ecrã seria um perigoso condicionar da nossa opinião, e um tropeção imenso do argumento. "Doubt" não é um thriller, um mero filme de suspense. É uma história que fala de um terrível segredo e da ainda mais horrível realidade que surge do facto desse segredo não poder ser esclarecido. Fala da dúvida e do poder que a dúvida tem nas pessoas que têm dúvidas. É um objecto poderoso, o do realizador John Patrick Shanley, obstinado na forma como está desenhado, desconfortável na frieza (no frio) das suas imagens e sons. Já não há muito cinema assim nos EUA; "Doubt" é muito mais um certo cinema nórdico. Repito, não é de todo um grande filme. Está, isso sim, numa categoria de cinema ao lado do habitual. "Doubt" é um filme impressionante.

Viola Davis



Doubt

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segunda-feira, fevereiro 09, 2009

VICKY CRISTINA BARCELONA

Já para já, não se percebe o título do último filme de Woody Allen. Ao contrário do que lhe costuma ser usual, Allen não faz da magnífica cidade de Barcelona uma personagem central na história. Aliás, os acontecimentos mais importantes do filme têm lugar não em Barcelona mas em Oviedo, o que renuncia por completo o rótulo de filme-bilhete postal que tantos críticos têm atribuido ao mais recente trabalho de Allen. Por outro lado este cartaz também não me parece correcto. Falta claramente aqui uma personagem...

E este é um trabalho muito mais Almodovariano do que Woodyalleniano. O argumento, as personagens, uma certa esquizofrenia saudável - partilhada por ambos os realizadores, mas neste filme muito mais a do espanhol do que a do americano - a música e o facto incontornável de ter dois actores espanhóis e que já estiveram a mando de Almodóvar. Ou seja, depois do cinzentismo arrogante e emproado britânico que fez com que Woody Allen assinasse a pior sequência de filmes da sua longuíssima carreira - uma opinião muito minha, claro - a energia catalã trouxe de volta um dos realizadores mais importantes da história do cinema e ainda por cima com toques exóticos de uma cinematografia fresca e diferente.

Não que Woody Allen já não tenha realizado filmes assim, longe da comédia slapstick que tanto admira e bastante sérios no conteúdo. "Vicky Cristina Barcelona" é um filme sério, nada cómico, nada desbragado, bastante dramático, até, e muito cínico sobre as vidas de todos nós; sobre o que queremos e não temos coragem de assumir, sobre os passos que não damos e devíamos mesmo dar, sobre aquilo que nós somos e aquilo que nós queremos fazer acreditar que somos. Uma história simples de um triângulo amoroso-mais-um, mas feita de pessoas reais, com desejos reais e dúvidas reais, bem reais.

Não é uma obra-prima, mas é um filme que transporta uma energia relaxada e muito confortável, e que ao mesmo tempo demonstra uma enorme sensibilidade de sentimentos. Um filme de Woody Allen e que no entanto tem a cena de amor mais bonita dos últimos tempos. Simples, extremamente bem filmada e ainda melhor interpretada. Vem logo a seguir a uma sequência que tresanda a Almodóvar - que quase parece uma homenagem, aliás - e que envolve um grupo de convivas e um guitarrista clássico num jardim à noite... Familiar, não?

"Vicky Cristina Barcelona" parecia ser mais um filme falhado do mestre. Não o é. Surpreendeu-me, soube bem e acima de tudo deu-me a conhecer o que pode sair de um cineasta genial e que não contente se deixa contaminar pelos tiques de outro cineasta genial. Para além disso tem os habituais diálogos rápidos e brilhantes de Allen, as interpretações sempre no mais alto nível - de onde se destaca o magnífico trabalho de Penélope Cruz, justamente nomeado para o Oscar de actriz secundária - e uma forma de filmar sempre artesanal mas sempre tão perfeita.

Como já disse, foi uma boa, muito boa, surpresa. O único problema - e com que ja me tinha deparado em "Milk" - é o público que vai a estes filmes. Público que tanto se ri do comportamento de um homosexual, como se ri de três pessoas que subitamente se tornam amantes, como se ri, no fundo, da sua própria vida. Público que obviamente devia ter ido ver um filme diferente e que foi a este porque ainda não tinha estreado o "Pantera Cor-de-Rosa 2".
O brinde, absolutamente irresistível, é a música que abre o filme e que é maravilhosa. De uns senhores chamados Giulia y Los Tellarini. Lá mais em baixo, fazem favor.




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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

DEFIANCE

Edward Zwick é um dos raros realizadores que ainda arriscam um certo estilo clássico de cinema. Uma forma que já poucos utilizam de compôr obras com todos os ingredientes de outras épocas. Argumentos, diálogos, personagens e uma maneira de filmar que são nitidamente de uma era quase em extinção. Esse classicismo é, como já disse, arriscado, e às vezes (não sempre) custa caro.

"Defiance" parece-me sofrer com esse classicismo. Tem um bom argumento, é extraordinariamente bem filmado, a banda sonora é magnífica - e desde já uma favorita ao Oscar - e é no seu todo um filme muito agradável. Podia ser um grande filme. Não o é por uma nesga, e essa nesga é composta por uma série de detalhes, alguns consideravelmente chatos. Desde logo um pormenor em que alguns realizadores insistem e que não faz, na minha opinião, qualquer sentido. A acção do filme situa-se na Bielorrússia aquando da ocupação nazi, e o facto dos intervenientes, judeus, falarem inglês com sotaque em vez do hebreu original, é algo que não só me irrita solenemente como condiciona e de que maneira as interpretações. A sequência, em que Tuvia - a personagem desempenhada por Daniel Craig - vai a casa dos responsáveis pela morte da sua família, é a todos os níveis brutal. Crua, dura, o diálogo intenso e angustiante. A cena quase toda é falada em bielo-russo, mas no momento decisivo, em que Tuvia se prepara para matar finalmente o causador da sua desgaça, tudo se desvanece ao ouvirmos "this is for my family" num inglês macarrónico e com um acentuado sabor de leste.

Outro problema, e este mais incompreensivo, é a total perda de gás de que o filme sofre lá mais para o meio. Depois de um início auspicioso, também ele brutal, violento quase e muito bem construído, a história cai numa modorra aborrecida, lenta, sem importância e demasiado demorada para a paciência de qualquer espectador. Só mesmo no final é que as coisas se compõem e tudo volta a adquirir um ritmo e uma incerteza interessantes.

Zwick passou ao lado de um filme forte e que podia ser um concorrente de peso aos Oscar. Assim limita-se a tentar vencer um prémio para a melhor banda sonora, da autoria do fabuloso James Newton Howard. E que é um belíssima e pesada banda sonora. Mais uma vez esta semana, é pena.

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terça-feira, fevereiro 03, 2009

FROST / NIXON

O melhor que se pode dizer do último filme de Ron Howard é que é tecnicamente competente. E já é dizer muito de uma obra que prima pelo aborrecimento, pela desilusão e por ser um tremendo bocejo. Desilusão não porque estivesse à espera de um grande filme de um realizador tarefeiro que, sabe-se lá como, quase atingiu o estatuto de auteur. Desilusão porque no fim, depois de mais de duas horas de filme, saí da sala exactamente como entrei. Ou seja, sem saber que impacto tiveram na realidade as entrevistas que David Frost fez a Richard Nixon na ressaca da sua demissão do cargo de presidente dos EUA.

Toda a gente sabe quem foi Nixon, toda a gente sabe o que ele fez e as consequências que isso trouxe a um país na altura à beira de um esgotamento nervoso. (Quase) ninguém conhecia estas entrevistas, pelo que devia ter sido uma prioridade do realizador de um filme que se propõe a abordá-las, dar ao público uma noção do seu impacto na sociedade americana. Mas não.

O filme arranca bem, com ritmo, com o montar da acção de forma dinâmica e que nos prende ao ecrã. A apresentação das personagens é bem feita e imediatamente ficamos a saber quem é quem e o que é que se está a passar. E pronto, logo a seguir a primeira ejaculação precoce. Para já porque Ron Howard, na dúvida entre fazer um falso documentário ou uma dramatização dos acontecimentos, cria um híbrido sem sentido e que chega a ser ridículo. Os principais intervenientes da realização das entrevistas - os produtores e investigadores que trabalharam com Frost - vão falando para a câmara como se de um documentário se tratasse, explicando ao espectador o que se estava a passar na altura. O pior é que esse estratagema não só não é bem explorado, como a dada altura é totalmente abandonado por Howard. A coisa dá nitidamente a sensação de não ter sido bem pensada e de não ser mais do que isso mesmo: um estratagema.

A segunda ejaculação precoce dá-se quando, já a meio do filme, nos damos conta de que o realizador não tinha planeado dar grande atenção às entrevistas em si. O centro de toda a história é pura e simplesmente passado a correr, e em poucos minutos - bem somados - temos tudo arrumado a um canto. Ou seja, a primeira hora de filme é passada a dar-nos a sensação de que realmente algo de grande se iria passar, e a segunda hora é utilizada para nos dizer que sim, era importante, mas também não tanto. Quando é o próprio Nixon quem diz a Frost, no primeiro encontro que tiveram, que nunca tinha sido desafiado para um duelo. Frost responde que não é um duelo e Nixon, firme e ele próprio desafiador, atira um "claro que é". Ron Howard não achou.

A última ejaculação precoce chega nos últimos instantes do filme, quando nos apercebemos de que não vamos ficar esclarecidos quanto às repercuções destas entrevistas. Nem no que às sondagens diz respeito, nem no que à opinião pública diz respeito, nem coisíssima nenhuma. O filme acaba, tudo segue o seu caminho e vamos lá embora que se faz tarde.

E de repente tive mesmo vontade de ir ver a peça de teatro que deu origem ao filme e ainda por cima com os mesmos actores principais...

É pena. "Frost / Nixon" tinha tudo para ser um bom filme. Tem um elenco do caraças, pura e simplesmente deitado ao lixo - Michael Sheen, Frank Langella, Kevin Bacon, Oliver Platt, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen - tem um bom argumento, uma boa equipa técnica e mais uma boa banda sonora da autoria de Hans Zimmer. Só não tem um bom realizador. E é pena.

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segunda-feira, fevereiro 02, 2009

20% OF US ARE YOU

O primeiro grande filme do ano começa precisamente com o protagonista a falar para um gravador - para nós, realmente - e a dizer "no caso de eu ser assassinado...". Ou seja, nós não sabemos que ele vai ser assassinado, mas essa sensação trágica trespassa o filme e acompanha-nos mesmo até ao final, já depois de Harvey Milk, o tal protagonista, ser realmente assassinado. Segundos após a cena em que o activista pelos direitos dos homossexuais é morto - uma sequência angustiante e bela ao mesmo tempo - revemos um dos momentos iniciais de toda a história; o momento em que Harvey Milk diz ao homem da sua vida que acaba de completar 40 anos e sem nunca ter feito nada de que se orgulhasse. Acrescenta, não tão a brincar quanto isso, que não chegará aos 50. Não chegou.

Harvey Milk tornou-se no primeiro homossexual assumido a ocupar um cargo público nos EUA. Em 1978 conseguiu finalmente o lugar de supervisor na Câmara de San Francisco e conseguiu dar ao seu movimento pelos direitos dos homossexuais todo um novo enquadramento e uma projecção que ainda hoje se faz sentir.

O filme de Gus Van Sant - o mais próximo do cinema mainstream que este realizador alguma vez fará - é fascinante. Filmado com um rigor quase coreográfico, conta com um elenco brilhante, liderado por um Sean Penn que consegue um desempenho suave, quase despercebido mas a todos os níveis notável. O olhar da sua personagem não é, nem de longe, nem de perto, o olhar de Penn. E se isso não é uma boa prova das suas capacidades...

Para além disso, vale a pena referir os trabalhos de Josh Brolin e James Franco. O primeiro está nomeado - como Penn, aliás - para o Oscar na categoria do actor secundário, mas foi o segundo que me surpreendeu totalmente. A dignidade que empresta à personagem Scott Smith, o tal homem da vida de Milk, é tocante e temperada com um sem número de pequenos detalhes.

O ponto forte do filme de Gus Van Sant é no entanto essa tristeza que, sem sabermos bem porquê, não nos deixa um só minuto. Como se no fundo já soubessemos que aquela história não tem como acabar bem. E mesmo sabendo - porque a imprensa por estes dias não fala de outra coisa - que Harvey foi realmente assassinado, a verdade é que essa sensação trágica suplanta tudo o resto. Ao ponto de os últimos segundos dessa sequência em que vemos Milk ser baleado, nos trazerem algum alívio. Como se só uma bala pudesse dar algum descanso a Harvey Milk. E no entanto ele tinha tanta vontade de viver.

Última chamada de atenção para a belíssima banda sonora, insuspeitamente assinada por Danny Elfman, novamente a arriscar um filme diferente dos que lhe têm dado fama, e a compôr uma partitura nos antípodas do que tem feito para Tim Burton.

"Milk" é já um dos melhores filmes de 2009, sem dúvida. Está nomeado para oito Oscar, mas não nos podemos esquecer que Gus Van Sant e a Academia não são coisas que se misturem facilmente.





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