kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

quarta-feira, janeiro 27, 2016

A DINAMARCA ESTÁ PODRE



Eu não tenho uma solução para o problema dos milhares de refugiados que todos os dias chegam à Europa. Ou melhor, tenho, mas é uma solução que implicava descer várias camadas de níveis históricos, sociais, políticos e cronológicos; uma espécie de viagem no tempo ao tempo em que tudo começou a sair da linha, a ficar enviesado e a retorcer-se para o que é hoje uma realidade (aparentemente) inelutável.

Da mesma forma, não sei se a Dinamarca é um país racista. Dizer que sim seria fácil, à luz dos últimos acontecimentos e das decisões políticas assumidas pelo seu governo. Seria fácil e seria igualmente a simplificação de uma questão que não se pode, penso eu, resumir a motivos de preconceito estúpido. Há algo mais do que apenas racismo nestas tomadas de posição da Dinamarca e de outros países europeus.

Há racismo, pois claro, mas há também uma arrogância de países ricos que perante os pobres o que querem mais é não serem chateados. Como aquele milionário que sai do restaurante cinco estrelas Michelin e se afasta do pedinte que não come há uns dias e que ainda é capaz de vociferar um qualquer insulto ou piadola aviltante. É disto que se fala quando se fala da velha Europa: um conjunto de ricaços, no seu clube de cavalheiros, bem acomodados, bem comidos e melhor bebidos que escarnicam dos que lá fora não têm sequer um caixote para se sentar. A Europa, a velha e orgulhosa e babona Europa, é um burguês eternamente enjoado, permanentemente enfadado com as vidas dos outros.

E pelo meio há racismo. E pelo meio há xenofobia. Que não são mais do que as armas escondidas que garantem que a boa vida dos europeus não é ameaçada pela pobreza e miséria e desgraça dos outros. Pobreza e miséria e desgraça que na origem – a tal origem a que era preciso recuar para se tentar resolver o problema – teve o dedo sujo da Europa.

Há uns meses demo-nos conta de que os nossos amigos, familiares e conhecidos eram racistas e xenófobos. Subitamente, a maior rede social do mundo era a malha que une duas traineiras e em que todo o tipo de peixe podre vinha cair. E ficámos chocados. Chocaram-nos as palavras de quem, jurávamos, não seria nunca capaz de tanto ódio, de tanta frieza e insensibilidade. De quem desejava ainda mais desgraça àqueles desgraçados que davam à costa meio mortos, todos mortos, cada vez mais mortos, ainda bem que mortos, que nós vivos já cá temos que chegue. Abriram-nos a boca de espanto à custa de porrada da feia, à custa da desilusão e da vergonha de conhecermos pessoas capazes de tão asqueroso comportamento.

E, como sempre nestas coisas, o indivíduo tornou-se horda e a horda tornou-se nação e a nação vai bem lançada para se tornar um continente inteiro. A Europa vaidosa de si própria, orgulhosa da sua humanidade, sucumbiu à mentira da benevolência, da defesa dos direitos humanos, do anfitrião que sabe receber e mostrou a sua verdadeira cara feia de burguês que nasceu com um pedacinho de cocó debaixo da ponta do nariz.

E portanto temos a Dinamarca a fazer a vez dos nazis e dos russos de há 80 anos; a ficar com os pertences de quem lhe pede ajuda, a recusar a reunião de familiares separados na freima da fuga ao horror. E temos cercas e arame farpado e cães e soldados; somos uma quinta de luxo, um resort for members only, protegido pelo que de mais avançado há em matéria de segurança contra assaltos. Só que não estamos a ser assaltados e as nossas tácticas de defesa não são avançadas: são uma simples réplica do pior que a humanidade já teve e foi tendo, escondido dos olhos mais atentos por campanhas de marketing e de frases bonitas para t-shirts, never again, never forget

E tenho vergonha de ser europeu a passos largos para ter vergonha de ser humano.

«Os turcos! Os turcos!»
«Quero que se fodam!»


escreveu Howard Barker na peça Os Europeus em 1987. E nada mudou, entretanto. E esta repetição de ciclos que se repetem dentro de si mesmos cria uma inevitabilidade de repetição que me faz acreditar cada vez mais que nada disto algum dia terá solução.  

quarta-feira, dezembro 30, 2015

UM FILME DO CARALHO




Há filmes muito bons e há filmes muito maus. Pelo meio, há todos aqueles filmes de diferentes tipos e qualidades – os fraquinhos, os pretensiosos, os que vemos mesmo sabendo que são maus mas que entretêm a malta, aqueles que podiam ser bons e aqueles que quase eram maus. E depois há os filmes do caralho. E Sicario é um filme do caralho.

E é um filme do caralho porque, pese embora de uma simplicidade rara, tem uma série de detalhes a que convém dar muita atenção. O argumento, de poucas palavras, sem floreados, curto, mas gerido como se de uma epopeia de quatro horas se tratasse, a contradizer todos os que acham que um bom argumento é um argumento palavroso, com curvas perigosas e desfechos surpreendentes. Os actores, em underacting bem medido, bem pesado, a contribuírem com o meramente suficiente para nos conduzir por uma história, mais uma vez, que podia ser resumida com «foi mesmo só isto que aconteceu». A câmara, saída das melhores lições de como filmar acção com Kathryn Bigelow. E a banda sonora, assombrosa, uma outra personagem por si só.

E no topo disto tudo, uma das melhores sequências de acção sem acção dos últimos anos. Uma cena de perseguição automóvel em que nenhum automóvel persegue outro; uma cena em que a tensão se constrói quase por si só, como se ninguém estivesse ao leme da realização; uma cena feita quase exclusivamente pelas câmaras e pela banda sonora e que enerva, inquieta e faz prever, ao segundo, que algo muito mau vai acontecer. Ou seja, que nos coloca na pele dos protagonistas de uma forma de que o cinema moderno, inundado de CGI e fogo de artifício, já há muito se esqueceu.

Num ano em que o narcotráfico esteve claramente em grande – Narcos, uma série da Netflix, e Cartel Land, um documentário – Sicario leva a palma de ouro com distinção. Merece ser visto e revisto, não pela complexidade e pela hipótese de vermos algo que nos havia escapado na primeira vez. Merece ser revisto porque é cinema do bom, com actores dos bons, sólido e sério e que sabe bem. Só isso. Simples.

sexta-feira, outubro 23, 2015

UMA CRÓNICA PEQUNINA SOBRE A GRANDE DESILUSÃO DO ANO QUE ATÉ É DA PIXAR E QUE ATÉ FOI UM TREMENDO SUCESSO



Não seria muito desafiante escrever um título que fosse mais longo do que o que há para dizer acerca de Inside Out. O filme da Pixar, que foi um tremendo sucesso de Verão - como tudo o que a Pixar fez e vier a fazer - é fraquinho. E é fraquinho a todos os níveis. O argumento, desde sempre um dos gigantes trunfos das obras daquele estúdio, é curtinho, desinteressante e um dos mais infantis alguma vez saídos das cabeças pixarianas; a animação, sempre muito boa, mas desta vez um tudo ou nada atrás dos seus antecessores; o humor, sempre rico e exigente, foi substituído por piadas fáceis e fofinhas; e tudo sabe a uma tremenda perda de tempo, a uma enorme desilusão a algo que foi feito assim a correr muito porque não podia passar um ano sem um novo filme Pixar. Se me perguntassem, diria que Inside Out foi feito pela equipa da Pixar que normalmente está sentada no banco. Assim ao género de «só entram em campo porque é um jogo da taça». 
Inside Out não presta para grande coisa, temo que Good Dinosaur lhe siga as pisadas e espero que seja Anomalisa a salvar um ano que, no que diz respeito à animação, está a ser um grande pastel cheio de ar. 
Será que isto significa que os grandes estúdios se sentaram à sombra fresquinha do sucesso e da qualidade das grandes obras de animação que fizeram tanto pelo cinema nos últimos 15 anos?

terça-feira, agosto 04, 2015

TRUE DETECTIVE PASSO EM FALSO



Na década de 80 havia um carro de que gostava muito, o Lancia Delta. Era um carro agressivo, de linhas austeras e, em algumas versões, era uma bomba, um animal selvagem. No início da década de 90 a Lancia decidiu que era altura de renovar a gama Delta e lançou um carro com um visual bem diferente. Lembro-me da minha revolta e de comentar com um amigo «deviam ter-lhe chamado outra coisa qualquer. Isto não é um Delta». 


Hoje, sem a revolta mas com a mesma dose de desilusão, digo o mesmo do segundo tomo de True Detective: não se devia chamar True Detective. Devia chamar-se TO LIVE AND DIE IN VINCI ou THE VINCI CONNECTION ou simplesmente VINCI. E eu sei, é injusto comparar as duas temporadas de True Detective e é ainda mais injusto avaliar esta última à lupa da primeira. Mas a vida é mesmo assim e ninguém no mundo consegue travar as suas expectativas. E também por isso a segunda temporada de True Detective não se devia chamar True Detective.

Pronto, resolvidos que estamos com esta questão dos nomes das coisas, passemos à série propriamente dita (e se ainda não a viram, esta é a altura de pararem de ler ou vão ficar muito irritados comigo).

Quase tudo nesta série é bom que se farta. Os actores estão muito bem, tudo é muito bem filmado e a banda sonora – mais um trabalho de mestre de T. Bone Burnett – é assombrosa e inquietante. E é aqui que começam os problemas, porque a banda sonora é, na verdade, a única coisa inquietante em toda a série. Tudo o resto é de uma banalidade surpreendente, visto e revisto em centenas de filmes e de outras séries que se dedicam a tratar de um assunto, pelos vistos, tão caro aos americanos: os círculos de poder / corrupção / crime organizado / festas secretas com putas de luxo tudo muito bem embrulhado num crime antigo que ficou por resolver e que está (disfarçadamente) no centro de toda a acção e pincelado com personagens que têm mais esqueletos no armário que uma lata tem feijões.

Ou seja, True Detective 2 (chamemos-lhe assim para facilitar) falha estrondosamente onde o seu parente mais velho tinha surpreendido um mundo inteiro: no argumento e na forma como ele é contado. E já se sabe, é o binómio história / realização que torna um objecto destes em algo extremamente viciante e de que apetece falar e teorizar. As teorias em torno de True Detective 1 surgiram porque a série se dedicava, com mestria, a atirar-nos areia para os olhos, nunca revelando a mão, deixando-nos a suspeitar até da nossa própria sombra.

Ao invés, True Detective 2 obriga-nos a criar todo o tipo de teorias porque pura e simplesmente ninguém percebe o que raio se está a passar. O argumento de TR2 (ainda mais simples assim) é um emaranhado tão grande, tão cheio de personagens mais ou menos relevantes, de curvas e contracurvas e de assuntos, que é constante a confusão de quem a vê – exemplo disso, a pergunta tantas vezes repetida sempre que um nome é referido na série: «quem é este?»

TR2 é um passo falhado de forma estrondosa, e prova disso mesmo – e isto é só uma teoria em que acredito com muita força – é que há um antes e um depois dentro da série. Há um antes do grande tiroteio e um depois do grande tiroteio. E este tiroteio foi claramente metido à pressão para que os argumentistas tivessem a oportunidade de fazer reset e simplificar uma história que de tão confusa começava a perder público.

Parte da explicação para a brutal queda de qualidade de TR2 pode residir no facto de que já não Cary Fukunaga quem realiza a série. Foi ele o realizador de todos os episódios de TR1 e foi a sua linguagem que fez daquele objecto uma raridade, completamente original e melhor e mais viciante a cada episódio. TR2 é entregue, como tem sido costume nas séries americanas, a diversos realizadores. Às vezes funciona, às vezes dá nisto.

E volto a admitir que é injusto comparar TR2 com TR1. Especialmente porque uma coisa como TR1 aparece uma vez na vida e fica com o seu lugar bem reservado no tempo e no espaço. E também por isso os produtores deviam ter resistido à tentação de patinarem no sucesso conquistado pela primeira série e abdicarem do nome que lhes deu tanta fama e tanto dinheiro. Não conseguiram e deram um passo falso bem maior do que as suas pernas.  



True Detective 2 é viciante simplesmente, tristemente, porque ninguém quer acreditar no que está a ver e acima de tudo não quer acreditar que não está a gostar e por isso tem de ver mais um episódio, só mais um para ver se alguma coisa faz sentido. É a pior das razões para se continuar a ver uma série, mas é também tão inevitável como as expectativas.

A próxima semana trará o último capítulo de TR2 e, adivinho eu, nenhuma surpresa, nenhum choque de impacto sísmico. Principalmente não trará a perspectiva de uma terceira série. O melhor que pode acontecer agora, a um projecto que teve tudo para mudar este formato, é uma longa pausa para reflexão. Correr atrás de um sucessor por causa da pressão do público – como aconteceu inequivocamente assim que todos se aperceberam que a primeira True Detective era coisa para não dar uma segunda temporada – só vai piorar o que já está mal. Mas neste mundo da televisão, tal e qual como no mundo do cinema, o que manda é o dinheiro e projectos com uma assinatura de autor são animais em extinção que merecem ser acarinhados, guardados no seu habitat e quanto menos se lhes mexer melhor. Assim devia ter sido com True Detective. Não foi e é uma enorme e irreparável pena.



sexta-feira, julho 03, 2015

A MACROINCONOMIA



Já disse isto várias vezes: não fui grande aluno a Economia. Tive um sofrível 13 e apenas porque me decidi, mesmo à última, a fazer um esforço para estudar a coisa. Ainda fui a tempo, no entanto, de perceber que até gostava daquilo e de ficar com a certeza de que, se tivesse descoberto isso mais cedo, teria sido um aluno mais do que sofrível.

Da mesma forma, admito que ainda não percebi nadinha do que se passa na Grécia e na Europa com a Grécia e da Europa contra a Grécia. Não percebo nadinha porque, da mesma forma que durante muito tempo não mergulhei na disciplina de Economia, ainda não mergulhei neste assunto.

No entanto...

No entanto vou percebendo que se mergulhar neste assunto corro o sério risco de me tornar um militante de direita. Olho para as crónicas do Jornal de Notícias e vejo uma maioria de defensores da Europa contra a Grécia, por exemplo. Existem, sim, alguns cronistas daquele diário que defendem a Grécia e o referendo que se vai realizar no próximo Domingo, mas acima de tudo vejo um órgão de comunicação que, sem querer ou intencionalmente, é uma ferramenta de desinformação ao serviço dos partidos que compõem a nossa coligação governativa. Sem querer, ou intencionalmente, o JN é um veículo para uma ideia destra do problema da Grécia com a União Europeia.

Quanto a mim, que pouco percebo do problema, tanto a uma micro-escala como a uma macro-escala, procuro as opiniões dos que teoricamente percebem realmente da coisa e que não são, certamente, o Manuel Serrão ou os ministros e eurodeputados da direita portuguesa. Ouço os prémios Nobel de economia defenderem o não no referendo grego e opto por acreditar mais neles do que nas crónicas enveneadas do JN ou nas opiniões histéricas que por estes dias têm invadido as redes sociais. E posso estar errado, claro. Posso também estar a ser condicionado por opiniões de pessoas que, pelo seu grau de autoridade, me convecem muito facilmente a comer esta história de que os gregos é que têm razão. Posso, é verdade. 

Contudo, olho para dentro, para o nosso problema, e consigo encotrar vários pontos de ligação com o que defendem esses ilustres economistas e pensadores. Olho para os bancos portugueses a colapsarem uins atrás dos outros e para os jogos de Monopólio entre banqueiros e governantes e políticos no activo ou fora dele, e percebo que estão reunidas todas as condições para que se possa acreditar sem problemas na teoria que defende que toda esta austeridade serve única e simplesmente para proteger a banca e os seus bolsos. Não os nossos.

Não percebo muito de economia. Percebo de desinformação, no emtanto. Consigo detectá-la quando vejo uma equipa de reportagem da RTP em Atenas com o propósito de caçar os desesperados, de filmar as filas no Multibanco, de entrevistar maioritariamente a terceira idade, assustada com o que está para vir. Alegro-me quando, subitamente, um dos entrevistados diz calmamente que prefere a dignidade grega à submissão aos senhores da Europa Unida. Consigo detectá-la nas crónicas encomendadas pelos partidos do poder, escritas só porque sim, sem grandes argumentos -­ muito menos argumentos técnicos -­ e que não fazem mais do que destilar interesses partidários e eleitorais.

A macroeconomia tornou-se uma arma política do caraças, ao serviço de quem está no poder e de quem para lá quer ir. Os gregos -­ que por definição e por estes dias, são todos os que estão na mesma situação mesmo que não se apercebam disso ou que não queiram acreditar nisso - estão a correr um risco qualquer que eu não consigo perceber muito bem. O que consigo perceber e bem é que estão a ser alvo de uma enorme campanha de difamação e desinformação; uma campanha que, à imagem dos nossos políticos e governantes, não serve os nossos interesses mas sim os interesses dos magnatas da alta finança. 

E de tudo isto, da minha falta de conhecimento real dos assuntos de economia, do meu desconhecimento do assunto grego, fica a curiosidade de perceber se depois de Domingo, e se o não vencer o referendo, se é de facto verdade que há países que conseguem viver sem a União Europeia e livres das suas regras financeiras; se há países que conseguem voltar à sua moeda, renegando o Euro, e ainda assim viverem bem ou até melhor do que viviam com a moeda única. Se isso acontecer, assistiremos a um fenómeno muito parecido com aquela situação clássica do marido que passa a vida a bater na mulher convencido de que ela nunca o abandonará por não conseguir viver sem ele e que no dia em que recebe a notificação de divórcio fica do tamanho de uma uva passa. E parece-me, tenho quase a certeza, de que é disso que a União Europeia e os políticos, governantes e banqueiros têm medo. O que é uma grande novidade: por uma vez, ao menos, a classe dominante tem medo do povo. Chega a ser bonito, não acham?

segunda-feira, maio 18, 2015

UMA COMPANHIA DO CARAÇAS



Tentei sempre, nestas coisas que escrevo aqui, fugir aos espectáculos do Teatro Universitário do Porto. Já os divulguei, já falei dos processos de construção e ensaio, mas nunca escrevi sobre os espectáculos de um ponto de vista crítico. Por muito que tentasse, ser-me-ia sempre difícil a total isenção. O TUP é-me tão emocional que me rouba a racionalidade e mesmo que falasse mal de um determinado espectáculo, até isso poderia ser uma crítica emocional, marcada pela frustração ou insatisfação pessoais. E por isso não escrevo sobre os espectáculos porque fujo sempre e como posso ao conflito de interesses.

Mas sinto-me à vontade para escrever sobre o TUP e aí sim sem me preocupar com acusações de conflitos de interesse ou de falta de isenção. Acredito que o que digo, e que vou dizer agora, são factos incontornáveis e irrefutáveis - mesmo que não o sejam e que eu escreva mais com o coração do que com os dedos.

O TUP é a companhia de teatro em actividade mais antiga do Porto. Facto. Pouco interessa se é teatro amador, universitário ou profissional. É a mais antiga e não há discussão. Fez mais pelo teatro na cidade do que muitas companhias ainda existentes ou já desaparecidas. Introduziu autores em Portugal, alguns deles, hoje em dia, dos mais conceituados, e foi, de certa forma, uma das primeiras escolas de teatro do Porto. Não foi uma escola, como hoje existem tantas, mas foi o sítio onde as pessoas primeiro perceberam que era teatro que queriam fazer. Foi-o sempre e ainda é. Ainda hoje há quem desista do curso em que está para se dedicar ao estudo do teatro nas suas mais diferentes áreas. Sempre foi e sempre será, o TUP, uma espécie de escola. 

Este ano, o TUP participa no FITEI. Não sei dizer se é a primeira vez, mas tenho a certeza que é a primeira vez em muitos anos. Haverá quem discorde desta participação. Porque o TUP não é uma companhia profissional e por muitas outras razões ainda menos dignas. Por outro lado, há já quem defenda que o TUP não devia participar no FATAL, o maior festival de teatro universitário do país, por ser uma companhia demaisado profissional. Não se entende nenhum dos argumentos. O primeiro desde logo porque, quer gostem, quer não gostem, o TUP faz parte do panorama cultural da cidade e é uma das companhias com maior sucesso de bilheteira. Facto. O TUP é, com todo o mérito, um dos projectos artísticos da cidade que merece o lugar que ocupa e só é menosprezado por quem o quer menosprezar; por quem insiste em assinalar a diferença entre cultura profissional e cultura amadora com argumentos que não lembram ao diabo. O segundo, porque pura e simplesmente o teatro universitário não pode ser um lugar onde se perdoa a displicência e onde se acolhe o conceito de passatempo. O teatro universitário e o amador devem ser alternativas válidas ao teatro profissional. Por isso mesmo, devem ser feitos com a mesma exigência e o mesmo grau de sacrifício. É por isso que o TUP quer ser levado a sério e é por isso que o TUP tem o sucesso que tem e colecciona prémios como poucos. Facto.

Há uma coisa de que tenho a certeza absoluta: o TUP é uma companhia trabalhadora, muito trabalhadora. No TUP acredita-se que o trabalho conduz a um nível e que esse nível define o resultado final e a reacção do público. E é por isso que os ensaios são diários e não semanais e é por isso que os processos duram três e quatro meses. Se o espectáculo que o TUP leva ao FITEI for construído desta forma, não tenho dúvidas de que vai ser um novo sucesso e que vai dar poucos argumentos aos que insistem em arrumar o teatro amador e universitário a um canto. 


O TUP venceu o FATAL. Outra vez, venceu o FATAL. Venceu-o em 2010 e venceu outros prémios pelo caminho, no FATAL e não só. Em seis anos, seis prémios. Facto. E é também por isto que o TUP deve ser levado bem a sério. Não deve ser levado a sério somente no universo do teatro universitário. Deve ser levado a sério. Sem argumentos paternalistas ou desculpas sorridentes. O TUP faz mais e melhor do que muitos profissionais, que também não merecem desculpas nem argumentos. E se tiverem de olhar para o nosso trabalho com o escrutínio da exigência mais afiada, pois que seja, nós aguentamos. Mas não nos menosprezem nem encolham os ombros ao que fazemos. 


Nós somos o TUP e somos do caraças. Com erros pelo meio e tentativas falhadas, mas do caraças. 

quinta-feira, abril 30, 2015

OS CÃES MORDEM E A CARAVANA FICA SEM PERNAS



O dia 1 de Maio que se aproxima e o 25 de Abril em Portugal, representam para a luta do povo o mesmo que o 25 de Dezembro representa para os católicos: são dias simbólicos e nada mais do que isso. O dia 1 de Maio, o dia do trabalhador, foi importante quando se deu. Hoje, é uma data que merece ser lembrada e celebrada e que não merece, de modo algum, ser usada pelos revolucionários de bolso para fazerem de conta que estão na luta. O dia 1 de Maio e o dia 25 de Abril, nas mãos de políticos, sindicatos e adeptos dos partidos, são anedotas mal contadas, daquelas que até teriam piada se não fossem arruinadas por quem as diz.

No dia 1 de Maio, por exemplo, haverá manifestações simbólicas, protestos simbólicos, passeatas simbólicas, reuniões simbólicas e jantares simbólicos. Os sindicatos providenciarão um simbólico hastear das suas bandeiras, distribuirão panfletos simbólicos e farão discursos simbolicamente incendiários. No dia 1 de Maio, alguém algures não trabalhará e acreditará que isso é uma forma de protesto. No dia 1 de Maio alguém trabalhará e será achincalhado pelos que não trabalham, acusando-o de desrespeitar os valores desse dia.

Os sindicatos, como os políticos e os adeptos dos partidos, são maus comediantes que contam sempre a mesma piada mas que enchem o peito com orgulho porque a contaram mais uma vez. Acham que fazem um grande serviço, quando, na verdade, estão a contribuir para que o ecossistema criado para nos espezinhar se mantenha vivo e de recomendável saúde. Esta gente está para o bem-estar de um povo e de um país como os cientistas que fazem experiências em animais estão para as marcas de cosméticos.

E se calhar está na altura de acabar com tanta simbologia, com tanto folclore, com tantos postais ilustrados que de tão gastos que estão se tornaram totalmente ilegíveis.
Se calhar está na altura de encontrar novas formas de luta. Novas formas de manifestação.
Se calhar está na altura de acabarmos com greves que não são mais do que simbólicas e com protestos que não reflectem nunca o que realmente sentimos em relação aos que nos governam e às políticas que inventam para nos lixar mais um bocadinho.

A ditadura do proletariado, tão do agrado dos adeptos de esquerda, é a capacidade do povo em controlar o poder político. E já se sabe, há duas maneiras de controlar o poder político: através de eleições, se quisermos esperar o tempo entre dois actos eleitorais, e através da tomada do poder pela força.

Proponho uma terceira: obrigar o poder político a desistir. A desistir não só da cadeira do poder mas de toda a carreira política. Proponho sugar toda a liberdade e paz de alma aos homens e mulheres que nos governam; não lhes dar um só momento de descanso. Fazer com que se sintam de tal modo ameaçados, que não consigam fazer a sua vida normal; que não consigam ir à mercearia da esquina comprar pêras; que deixem de poder ir ao cinema com a família; que se sintam obrigados a mudar de casa ou a sair à rua apenas na companhia de seguranças. Proponho que os tornemos reclusos da vida que escolheram retirando-lhes qualquer réstia de liberdade pessoal. Proponho que sejam pirateados até ao fim dos seus dias; que vejam as suas contas bancárias reduzidas a zero, os seus dados pessoais expostos, a sua vida completa e liminarmente destruída. Proponho que os ameacemos a sério. Proponho que façamos com que tenham medo do seu povo. Um político sem medo das consequências das suas decisões é o animal mais perigoso à face da terra.

Se calhar está na altura de trocarmos o prato da balança que está mais em baixo.
Se calhar está na altura de fazermos greves sem data marcada e duração determinada e acima de tudo sem medo das suas consequências.
Se calhar está na altura de sairmos à rua e não sairmos dela tão cedo.
Se calhar está na altura de confrontarmos os nossos políticos cara a cara.
Se calhar está na altura de darmos menos importância ao hastear de bandeiras e ao cantar de hinos.
Se calhar está na altura dos cães pararem de ladrar e começarem a morder.
Se calhar já está na altura há muito tempo.

No Brasil foram semanas de manifestações porque o Governo queria aumentar o preço dos transportes. Em Portugal um Primeiro-ministro foge desavergonhadamente ao pagamento de impostos e a malta no café diz «que vergonha».


Se calhar está na altura de deixarmos de ser portugueses.