kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

segunda-feira, maio 18, 2015

UMA COMPANHIA DO CARAÇAS



Tentei sempre, nestas coisas que escrevo aqui, fugir aos espectáculos do Teatro Universitário do Porto. Já os divulguei, já falei dos processos de construção e ensaio, mas nunca escrevi sobre os espectáculos de um ponto de vista crítico. Por muito que tentasse, ser-me-ia sempre difícil a total isenção. O TUP é-me tão emocional que me rouba a racionalidade e mesmo que falasse mal de um determinado espectáculo, até isso poderia ser uma crítica emocional, marcada pela frustração ou insatisfação pessoais. E por isso não escrevo sobre os espectáculos porque fujo sempre e como posso ao conflito de interesses.

Mas sinto-me à vontade para escrever sobre o TUP e aí sim sem me preocupar com acusações de conflitos de interesse ou de falta de isenção. Acredito que o que digo, e que vou dizer agora, são factos incontornáveis e irrefutáveis - mesmo que não o sejam e que eu escreva mais com o coração do que com os dedos.

O TUP é a companhia de teatro em actividade mais antiga do Porto. Facto. Pouco interessa se é teatro amador, universitário ou profissional. É a mais antiga e não há discussão. Fez mais pelo teatro na cidade do que muitas companhias ainda existentes ou já desaparecidas. Introduziu autores em Portugal, alguns deles, hoje em dia, dos mais conceituados, e foi, de certa forma, uma das primeiras escolas de teatro do Porto. Não foi uma escola, como hoje existem tantas, mas foi o sítio onde as pessoas primeiro perceberam que era teatro que queriam fazer. Foi-o sempre e ainda é. Ainda hoje há quem desista do curso em que está para se dedicar ao estudo do teatro nas suas mais diferentes áreas. Sempre foi e sempre será, o TUP, uma espécie de escola. 

Este ano, o TUP participa no FITEI. Não sei dizer se é a primeira vez, mas tenho a certeza que é a primeira vez em muitos anos. Haverá quem discorde desta participação. Porque o TUP não é uma companhia profissional e por muitas outras razões ainda menos dignas. Por outro lado, há já quem defenda que o TUP não devia participar no FATAL, o maior festival de teatro universitário do país, por ser uma companhia demaisado profissional. Não se entende nenhum dos argumentos. O primeiro desde logo porque, quer gostem, quer não gostem, o TUP faz parte do panorama cultural da cidade e é uma das companhias com maior sucesso de bilheteira. Facto. O TUP é, com todo o mérito, um dos projectos artísticos da cidade que merece o lugar que ocupa e só é menosprezado por quem o quer menosprezar; por quem insiste em assinalar a diferença entre cultura profissional e cultura amadora com argumentos que não lembram ao diabo. O segundo, porque pura e simplesmente o teatro universitário não pode ser um lugar onde se perdoa a displicência e onde se acolhe o conceito de passatempo. O teatro universitário e o amador devem ser alternativas válidas ao teatro profissional. Por isso mesmo, devem ser feitos com a mesma exigência e o mesmo grau de sacrifício. É por isso que o TUP quer ser levado a sério e é por isso que o TUP tem o sucesso que tem e colecciona prémios como poucos. Facto.

Há uma coisa de que tenho a certeza absoluta: o TUP é uma companhia trabalhadora, muito trabalhadora. No TUP acredita-se que o trabalho conduz a um nível e que esse nível define o resultado final e a reacção do público. E é por isso que os ensaios são diários e não semanais e é por isso que os processos duram três e quatro meses. Se o espectáculo que o TUP leva ao FITEI for construído desta forma, não tenho dúvidas de que vai ser um novo sucesso e que vai dar poucos argumentos aos que insistem em arrumar o teatro amador e universitário a um canto. 


O TUP venceu o FATAL. Outra vez, venceu o FATAL. Venceu-o em 2010 e venceu outros prémios pelo caminho, no FATAL e não só. Em seis anos, seis prémios. Facto. E é também por isto que o TUP deve ser levado bem a sério. Não deve ser levado a sério somente no universo do teatro universitário. Deve ser levado a sério. Sem argumentos paternalistas ou desculpas sorridentes. O TUP faz mais e melhor do que muitos profissionais, que também não merecem desculpas nem argumentos. E se tiverem de olhar para o nosso trabalho com o escrutínio da exigência mais afiada, pois que seja, nós aguentamos. Mas não nos menosprezem nem encolham os ombros ao que fazemos. 


Nós somos o TUP e somos do caraças. Com erros pelo meio e tentativas falhadas, mas do caraças. 

quinta-feira, abril 30, 2015

OS CÃES MORDEM E A CARAVANA FICA SEM PERNAS



O dia 1 de Maio que se aproxima e o 25 de Abril em Portugal, representam para a luta do povo o mesmo que o 25 de Dezembro representa para os católicos: são dias simbólicos e nada mais do que isso. O dia 1 de Maio, o dia do trabalhador, foi importante quando se deu. Hoje, é uma data que merece ser lembrada e celebrada e que não merece, de modo algum, ser usada pelos revolucionários de bolso para fazerem de conta que estão na luta. O dia 1 de Maio e o dia 25 de Abril, nas mãos de políticos, sindicatos e adeptos dos partidos, são anedotas mal contadas, daquelas que até teriam piada se não fossem arruinadas por quem as diz.

No dia 1 de Maio, por exemplo, haverá manifestações simbólicas, protestos simbólicos, passeatas simbólicas, reuniões simbólicas e jantares simbólicos. Os sindicatos providenciarão um simbólico hastear das suas bandeiras, distribuirão panfletos simbólicos e farão discursos simbolicamente incendiários. No dia 1 de Maio, alguém algures não trabalhará e acreditará que isso é uma forma de protesto. No dia 1 de Maio alguém trabalhará e será achincalhado pelos que não trabalham, acusando-o de desrespeitar os valores desse dia.

Os sindicatos, como os políticos e os adeptos dos partidos, são maus comediantes que contam sempre a mesma piada mas que enchem o peito com orgulho porque a contaram mais uma vez. Acham que fazem um grande serviço, quando, na verdade, estão a contribuir para que o ecossistema criado para nos espezinhar se mantenha vivo e de recomendável saúde. Esta gente está para o bem-estar de um povo e de um país como os cientistas que fazem experiências em animais estão para as marcas de cosméticos.

E se calhar está na altura de acabar com tanta simbologia, com tanto folclore, com tantos postais ilustrados que de tão gastos que estão se tornaram totalmente ilegíveis.
Se calhar está na altura de encontrar novas formas de luta. Novas formas de manifestação.
Se calhar está na altura de acabarmos com greves que não são mais do que simbólicas e com protestos que não reflectem nunca o que realmente sentimos em relação aos que nos governam e às políticas que inventam para nos lixar mais um bocadinho.

A ditadura do proletariado, tão do agrado dos adeptos de esquerda, é a capacidade do povo em controlar o poder político. E já se sabe, há duas maneiras de controlar o poder político: através de eleições, se quisermos esperar o tempo entre dois actos eleitorais, e através da tomada do poder pela força.

Proponho uma terceira: obrigar o poder político a desistir. A desistir não só da cadeira do poder mas de toda a carreira política. Proponho sugar toda a liberdade e paz de alma aos homens e mulheres que nos governam; não lhes dar um só momento de descanso. Fazer com que se sintam de tal modo ameaçados, que não consigam fazer a sua vida normal; que não consigam ir à mercearia da esquina comprar pêras; que deixem de poder ir ao cinema com a família; que se sintam obrigados a mudar de casa ou a sair à rua apenas na companhia de seguranças. Proponho que os tornemos reclusos da vida que escolheram retirando-lhes qualquer réstia de liberdade pessoal. Proponho que sejam pirateados até ao fim dos seus dias; que vejam as suas contas bancárias reduzidas a zero, os seus dados pessoais expostos, a sua vida completa e liminarmente destruída. Proponho que os ameacemos a sério. Proponho que façamos com que tenham medo do seu povo. Um político sem medo das consequências das suas decisões é o animal mais perigoso à face da terra.

Se calhar está na altura de trocarmos o prato da balança que está mais em baixo.
Se calhar está na altura de fazermos greves sem data marcada e duração determinada e acima de tudo sem medo das suas consequências.
Se calhar está na altura de sairmos à rua e não sairmos dela tão cedo.
Se calhar está na altura de confrontarmos os nossos políticos cara a cara.
Se calhar está na altura de darmos menos importância ao hastear de bandeiras e ao cantar de hinos.
Se calhar está na altura dos cães pararem de ladrar e começarem a morder.
Se calhar já está na altura há muito tempo.

No Brasil foram semanas de manifestações porque o Governo queria aumentar o preço dos transportes. Em Portugal um Primeiro-ministro foge desavergonhadamente ao pagamento de impostos e a malta no café diz «que vergonha».


Se calhar está na altura de deixarmos de ser portugueses.

terça-feira, abril 21, 2015

MATEM O PRETO RACISTA, XENÓFOBO, MACHISTA, HOMOFÓBICO, SEXISTA E TARADO!



Já aqui falei sobre os ismos e do profundo desprezo que lhes tenho. Esta semana, e por força, mais uma vez, da histeria mediática patrocinada pela internet, uma nova polémica acendeu os fornos da paixão do ódio dos que gostam de atirar calhaus a tudo o que mexe fora da linha (criada por eles próprios).

Então o Lewis Hamilton, piloto de Fórmula 1, esguichou 150 euros de champanhe para cima de uma moça daquelas que sobem ao pódio só para botar figura e o mundo caiu-lhe em cima e o rapaz agora está para o machismo como o Tom Cruise está para a cientologia e não tarda nada aparece enforcado no jardim de sua casa bem aquecido por uma cruz em chamas. Pois, diz que sim.

Diz que sim mas não me convence. Desde logo porque, e como é bem sabido, é tão certo dizer-se que quem anda à chuva molha-se, como é trigo limpo, farinha amparo saber-se que quem sobe a um pódio onde existem garrafas mastodônticas de champanhe, vai para casa pegajoso e a cheirar a vinho francês de origem protegida. Difícil é fugir-lhe, aliás, que aquilo sai a uma velocidade e com um alcance impressionantes. E é uma festa e toda a gente se diverte e é um momento final de alegria e tal e coisa.

Claro que pode haver quem não goste da brincadeira. Eu cá não gostaria nada, não só porque não sou fã da bebida, mas também porque não gosto de me sentir pegajoso. No caso em destaque não é fácil perceber se a vítima da esguichadela ficou muito satisfeita, se estava só a ser bem-educada e a receber o jacto gelado na fuça com elegância e um sorriso bem profissionais ou se, sendo na China, estava com medo de, demonstrando desagrado, envergonhar o comité central e ser castigada percorrendo a pista a pé, descalça sobre grãos de arroz crus. Mas que estava a sorrir lá isso estava.

Seja como for, a coisa aconteceu mesmo, não é a primeira vez que acontece e nem tão pouco vai ser a última. Como não vai ser a última vez que os histéricos do feminismo/sexismo vêm a público gritar impropérios do género dos que já se ouviram por aí. Alguém já sugeriu, inclusive, que aquilo seria uma espécie de reprodução das famosas money shots com que normalmente terminam as cenas dos filmes pornográficos – que, segundo os histéricos, nos filmes são mais uma demonstração do machismo mais abjecto, mas que feitas em casa são muito giras.

Sinceramente, acho mesmo que a brincadeira pode ser uma tremenda parvoíce e que o rapaz Hamilton não tem o direito de andar por aí a desperdiçar champanhe nas ventas alheias sem pedir autorização. Por outro lado, e mais uma vez, se estás num pódio, seja porque razão for, e se tens mesmo de lá estar, então não podes esperar outra coisa e é bom que te ponhas a pau ou, em alternativa, que leves, por exemplo, um guarda-chuva, de preferência com o logótipo da marca do champanhe utilizado e ainda ganhas uns trocos extra.

O Lewis Hamilton pode até ser machista. Pode, sim senhor. Mas a coisa de espirrar champanhe na cara da menina é um acto machista? Aos olhos dos histéricos é. Como é racismo se um branco por alguma razão bater num negro. Ou xenofobia se um branco gritar com um chinês. Ou pedofilia se o tio que veio de França disser «estás uma menina bem bonita». E é este o tipo de paranóia que tanto criticamos em países como os EUA, em que se alguém falar mais alto com alguém pode ser acusado de violência, ameaça à integridade física ou bullying; em que se um homem disser a uma colega de trabalho «uau, tu hoje vais lá» leva com mace nas beiças e ainda é acusado de tentativa de violação.

A paranóia não termina em ismo, mas a xenofobia, a social-democracia e a democracia cristã também não e são todas igualmente perigosas. E a paranóia relativamente a assuntos tão graves como o machismo é a pior inimiga do combate a este tipo de preconceito. O feminismo, o verdadeiro feminismo, não é isto. Este feminismo croquete – expressão que a minha namorada me ensinou hoje e que, não sei porquê, para mim faz todo o sentido – é tão desprezível como o machismo que tenta combater e é um perigo que importa abafar o quanto antes. É uma paranóia aos gritos, que não só irrita, como desvia atenções do que realmente interessa.

Esta paranóia e os seus arautos desesperados querem convencer o mundo de que o Lewis Hamilton – já agora, um menino mimado, arrogante e mal-educado – é um escarumba racista e xenófobo (a menina é chinesa, por isso…), homofóbico (não molhou um homem, portanto…), tarado (money shot, money shot…) e machista (… não sei porquê…) e que, portanto, devia mesmo acabar os dias pendurado de uma árvore nas traseiras da sua mansão, rodeado por capuzes brancos e uma cruz a arder.

Se for esse caso, então, deixo aqui duas sugestões:
Primeiro, se o fizerem incluam na punição uma outra menina que aparece nas imagens do incidente. Está vestida da mesma maneira que a vítima e, apesar de também ser chinesa, está a rir-se como uma louca, pelo que só pode ser uma cabra sem sentimentos e que não conhece a importância da solidariedade feminina.
Segundo, que o castigo seja perpetrado por um grupo de indivíduos sem género definido, híbridos na sua raça e sem convicções religiosas de qualquer espécie. Não vão querer que categorizem o castigo como uma coisa movida pelo sexo, raça ou credo, pois não? – Ainda assim, suspeito que havia de aparecer algures um maluquinho para acusar a horda punidora de ser uma nova e perigosa, porque muito motivada, forma de protesto dos que não têm sexo, nem raça, nem credo.
O mundo é dos tolos e ainda bem que nem toda a gente anda na rua com garrafas de champanhe…


domingo, abril 19, 2015

O LUGAR DA CULTURA?



Sempre achei que muitas das pessoas que estão à frente de ministérios, secretarias de estado, gabinetes de desenvolvimento e de investigação e tantos outros serviços que nos interessam de uma forma ou outra, têm pouco ou nada a ver com os assuntos em questão. São cargos ocupados por inúmeros motivos; por colocação, por sugestão de amigos de amigos, por ascensão natural na carreira, etc. Não são, acredito eu, por interesse pessoal na matéria a ser trabalhada. Mais concretamente, acredito que no campo governativo, os políticos são as piores pessoas para assegurarem os interesses da cultura. Um político carreirista lutar pelos interesses de quem produz e de quem consome cultura, é mais ou menos o mesmo que destinar um economista académico a uma vida de vendedor de bolas de Berlim nas praias da Nazaré.

Eu sei, é arrogância nivelar todos os políticos profissionais por um mesmo degrau de ignorância, de burrice e de desinteresse por todos os assuntos que não tenham a ver com economia, finanças, banca e politiquice pura e dura. Por outro lado, todos os dias, de há não sei quantos anos para cá, não vemos outra coisa que não seja um profundo desinteresse pelo estado da cultura em Portugal e pela qualidade de vida de quem a trabalha. Os profissionais da cultura em Portugal não são profissionais aos olhos dos outros. Cultura em Portugal ainda é, para muita gente, um hobby, uma coisa que se faz nas horas vagas. Os enfermeiros, os tipos do metro e os pilotos da TAP, esses sim, esses têm de lutar pelos seus direitos e têm de receber mais e trabalhar menos horas. Os actores, realizadores, encenadores e aquela gente toda das artes, esses já têm muita sorte em receber seja o que for para fazerem aquelas coisas que ninguém vai ver. Eu também acho que os enfermeiros e todos os outros profissionais de todos os sectores têm o direito, acima de tudo, a serem respeitados por aquilo que fazem. O respeito, esse, tem é de ser para todos.

A mais recente prova de que os políticos deste país se estão nas tintas para a cultura e que para eles a cultura e as artes são coisas muito estranhas e de que eles não percebem uma migalha de pão seco, é este fórum organizado pela secretaria de estado da cultura com o nome profético O Lugar da Cultura – no fim explico esta do profético. Durante três dias, Lisboa será palco de uma aturada discussão em torno da cultura e da sua «presença e relevância em Portugal», segundo palavras do próprio secretário de estado. Tudo muito bonito, não fosse o painel de oradores composto por economistas, directores e professores de várias universidades, outros ministros e secretários de estado, um delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, no Vaticano, um antigo presidente do Parlamento Europeu, o Imã da Mesquita Central de Lisboa, a vice-presidente da comunidade judaica em Lisboa, a presidente do INE e mais uns quantos outros que, segundo a organização do fórum, têm tudo a ver com a discussão em causa. Artistas? São muito poucos…

Se o objectivo é falar do lugar da cultura e a sua relevância no nosso país, começo por duvidar, então, do conhecimento que os convidados internacionais terão da nossa realidade cultural e artística. E se os artistas estivessem mais representados neste discussão acerca da sua relevância e lugar, não teria quaisquer problemas em que viessem uns quantos camones para botar faladura acerca de algo que, desconfio, sabem muito pouco. E é aqui, precisamente que reside o problema. 

É este, aliás, o problema. Em Portugal quem trata da cultura, quem lhe dá meios, quem olha pelos seus interesses, são políticos, economistas e teóricos dos mais diversos quadrantes, que se convidam uns aos outros para as conferências, fóruns e debates que organizam. Esta gente vai a conferências por um preço e faz disso uma carreira, que começa ou acaba na publicação de um paper numa revista muito conceituada. Pelo meio fica a dita conferência, com honorários não tão de saldos quanto isso, estadia em hotel de cinco estrelas e jantares de gala. E nada, como diriam os espanhóis. Daqui não resulta nada, muito menos para os artistas e profissionais (a sério) da cultura em Portugal.

Este fórum, como tantos outros, é um passeio de vaidades, um ninho de amiguismos, sem real interesse ou preocupação pelo assunto em debate, sem vontade se mudar seja o que for. É uma tremenda perda de tempo e de dinheiro, um novo-riquismo de quem gosta muito de brincar à gente crescida, que organiza eventos internacionais e gosta de gritar «também somos civilizados!»

Portugal é um país triste porque é ridículo. É um país triste porque, como muitos outros, é conduzido por gente que se veste como um bancário. Num país como este, a resposta à pergunta – que nem no fórum é uma pergunta – qual o lugar da cultura? é simples: não sei, mas sei que não é em Portugal.


Pequeno comentário: de acordo com informações recolhidas pelo jornal Público, este fórum terá custado aos cofres da secretaria de estado da cultura cerca de 140 mil euros. Esses 140 mil euros davam para muita coisa na cultura, mas a verdade é que a secretaria de estado da cultura e o seu secretário, não se preocupam lá muito com a cultura. Para ele e para os outros como ele, é este o lugar evidente da cultura: num cantinho, bem longe da vista, como quem arruma aquele kit de fondue que recebeu pelo casamento e para o qual não tem a mais pequena utilização. Não era necessário gastar 140 mil euros num fórum para nos provar o que já sabemos.

quarta-feira, abril 01, 2015

A CORJA E O RAMBO



Imaginem um país em que o Primeiro Ministro é apanhado a fugir ao fisco, o anterior Primeiro Ministro está preso, acusado de fraude fiscal qualificada, corrupção e branqueamento de capitais, diversos novos inquilinos de câmaras municipais e juntas de freguesia denunciam variadíssimas prácticas criminosas dos seus antecessores e em que o casamento entre os tubarões do sector privado, nomeadamente da banca, e os políticos eleitos pelo povo é um enorme charco de nojo. Imaginem que nesse país se descobrem as ligações nada bonitas entre o Ministro da Defesa, os seus amigos e o seu próprio gabinete de advocacia. Imaginem que o ministro, por exemplo, atribuiu a construção dos drones portugueses a uma empresa gerida por um seu antigo assessor; imaginem que em 2014 o gabinete de advocacia que pertence ao ministro promoveu um seminário sobre oportunidades de investimento na Colômbia uma semana antes do dito ministro visitar aquele país da América Latina em representação do governo português; imaginem ainda que, três meses após uma visita do ministro ao Perú, também ela oficial, que este gabinete anunciou um novo parceiro, imagine-se, peruano. 

Se ouvissem falar de um país onde coisas destas acontecem, qual acham que seria a vossa opinião de tal país e, acima de tudo, da sua classe política? Pois é assim que os outros olham para Portugal e para a nossa classe política: um bando de corruptos em nada melhores do que aquelas caricaturas de líderes de países fictícios que povoam o cinema de série B em que heróis anti-fascistas combatem políticos rastejantes e capitalistas de fundo de floresta tropical e lhes destroem o império munidos somente de uma faca de cozinha e duas riscas pretas debaixo dos olhos para se disfarçarem na vegetação.

Este é o nosso país e estas são as pessoas a quem confiámos a condução da nossa vida. E confiamos nestas pessoas, seja lá pelo tempo que for, porque durante gerações e gerações fomos convencidos de que era realmente necessário e muito bom para nós escolhermos os nossos representantes. A noção de representante, de líder que olha pelos nosso interesses, impregnou-se no nosso DNA e existe hoje na forma de responsável de condomínio, líder sindical, presidente da associação de pais, delegado de turma, presidente de junta, presidente da câmara, ministros, presidente. Fomos convencidos disto. Fomos convencidos de que era tudo no nosso maior interesse e estamos agora lentamente – muito lentamente – a convencermos-nos de que é tudo uma grande mentira nascida, cultivada e crescida numa grande verdade. Não é no nosso interesse e não sei quando terá sido a última vez que realmente terá sido no nosso interesse. Sei que já não é e sei que tão cedo não volta a ser.

Esta gente, esta corja, que compõe o tecido dos eleitos a serem eleitos, dos que podem ser escolhidos para nossos representantes, é o pior de qualquer sistema político e é decididamente o início do fim dos sistemas políticos. Depois disto só a absoluta e total anarquia. Sem eles não nos entendemos e com eles só ficamos pior, cada vez pior. Num incêndio destas proporções só uma explosão é remédio, portanto, que haja uma explosão que nos faça regressar a um tempo que se calhar nunca existiu, a um tempo de anarquia. Porque isto, este sistema, conduzido por esta gente, perpetuado por esta gente, não tem solução. E não tem solução porque é demasiado bom para esta gente o recusar e tentar ser o que tanto esperamos e necessitamos e porque nós, os verdadeiros responsáveis pela queda de um sistema, não os controlamos, não os responsabilizamos e não reclamamos.


Esta gente é criminosa. São criminosos com licença para matar, com autorização para roubar, com o direito atribuído por nós de nos fazerem mal, de nos maltratarem, de nos colocarem no lixo, sem remorsos, sem vergonha. E em criminosos eu não voto. Neste sistema eu não voto. Votarei, sim, no dia em que um qualquer Rambo de faca de cozinha nos dentes e dois dedos pretos debaixo dos olhos subir ao poder para explodir esta corja da face do planeta. Nesse dia voto e levo comigo uma faca de pão que guardo na gaveta da cozinha e que é bem perigosa e faz uns cortes bem lixados de curar. Nesse dia sim.

quinta-feira, março 26, 2015

AH, OS FILHOS DA PUTA...



Há um senhor que escreve no Manifesto 74. Chama-se António Santos e tem a vertebralidade de um atrópode. Escreve o senhor no dito blog acerca de assuntos comunistas; escreve com o coração, comunista, e com a alma, comunista também. Não escreve, e é pena, com a coluna vertebral de muitos comunistas.

O senhor António escreveu há uns dias uma espécie de crónica em que colocava 19 pertinentes questões. Se qualquer um de nós respondesse afirmativamente a cinco dessas questões isso seria um sinal inquestionável de que somos filhos da puta. Está giro e tal, percebe-se a mensagem, é certo, e o ataque aos que o senhor António considera serem os filhos da puta da nossa sociedade, sem dúvida. O problema não é tanto o que o senhor António escreve, mas aquilo que se segue ao que o senhor António escreve.

Destaca-se, desde logo, o facto de o senhor António ter retirado da sua espécie de crónica quase todas as fotografias de personalidades públicas que tinham lá sido colocadas para exemplificar cada uma das questões colocadas. Ele era governantes, políticos, empresários, enfim, a fina nata daqueles a quem o povo chama filho da puta. Presumo também que sejam estes os que mais facilmente telefonam aos seus advogados a fazerem queixinhas de moluscos como o senhor António e que, por essa mesma razão, o senhor António se terá posto fino e para não sofrer quaisquer tipos de represálias lhes apagou os retratos – alguns de altíssimo nível e elegância estonteante.

Ou seja, esta coisa de se dizer o que se quer porque a internet nos protege do lado de lá de um ecrã, aparentemente, e a dizer pela atitude do senhor António, não deve sossegar todos os que querem dizer o que querem. O senhor António claramente não se sentiu sossegado. Ou isso ou alguém do blog lhe disse «põe-te fino, Toni» ou algum advogado amigo lhe disse «abispa-te, Tóno». E o senhor António abispou-se. Ou melhor, abispou-se mais ou menos que eu não tenho a certeza do alcance do poder de queixa da moça Le Pen – uma das duas sobreviventes da borracha higiénica do senhor António.

O senhor António e outros como ele metem-me o mais nojentos dos nojos. Têm muita coragem mas por dois minutos, que a seguir vem a caganeira e correm para se agarrarem à saia da mãe – e entendam por mãe o que acharem mais indicado. E a coragenzinha que levou o senhor António a retirar o que tinha feito – foi ele que fez, era ele que o devia assumir sem medos – é a mesma que o leva a escrever, no espaço dedicado aos comentários, a seguinte pérola de que Castro tanto se orgulharia: Em resposta a algumas perguntas, aqui e ali deixadas, informo que censuro e continuarei a censurar quaisquer mensagens de natureza fascista.

É um comunista de mão cheia, este senhor António. Um dos bons velhos tempos, daqueles que acham que oposição é lixo, que a sua opinião é doutrina, imbatível e inquestionável e que se alguém levantar a voz para a desdizer não merece outra coisa que não o cárcere. O senhor António é um filho da puta de um fascista de esquerda que infelizmente veste a camisola política de um partido que tudo tem feito para merecer gente desta – como todos os partidos fazem tudo para merecer os filhos da puta que lá têm, militantes, simpatizantes, etc.

Filhos da puta há muitos e de muita espécie. O senhor António, no entanto, passa a ser um dos tipos de filho da puta que mais me chateiam e o Manifesto 74 um ninho deles que me irrita e revolta por representar o que de pior existe na política: a cegueira fundamentalista.

A título de exemplo e para terminar, que já escrevi demasiado sobre esta raça de gentinha, uma outra crónica do senhor António. Esta, sobre o aniversário do PCP e sem nada de especial a apontar, continha num dos comentários o tipo de cegueira de que falo. O comentário? Este: Parabéns pelo texto, e parabéns todos os dias ao PCP. Só não concordo com a escolha da música, embora adore o Zeca Afonso, na minha opinião devias por uma música de alguém do partido.

terça-feira, março 24, 2015

A BESTA



A história é universalmente conhecida: lá na escola há um puto que não é particularmente popular. Não é simpático nem educado, alias, é até bastante estúpido e insuportavelmente arrogante. É filho de pais ricos, no entanto, o que lhe garante a casa com piscina e campo de ténis com que pode atrair «amigos» e é alto e espadaúdo, o que certifica que, quando se aborrece ou é contrariado ou não tem nada melhor para fazer pode sacudir os mais medrosos com ameaças mais ou menos violentas ou mesmo uns safanões vistosos. É uma besta, mas é uma besta com o poder que lhe permitem ter. Neste caso, o remédio era a maioria dos alunos da escola agir em absoluta concertação e isolar o animal, fazer de conta que ele e a casa dos papás e os músculos impróprios de um rapaz daquela idade não existiam e pura e simplesmente isolá-lo. Deixá-lo sozinho a falar para as paredes, a exercer o seu falso poder sobre os cestos do lixo, uma alma solitária penada, sem ninguém, sem ninguém, sem ninguém. Não durava muito tempo e passava a ser uma memória distante de algo que incomodava e que já só lembrado para as inevitáveis piadas de putos e para dar o exemplo.

O mesmo se devia fazer a Israel. Isolar um país daqueles e levá-lo ao esquecimento era o melhor que se podia fazer. Um mundo perfeito seria um mundo em que todos os países do mundo boicotassem completamente a nação de Israel. Boicote aos vistos turísticos para entrar e sair do país, boicote aos vistos de trabalho dentro e fora do país, boicote aos artistas israelitas, aos cientistas e investigadores israelitas, boicote às importações e exportações israelitas, nem mais um figo comprado, nem mais uma aspirina vendida. Fechar Israel bem dentro daqueles muros de que tanto se orgulha. Não mais reuniões políticas e empresariais, não mais conferências de paz, não mais uma cadeira que fosse na ONU ou em qualquer outra organização, governamental ou não. Isolamento total e implacável do resto do mundo. 

Parece violento? Parece, sim senhor. Muita da população israelita provavelmente não tem culpa das decisões dos sucessivos governos nacionais. Não tem culpa e não concorda. Nem a população nem os artistas, nem os cientistas, nem os investigadores. Mas alguém vota nas eleições e elege estes terroristas tornando-os terroristas legais. Alguém vai às urnas legitimar um estado racista, xenófobo, violento, prepotente e apostado, pelas últimas notícias, em aumentar decididamente o tom da violência na região. E portanto teria muito pouca ou nenhuma pena da população israelita se o cenário idílico acima descrito se concretizasse de alguma maneira. 

É violento? É. É bastante. Mas não é mais violento do que o que Israel faz à Palestina e, desenganem-se, se acharem que não, ao resto do mundo. É claro, Israel não o faz sozinho e sem aliados de peso. Aliados que, como os putos na escola, têm medo do galifão, têm interesse na «amizade» do boçal e não conseguem nem querem, na verdade, dizer-lhe que não. Eu, que já esgotei toda a paciência e crença numa resolução pacífica para o problema que é Israel – e não o problema Israel-Palestina, como todos lhe chamam – ficaria muito contente por ver o país dos escolhidos por Deus encerrado dentro de quatro paredes, deixado a definhar sozinho, sem amigos, sem ajuda, teimosamente à espera da vinda do Salvador à terra só para perceber que a vinda dele não era a salvação prometida mas sim um tiro de misericórdia que não merece. Israel em chamas provocadas pela ira justiceira do Deus deles. Isso sim seria um sonho tornado realidade.