kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

sexta-feira, dezembro 19, 2014

O PRECONCEITO NÃO É SÓ UM PUNHO FECHADO ou «OS TAXISTAS NORMALMENTE ATÉ TRANSPORTAM GAYS E TRAVESTIS NOS TAXIS»



Isto é o que eu sei: uma cidadã meteu-se num táxi e acabou selvaticamente agredida por um profissional no desempenho das suas funções. Isto é, na verdade, a única coisa de que podemos ter certeza. As razões que levaram o taxista à agressão são as apontadas pela vítima da agressão, o que inevitavelmente lhes concede uma repentina condição de verdade absoluta. A versão do taxista agressor é substancialmente diferente e obviamente não consegue convencer tanta gente assim. Isto é o que sabemos. E provavelmente mais ninguém viu realmente nada revelador dos motivos que levaram um profissional a agredir violentamente uma cliente, porque mesmo os referidos colegas taxistas que terão assistido à triste cena, poderão apenas ter assistido comodamente às agressões sem saberem o que se passava e o porquê das mesmas e sem sequer se interessarem por nada disso. O que nós sabemos em relação a isso – e que me parece inquestionável – é que foram plácidas testemunhas de um homem a bater com agressividade e violência numa mulher no meio da rua. E sabemos que não mexeram uma palha para fazer fosse o que fosse. Assistiram, simplesmente. Como assistem calmamente os vizinhos, as autoridades e os funcionários de acção social a dezenas, centenas de casos de violência de homens sobre mulheres, muitos deles, quarenta, até agora, que resultaram na morte das vítimas. Ou seja, não surpreende a calma dos espectadores desta triste cena. É algo que aparentemente nos está no DNA.

E portanto, um profissional agride uma cliente e o que eu espero é que o profissional seja imediatamente suspenso enquanto decorre a investigação. O que eu espero é que o caso siga para tribunal e o profissional seja despedido, caso se prove que é um agressor, e que cumpra uma pena de prisão em conformidade com os crimes que cometeu. Isto é o que eu espero que aconteça. Não me interessam os motivos que o levaram à agressão, podiam ser muitos e nem por isso menos perigosos e preocupantes do que aqueles que a vítima alega. A vítima diz que foi agredida por ter beijado outra mulher, acusa o agressor de ser homofóbico e nós imediatamente saímos à rua e gritamos que o agressor é homofóbico e que o Governo despreza os homossexuais e que Portugal odeia gays. E parte disto, nós sabemos que é verdade. O Governo e os governantes e a classe política em geral não têm grande interesse pelos direitos dos homossexuais. Não é uma prioridade, não lhes ocupa a cabeça, não lhes tira o sono nem lhes rouba o apetite. É um não-problema, uma questão de menor relevo, um problema de terceira linha, muito atrás dos juros da dívida, da ida aos mercados, dos bancos em dificuldades e do material de guerra subaquático. Os paneleiros não interessam, podem esperar, nunca tiveram direitos, bem podem esperar mais uns quantos anos até os terem e o governo que vier a seguir que se resolva com eles.

E portanto, esta parte nós sabemos que sim, é verdade. A parte do agressor ser homofóbico e por isso ter feito o que fez eu não sei se é verdade. E não me interessa. Como já disse, o que me interessa é que um cidadão já não pode estar seguro em circunstância alguma e deve começar a ter medo dos taxistas, empregados de café, funcionários dos quiosques e caixas de supermercado. Porque longe vão os tempos em que os únicos que à noite nos podiam aviar com uns valentes sopapos eram os seguranças das discotecas, os namorados ciumentos e, claro, os ladrões que nos acompanhavam a casa. E é por isso que o que realmente me interessa nesta triste história da agressão de um taxista à sua cliente é a agressão e, para já, não os motivos da mesma.

Como me interessa este fenómeno imediato de levantar bandeiras e sair para a rua aos gritos contra a homofobia e de se organizarem manifestações, ao vivo e virtuais, em defesa da agredida e denunciando o preconceito por trás das agressões quando ainda nada foi provado e especialmente quando, e a não ser que o agressor o admita publicamente, dificilmente se conseguirá provar que o homem odeia homossexuais e lhes move uma caça implacável disfarçado de taxista.

E isto interessa-me porque gostava de ver toda esta energia aplicada a outras manifestações em defesa dos direitos dos homossexuais. Entristece-me que as dezenas de associações de defesa dos direitos dos homossexuais que rapidamente se mobilizaram para gritar contra este aparente caso de homofobia, não tenham a mesma capacidade de mobilização para diariamente se manifestarem contra o desprezo legal com que os homossexuais são tratados em Portugal. E entristece-me e preocupa-me, caso seja verdade que a agressão tenha acontecido por puro preconceito, que seja necessário um homossexual ser selvaticamente agredido para que estas dezenas de associações saiam do conforto dos seus escritórios para virem para a rua com cartazes.

Tudo isto me preocupa, e que me perdoe a agredida, porque o que lhe aconteceu não é o mais perigoso que podia acontecer a um homossexual em Portugal. O mais perigoso que podia acontecer, e aconteceu a um homossexual em Portugal, aconteceu nas centenas de comentários homofóbicos que pudemos ler por estes dias na rede social de referência; nos insultos à agredida, nos parabéns ao agressor, no desejo de que mais indivíduos pudessem ter a coragem do taxista e combater à porrada esse mal, essa vergonha, essa doença que é o amar outra pessoa do mesmo sexo. Isso é o que de mais perigoso acontece aos homossexuais em Portugal. E é ainda mais perigoso quando é pensado, embora não dito, por quem nos legisla e tem o poder de tornar a nossa vida mais justa e o nosso país mais justo e equilibrado. Contra esses, as dezenas de associações que saíram à rua e escrevem manifestos nas redes sociais, tudo por causa da agressão do taxista, não se manifestam assim lá muito.

Lá mais em cima afirmei não me interessarem os motivos da agressão do taxista para já. Para já porque para já me interessa que houve mais uma agressão de um homem a uma mulher e uma agressão de um profissional a uma cliente. Para já porque sou solidário com a vítima das agressões e porque espero ansiosamente que se perceba de uma vez por todas o que aconteceu e porquê. Isto tudo para já. Porque se se provar que a agressão foi movida por motivos homofóbicos, nesse dia acusarei as dezenas de associações de defesa dos direitos dos homossexuais e o governo de Portugal de serem cúmplices desta e de outras agressões, físicas, verbais e aos direitos de milhares indivíduos.


E para que fique bem claro, não é esta manifestação de solidariedade para com a vítima que me preocupa. O que me preocupa é o aproveitamento mediático de um caso tão violento. O que me preocupa é não existirem mais manifestações destas para com as vítimas que são vítimas todos os dias sem que para isso tenham de levar porrada.

terça-feira, dezembro 09, 2014

A MORTE ASSISTIDA DA COMÉDIA À PORTUGUESA



Já inúmeras vezes falei mal – ou critiquei negativamente falando mal, com acidez e algum desprezo violento – o stand up que se faz em Portugal e a comédia e os comediantes que por cá passeiam a sua falta de classe. De classe e de qualidade. E resolvi voltar ao assunto por uma série de acontecimentos, tristes, pese embora seja de comédia que se fale, e que despertaram em mim o lado negro da minha vesícula.

Aqui há umas semanas voltei a sair de casa para ir assistir a um espectáculo de stand up. O facto de ter um amigo em palco – e um amigo cujo trabalho admiro e respeito – foi razão suficiente para me deslocar ao Hot Five, um bar aqui do Porto, e a passar uma hora mergulhado na mais fedorenta vergonha alheia, um presente do dono do bar e mestre-de-cerimónias, e de um dos seus convidados, apresentado como o futuro do stand up em Portugal e alguém a seguir com muita atenção. Pois bem, do mestre-de-cerimónias já sabia eu há muitos anos não ter o mínimo jeito para a coisa. Não tem piada, não tem postura e comete aquele erro típico de quem não tem jeito nem piada e que é refugiar-se nos amigos que tem na sala. O convidado era ainda pior, pelo que não merece que eu escreva mais do que isto.

Ou seja, dez anos, mais coisa menos coisa, desde que comecei a seguir o stand up português, chego à conclusão de que nada mudou. E nada mudou porque pura e simplesmente o stand up português teve sucesso. Inesperado, para mim, mas sucesso. E de repente toda a gente queria fazer aquilo, custasse o que custasse, fosse qual fosse o caminho. E foi por isso que surgiram comediantes – embora me custe, e muito, chamar-lhes isso – que sem que nada o fizesse esperar atingiram um glorioso patamar de fama e sucesso. Outros, felizmente, desapareceram como se nunca tivessem existido. E ainda bem.

Ainda bem, sim senhor, mas se esses já não nos fazem mal, outros há, os que atingiram o tal patamar, e outros que ainda vão a caminho de o atingir, que continuam a infligir-nos um mal, dir-se-ia, irremediável. A culpa é deles, claro está, mas é acima de tudo de uma indústria, a do entretenimento, que se alimenta do que eles produzem, alimentando os papalvos que os continuam a idolatrar.

Exemplo disso é o segundo acontecimento triste que referi no primeiro parágrafo: o lançamento do livro Os Telefonemas do Nílton. E o que é Os Telefonemas do Nílton? É tão somente um compêndio das famosas partidas telefónicas que Nílton pregava aos mais incautos no Cinco Para a Meia Noite. E vai vender? Vai, sim senhor, pois está claro que vai. Vai vender muito e serve, desde logo e também, como exemplo de algo em que Portugal é campeão do mundo: a capacidade de desencantar figuras públicas, famosos, ilustres, vips, divas, opinion makers, spin doctors, etc, etc.

O que me leva direitinho ao terceiro acontecimento triste: a tomada de conhecimento de algo verdadeiramente merdoso que dá pelo sugestivo nome Pancas da Semana. E o que é isto? A resposta é-nos dada pelo canal +TVI! no  seu site: «Pancas da Semana, um programa de humor da autoria de Alexandre Santos, um dos comediantes mais vistos do youtube em Portugal. Depois de alcançar mais de 2 milhões de visualizações com fenómenos como O Estrondo ou A Gunada, Alexandre Santos salta da internet e chega de armas e bagagens ao +TVI para uma série repleta de skeches, paródias, improvisos e personagens que lhe garantiram milhares de seguidores.» Portanto, basta ser um sucesso no YouTube para rapidamente, num saltinho, chegar à televisão e ter um programa só seu? Correcto. Mas se calhar aquilo tem piada, é bem escrito, bem realizado e filmado, os actores são bons e… Não! É mentira! É tudo mau! É mal escrito, é mal feito, não tem piadinha nenhuma e serve apenas para nos tentarmos lembrar onde já vimos aquele sketch ou aquela piadola. Porque é uma imitação rasca de uma imitação rasca de uma imitação rasca.

Mas ainda bem que existe. Ainda bem que existe para percebermos de uma vez por todas tudo o que está mal com o humor em Portugal. Humor esse que anda de um lado para o outro entre o lobby Produções Fictícias e amiguinhos e os comediantes que (mais uma vez) estão dispostos a tudo para terem sucesso. Estes, os do Pancas da Semana, e muitos, muitos outros, como a psicóloga que achou imensa graça a fazer stand up e vai daí decidiu que ninguém notava se ela se inspirasse um bocadinho na Sarah Silverman, dedicam-se a coleccionar o que os outros fazem para se poderem inspirar neles o suficiente para não serem acusados de plágio. Outros, que tinham qualidade no que faziam, são hoje meros assalariados da RTP, paus para toda a obra mergulhados até aos sovacos na banheira do lobby. Já para não falar naquele que francamente ainda devia usar boina e que se acha tanta graça que decidiu começar uma carreira de stand up – e a quem alguém devia dizer para parar já!

Tudo isto bem regado com o lixo que sai de uma das invenções resultantes do fenómeno stand up em Portugal e que foram os cursos. Cursos de stand up e de escrita criativa e de escrita humorística que não têm outra utilidade que não a de cagarem a cada não sei quantos meses gente sem qualidade que aprende a não mais do que acreditar piamente que afinal sempre tem o jeito que a avozinha lhes dizia que tinham e que passam o resto das suas vidinhas miseráveis a fazerem de uma simples ida a um bar ver a actuação de um amigo um inferno na terra.

E isto não vai melhorar. Se para chegar a um canal de televisão, mesmo que somente na televisão por cabo, basta ter sucesso nas redes sociais, então nem imagino o que se segue. Sei que vai ser mau, porque se até aqui não esteve nem perto de ser bom…

Quanto ao tal meu amigo que fui ver ao tal bar, demito-me de falar aqui nele para não ser acusado (compreensivelmente) de falta de isenção. Mas que é brilhante lá isso é. E a fazer uma coisa bem mais difícil e de uma qualidade que não está ao alcance destes farsolas, que não só não o compreendem, e por isso é que o levam a sério, como não o engolem nem com arroz de tomate malandrinho.

BOYHOOD: A VIDA ABORRECIDA DE UM RAPAZ



Muito se tem falado e muito mais se vai falar ainda desse filme Boyhood e do trabalho do seu realizador, Richard Linklater. Chegada a época dos prémios da indústria cinematográfica, e tendo em conta o hype em torno de Boyhood, é previsível, a esta distância, que o filme vá limpar um grande número de estatuetas. É inevitável.

E compreendo a histeria provocada pelo filme e compreendo, porque também a senti, a enorme curiosidade que ele provoca em quem ainda não o viu. Não é normal, e pelo que sei nunca terá acontecido, um filme demorar doze anos a realizar. Não por questões orçamentais ou técnicas, mas por questões de argumento. Ou melhor, Boyhood demorou doze anos a realizar por vontade de Linklater; porque queria acompanhar o crescimento de um rapaz e o envelhecimento dos que o rodeiam de forma natural, sem prostéticas caricatas, sem artifícios, com a realidade do passar do tempo. E isso é obra. E isso leva-nos incontornavelmente à questão como foi possível?

É de facto impressionante, a premissa do filme e a coragem e paciência e organização de Linklater. Alguns dirão que foi uma sorte que os actores se mantivessem agarrados ao projecto e que nada surgisse como obstáculo à conclusão do trabalho. Pode até ser, mas a perseverança da uma equipa apostada em levar até ao fim um projecto desta dimensão é realmente o grande segredo de Boyhood. E isto tudo merece que se pense em Boyhood, que se veja o filme e que se volte a pensar nele e em como foi possível ser feito.

E tudo acaba aqui, também. Porque é este, na verdade, o único trunfo de Boyhood e o seu único motivo de interesse. Por outras palavras: como projecto artístico e documental – porque acaba por o ser – o filme de Richard Linklater fica para sempre, e de forma inteiramente justa, na história do cinema. Como filme, tem toda uma série de falências que fazem com não possa ser ainda maior.

A começar precisamente pelo argumento, escasso e desinteressante ao ponto de por vezes se tornar aborrecido. O que até seria admissível se este Boyhood fosse somente um documentário acerca do crescimento daquele rapaz. Não é. É uma obra de ficção que espelha uma certa realidade que não é real. Presumo, a esta altura, que Linklater tenha sido influenciado pela série documental The Up Series, da Granada Television, em que um grupo de quatorze crianças era acompanhado a cada sete anos por uma equipa de televisão, mostrando ao mundo como era crescer na Inglaterra. Essas histórias são reais, por muito desinteressantes que possam ser, e esse é o seu único e importante interesse. E é um interesse antropológico, sim, mas que alimenta o voyeurismo que há, mais ou menos, em todos os espectadores. Boyhood não tem nada disto. É um híbrido que fica a meio caminho entre qualquer coisa e outra coisa qualquer.

E depois há os actores, em ritmo sonolento, sem rasgo, sem energia e dos quais somente Ethan Hawke parece realmente querer contribuir com alguma qualidade. O seu trabalho é bom, sólido, credível e emocionante. Todos os restantes passam o filme a dormir em pé e a arrastar-nos com eles para uma dormência que a dada altura começa a chatear profundamente. E aqui apetece-me dizer que, ao contrário de tudo o resto, não consigo compreender a histeria em torno de Ellar Coltrane, o actor principal, e de quem se tem dito e escrito as maiores maravilhas. Coltrane, um não-actor, começa bem e acaba mal, mostrando a quem vê, que as suas capacidades de interpretação não existem realmente e que em miúdo – provavelmente porque se sentia mais motivado a participar neste projecto – era-lhe mais fácil fazer de conta. Mas admito: fazer um filme destes num esquema tão complexo como o que Linklater escolheu, pode muito bem provocar problemas no trabalho dos actores e na forma como se relacionam com os seus personagens. Ainda assim, é um elenco aborrecido e que não nos empolga.


E pouco mais há a dizer sobre Boyhood. Porque pouco mais Boyhood tem para nos dar. É um filme importantíssimo, um marco na história, forte candidato a todos os prémios de cinema e a ser eleito rapidamente como filme-culto de uma geração. Algo a que Richard Linklater, de resto, não é estranho. O início da sua carreira elegeu-o como porta voz de uma desalinhada geração de jovens americanos. A sua trilogia Before Sunrise, Before Sunset e Before Midnight tornou-o o realizador de eleição de uma geração de novos intelectuais românticos. O que leva à segunda questão incontornável: e a seguir a isto, o que fará Linklater e a que geração apontará?

Para além disto, Boyhood é um filme longuíssimo, aborrecido, nada emocionante, nada empolgante e que no fim me deixou exactamente no ponto em que estava quando o comecei a ver. Mas ainda me questiono: como foi possível? E é por isso que tenho por ele e por aquela gente o maior respeito.

domingo, novembro 30, 2014

OS COMUNISTAS TAMBÉM VÃO À ESCOLA



Sexta à noite entrei numa escola profissional a fim de assistir a um espectáculo de teatro. Na dita escola, também por força do que por lá se ensina, existe uma mesa destinada à exposição de diversos flyers que divulgam outros espectáculos de teatro, cursos e workshops, concertos e outras actividades de índole cultural e artística. Estava eu a passar os olhos por este painel de informação quando sou desviado para um pequeno flyer, tamanho postal, assim meio mal amanhado, uma fotocópia a preto e branco. Pensei videntes africanos ou um concerto punk numa cave qualquer? Nem um nem outro mas antes um flyer da juventude comunista com o sugestivo e muito explícito título LUTA PELOS TEUS DIREITOS! TOMA PARTIDO! ADERE À JCP! Assim, aos gritos, para os miúdos de 14 anos que estudam naquela escola não terem dúvidas.

E pus-me a pensar não será isto ilegal? Não será isto um claro desafio a qualquer regra de ética? Não deve ser, uma coisa destas não se fazia assim às claras sem consequências se fosse ilegal. E portanto…
Portanto, não sendo ilegal, várias conclusões se retiram deste flyer a convocar a criançada para se juntar às trincheiras da petizada comunista:
  1.           O PCP pensou muito atentamente no tio Mao e decidiu que ele tinha razão e que é de facto de pequenino que se torce o pepino;
  2.       Os outros partidos andam claramente a nanar e ainda não perceberam o potencial de recrutar novos aderentes nas escolas e outros espaços onde a juventude gaste o seu tempo;
  3.      Outras instituições podiam seguir o exemplo da JCP e deixar o mesmo tipo de divulgação nas escolas. Os escuteiros, por exemplo, ou a igreja católica que, dessa forma, poderia facilmente inverter a tendência negativa e aumentar exponencialmente o número de novos sócios; 

Para além disso uma ideia nunca é uma ideia à prova de bala e há sempre como melhorá-la. Por essa razão, deixo aqui a minha pequena contribuição em jeito de conselho ao comité central do PCP: porque não partem para outros espaços e outros escalões etários e até para outras formas de angariação de soldados? Podiam, por exemplo, começar a trabalhar nos infantários; os miúdos em idade pré-escolar não resistem a um bom balão e toda a gente sabe que um balão vermelho (porventura até com a famosíssima silhueta do Che) daqueles cheios de hélio é coisa para chamar a atenção dos pequenitos aí a uns bons duzentos metros.

Podem também intervir junto dos orfanatos e convencer a criançada que por lá mora de que se estão ali a culpa é das políticas de direita e ainda fazê-los acreditar de uma vez por todas que não, não querem ser adoptados por homossexuais que os tios russos e chineses não gostam lá muito dessas modernices. Podem fazer tudo isto com um simples caderno para ilustrar e muitos crayons vermelhos.

Por fim, uma sugestão que tem mais a ver com a gestão dos conteúdos deste tipo de divulgação. O flyer que trouxe da escola tem aquele palavreado e discurso já tantas vezes engolido e vomitado que o PCP usa em tudo o que comunica. Já sabem, são as conquistas de Abril, os filhos da revolução, a força da luta e tantas outras patacoadas que, sinceramente, já ninguém aguenta. Se querem modernizar as formas de angariação de camaradas, convém que modernizem a linguagem e que a tornem compreensível especialmente para putos de 14 e 15 anos, que não só não percebem nada de política, como não percebem nada de, convenhamos, muita coisa…
espera lá…

já percebi! Boa, PCP! BEM VISTO, CAMARADAS! (Assim, aos gritos)

domingo, novembro 23, 2014

O RIVOLI JÁ ESTÁ PARADINHO DURANTE MUITO TEMPO E DEPOIS JÁ ESTÁ EM MOVIMENTO MUITO LENTO DURANTE AINDA MAIS TEMPO E DEPOIS JÁ NÃO SE PASSA NADA DURANTE TEMPO A MAIS!


Alguém aqui anda a mentir a alguém, isso é certo. Ou os cronistas de dança andam a mentir aos leitores quando lhes dizem que espectáculo tal é muito bom, digno da visita, ou os ditos coreógrafos da cena da dança em Portugal andam a mentir ao Rivoli, ou, o mais terrível dos cenários, o Rivoli nos anda a mentir quando cria um programa chamado O Rivoli Já Dança! E em que temos a oportunidade de ver um espectáculo como Cyborg Sunday que é de tudo menos de dança. E já não é o primeiro deste ciclo, já que o objecto apresentado por John Romão – abjeto objecto, indigno de uma sala como o Rivoli – se apresentava mais como uma gigantesca performance e da qual estava também completamente ausente a linguagem da dança.

Tal e qual como acontece no exercício – recuso-me a chamar-lhe espectáculo – de Dinis Machado e do NEC que foi apresentado ontem no palco do Rivoli. Como proposta, Cyborg Sunday é aborrecido ao ponto de se sair da sala com a sensação de que os seus 45 minutos de duração são exactamente o tempo que tem a mais. Cinco actores em movimento não fazem de nenhum espectáculo um espectáculo de dança. Cyborg Sunday é uma performance, isso sim, em que cinco actores passam dez minutos no chão enquanto encadeiam texto, outros vinte a deslocarem-se muito lentamente no espaço enquanto desenham alguns, poucos e ainda mais lentos, movimentos com os braços enquanto continuam a encadear texto, e finalmente mais quinze minutos a regressarem ao ponto de partida, na mesma mecânica, à mesma velocidade, com o mesmo texto encadeado, para, depois de se juntarem, trocarem (literalmente) de cabelos e voltarem a sair para o espaço livre do palco. E o texto é naturalmente mau e mal dito porque surge mais ou menos em improviso, sem ordem marcada e, como não há milagres, não serve para ser pelo menos ele a prender a atenção do público.

É isto e isto não é dança, nem pouco nem mais ou menos, nem moderníssima, nem pós-contemporânea, nem proto-futurista, nem para-avant garde. É uma mentira. Um logro. É uma intrujice, não só como proposta de dança, mas acima de tudo como objecto artístico. É algo que não devia existir, um aborto artístico que deve ser ignorado e desprezado de maneira a que não volte a acontecer nunca mais.

É claro, podemos discutir o nome O Rivoli Já Dança! e aquilo que ele realmente representa. Podemos até acreditar que é só um nome que remete para uma linguagem que já foi prato forte da ementa do Teatro Municipal e que não significa obrigatoriamente ser este um evento dedicado exclusivamente à dança. Podemos, é verdade. Mas fosse esse o caso e com certeza o programa não estaria repleto de nomes ligados à coreografia, não é verdade? 

E portanto, voltamos ao início: alguém anda a enganar alguém. E eu acredito que é um grupo de indivíduos apoiado por outro grupo de indivíduos que engana outro grupo de indivíduos. Alguém dirá lóbi. Eu prefiro o conceito do colinho. Quem pode e tem poder leva outros ao colo e eleva-os a um lugar e a uma condição que não merecem, a salas que não merecem e a um público que não os merece os escrivãos do jornal Público são, nesse sentido, exímios na arte de dar colo aos amigos.

O público de ontem não merecia aquele lixo. Não merecia e manifestou-o da forma mais civilizada possível. O enfado nas caras de quem lá esteve, nomeadamente nos elementos do quartel general do Rivoli, os aplausos desapaixonados no fim e o ataque de riso durante o exercício de uma figura eminente da Câmara Municipal do Porto foram manifestações de desagrado mais do que suficientes. Não foi necessário recorrer à fruta podre e ainda bem: o Rivoli não merece que se recupere tudo o que já fez parte de um passado cultural.

sábado, novembro 22, 2014

A INDÚSTRIA DO ESPECTÁCULO



Não gosto de José Sócrates. Não gosto hoje como nunca gostei. Não o respeito, não o admiro e desconfio dele como desconfiarei sempre de qualquer indivíduo com um cargo político ou uma posição numa qualquer esfera de poder. Assumo essa desconfiança sem pruridos. Nada me daria mais prazer do que ver Sócrates ou qualquer outro político cair de joelhos perante uma acusação de fraude ou corrupção ­– as desconfianças de que habitualmente padeço relativamente a esta classe profissional. No entanto, e sem grande esforço, no que poderá até parecer contraditório à minha vontade de ver os políticos arderem num inferno impiedoso, aguento a sede e espero. Espero por um julgamento, se o caso Sócrates chegar a tal. Espero por algo que também suscita numa grande fatia do povo português forte suspeita. Espero que se faça justiça, não a justiça popular, mas a justiça judicial, nos tribunais, como deve ser.

A justiça popular, hoje, no caso Sócrates, como antes, em tantos outros casos, já foi feita e não pelos populares. A justiça popular em Portugal faz-se pelos órgãos de comunicação que, cansados de servirem os bolsos de que os detém, passaram a servir outros interesses que indirectamente servem os interesses de quem detém os órgãos de comunicação. É um complicado ecossistema, na verdade, e um em que todos comem e poucos são comidos. Se são comidos é porque fizeram alguma coisa errada como, por exemplo, não levar a papinha à mão de quem lhes dá de comer.
Hoje, como em tantas vezes no passado, os jornais, as televisões, as rádios e os sites e redes sociais regozijaram-se com a captura de uma figura pública muito pouco querida. Espumaram baba e sangue porque um odioso ex-primeiro ministro com um cadastro de suspeitas infindável e vil foi detido pelas autoridades. Não se limitaram a fazer disso notícia – e notícia apetitosa, compreensivelmente – e fizeram um espectáculo, o espectáculo que costumam fazer e que é um espectáculo digno das melhores produções blockbuster dos states e em que só faltam os ecrãs verdes e os fantásticos efeitos CGI.

A ocasião faz o ladrão, e no caso da comunicação social a ocasião faz algo bem pior do que um ladrão; a comunicação social portuguesa (e não só) é uma espécie de Hulk: a maior parte do tempo é um aborrecimento de morte, mas assim que o cheiro a sangue invade redacções é ver os jornalistas arrebitados, loucos, cegos, a correrem para os locais de reportagem – os reais e os outros – como se ganhassem nova vida, como se fossem outras pessoas, como se fossem um filme a preto e branco até ao momento em que algo verdadeiramente escandaloso acontece e como uma Dorothy ficassem subitamente em versão technicolor.

A justiça popular, no caso Sócrates está feita e bem feita. Porque desta justiça popular já José Sócrates nunca mais se livra. E a esse respeito convém-me dizer que não me choca a justiça popular que é feita nas mesas de café, nos bancos de jardim, nos escritórios entre colegas e nos balneários no fim do jogo de fim de tarde. Choca-me, revolta-me, que essa justiça popular seja primeiramente feita pela imprensa. Preocupa-me que seja a imprensa nas próximas não sei quantas semanas a alimentar a justiça popular até ao ponto em que esta se torna numa coisa insana, sem limites, sem pudor.

Hoje, na sua página de Facebook, uma jornalista do Correio da Manhã publicou a primeira página do jornal em que trabalha acompanhada por uma legenda da sua autoria em que se pode ler «Uma capa histórica num dia histórico». Não tenho dúvidas, o dia histórico não é histórico porque o Sporting deu cinco ao Espinho no jogo da Taça de Portugal. E basta olhar para essa primeira página e para o infeliz comentário da jornalista para perceber tudo o que se passa no jornalismo português: algo que já há muito deixou de ser jornalismo para passar a ser uma indústria de efeitos especiais, uns merecedores do Oscar, outros nem por isso.  


Portanto preparem-se, os próximos meses vão ser tempos de jornalismo reprovável, despudorado, inventado, vingativo e espectacular. Cultura para as massas? Nada disso. Informação em jeito de serviço público? Nem pensar. Showbiz para as hordas de espectadores ululantes? Pois com certeza, que é isso que alimenta o ecossistema e põe o pão na mesa.

terça-feira, novembro 18, 2014

QUASE JORNALISMO



Já há muito que a andava a desesperar com a qualidade do nosso jornalismo, nomeadamente com a qualidade da escrita e com as inúmeras gralhas e erros gramaticais impressos nos jornais portugueses. Hoje foi a gota de água. O título de uma notícia do Jornal de Notícias informa-nos de que o Estado Islâmico já matou quase 1500 pessoas. E muito bem. Muito bem, a escrita do título, português imaculado, informação correctamente transmitida, não muito bem o EI ter assassinado quase 1500 pessoas, isso é errado. A notícia, no entanto, arranca logo com uma daquelas caneladas com direito a cartão amarelo a fugir para o alaranjado ao informar-nos de que afinal o EI já matou quase 1429 pessoas.

Ora bem, não se matam quase 1429 pessoas. É impossível matar quase 1429 pessoas, por muito que uma ou outra fiquem mais mortas do que vivas, não se matam quase 1429 pessoas  por muito que se percam as esperanças na saúde de um ou outro que sobreviveu, não se matam quase 1429 pessoas a não ser que se tenham matado 1428, e isso de facto são quase 1429 infelizes que viram as suas vidinhas a andar para trás às mãos dos radicais islâmicos.

Contudo, há uma regra qualquer que se aprende no curso do jornalismo acerca de como utilizar estas expressões numéricas numa notícia. O arredondamento aceita-se, por exemplo, no caso das quase 1500 pessoas – pese embora me pareça que 71 pessoas sejam demasiadas para se poder arredondar os defuntos para 1500. Não se aceita, nem se justifica de maneira nenhuma, quando se utiliza um número certo. 1429 pessoas é um número certíssimo e que dispensa, portanto, o uso da palavra quase, porque… já perceberam, não já?

Erros destes e piores são norma no jornalismo escrito que nos vem parar às mãos diariamente. É mau o português, é deficiente o uso da linguagem e das regras gramaticais, são mal escritas as notícias, os artigos de opinião e as crónicas, que perderam redatores de peso para ganharem famosos que sabem suficientemente escrever em português. Que deve ser mais ou menos a única exigência também para se ser revisor em Portugal. É português? Está contratado, não se fala mais nisso. Embora eu acredite, na verdade e infelizmente, que os revisores na imprensa escrita são uma espécie em vias rápidas de extinção. O que será grave.

E é ainda pior do que parece. Num país em que há quem acredite que os pinguins vivem na Amazónia, que a primeira letra da palavra Hugo é a letra grande e em que ministros aparentemente compram os seus cursos superiores, seria mesmo importante ter uma imprensa que informe mas também que ensine a ler. A ler em português correcto. E isso começa na formação, como não podia deixar de ser. Ensinar um futuro jornalista a escrever é da mais fundamental relevância. Ensinar-lhe as regras jornalísticas também, claro, mas de que nos servem as regras se não perceberem o que estão a querer dizer? Se perceberem quase o que querem dizer, se souberem quase como o querem fazer?

Um quase jornalismo é tanto jornalismo como uma quase medicina é medicina ou como um quase engenheiro é engenheiro de facto. E não basta um diploma para se ser profissional seja do que for. A bagagem deve ser maior e mais completa e complementar e deve ser transmissível a quem quizer aprender. Neste caso, o jornalismo informa quem quer ser informado. Fazê-lo correctamente, sem quases, é absolutamente imperativo.

quarta-feira, novembro 12, 2014

OLHA UMA MOEDINHA, FACHABOR...




Acho muito bem! Grande decisão, a do Costa, de cobrar um eurito a quem quiser entrar no seu feudo, sim senhor que é de homem com os colhões (que é como se diz cá no Porto) de aço bem polido, brilhante e garboso. É assim mesmo, ó Costa, se agora os farsolas quiserem entrar aí têm de pagar a respectiva taxa que é para não pensarem que a Lisboa é de todos, que é fácil, que se abre a qualquer um. Não senhor, agora têm de pagar e é se querem. Não pagam para entrar num parque de diversões, nos aquaparques dos parolos no Algarve e ainda em alguns bares? Pois então, pagam para entrar na cidade do Costa que não é nenhum menino e sabe o que faz com a sua cidade, sua e dos seus que o elegeram e esses não pagam, pois tá claro, como podiam pagar se é lá que moram? Não há cá pão pra malucos (é assim que se diz no Porto). 

Sim senhor, ó Costa, quiseste fazer como as grandes cidades da Europa que também cobram a quem lá quiser entrar e elevar o teu feudo à qualidade de grande também e como não havia outra maneira não foste de modas e toma lá morangos (diz-se assim no Porto, não sei se aí em baixo também se diz) que isto é pra quem pode, não é pra quem quer. Acho muito bem que alguém que manda na Lisboa, como o Costa, pense nós não queremos nem precisamos aqui de tanta gentinha e não perca muito tempo a ter uma ideia de génio, regressar à idade média de que tantos sentem a falta e comece a cobrar entradas a torto e direito, que Lisboa não é pra todos. 

Até podias fazer uma coisa que era bem engraçada, ó Costa, e de que eu me lembro com saudade: podias fazer como no Jardim Zoológico de Lisboa (nem de propósito) quando eu era pequenino e tirar fotografias às pessoas que entram em Lisboa. No fim da viagem, à saída, vendias-lhes a fotografia e ainda fazias uns trocos, que isto hoje em dia toda a gente quer ter uma recordação das férias para pôr no Face eu na Portela, eu na portagem, essas merdas. Não sejas morcão (já sabes que é assim que se diz no Porto) Costa, vai por mim e não pares pela taxa. Se a taxa é turismo então pensa em todas as possibilidades que isso te pode trazer de fazer mais algum. Podes vender balões com a forma dos Jerónimos nas portagens da ponte 25 de Abril, nossas senhoras fluorescentes a quem chega nos cruzeiros e galos de Barcelos daqueles que mudam de cor para anunciar chuva aos que vão no pendular. 

Já viste, Costa, podes fazer tanto guito (como se diz no Porto) com os papalvos que por alguma razão querem ir à Lisboa e ficas-te pela taxa? Tem juízo nessa moleirinha (também se diz assim, no Porto). Olha, pela parte que me toca, vou pensar seriamente nessa estratégia e aconselhar aqui o Porto, a cidade onde moro e onde podes vir de borla (e tu podes mesmo vir de borla) a seguir o teu exemplo, campeão (não perguntes, é uma coisa que se diz no Porto). Não a cobrar um euro a quem cá entra mas a cobrar dois euros a todos os lisboetas que quiserem cá comer francesinhas. Porquê dois euros, Costa? Eu explico. É que o teu vice, o Fernando Medina, disse que esta taxa equivale a, e passo a citar, «pouco mais de um café diário» e cá no Porto o café (que é um bem de primeira necessidade) na maioria esmagadora dos sítios não custa mais de 60, 65 cêntimos, havendo ainda quem, imagina, Costa, cobre apenas 50 cêntimos. Ou seja, claramente o nível de vida aí na Lisboa é bem superior ao nosso e se um café vos custa sem esforço um eurito, acho justo que vocês paguem mais para comer uma francesinha do que nós para irmos à Lisboa. 

Ainda por cima porque o que vocês têm por aí também nós temos por cá, sendo que nós temos boas francesinhas e vocês… bem, vocês orgulham-se da sardinha assada e dos caracóis, mas se são esses os vossos ex libris gastronómicos então só posso concluir que todas as vilazinhas piscatórias deste nosso Portugal vão passar a cobrar uma fortuna para lá entrarmos. Espero que não, ó Costa, que a tua ideia é incrível e não gostava nada que alguém se aproveitasse dela para sacar umas coroas à má fila (é uma expressão de cá de cima, Costa) e sem nenhuma justificação por mais ilógica que fosse. Abraço, Costa!