kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

segunda-feira, Março 24, 2014

ACERCA (DO MANIFESTO EM DEFESA) DA CULTURA



Sou incondicionalmente a favor do Manifesto em Defesa da Cultura. Sou a favor deste e de todos os manifestos que defendam a melhoria das condições em que se faz cultura em Portugal. Não há como não ser a favor. Por ser a favor deste manifesto e por querer saber mais acerca dele e do combate que pretende travar, participei ontem numa reunião de trabalho com vista a desenvolver novas formas de luta e a agendar um regresso aos protestos. A reunião serviu para conhecer melhor as linhas com que se cose o manifesto e para concluir uma série de outras coisas igualmente preocupantes.

Desde logo a fraca adesão à referida reunião. Já se sabe que é bom enaltecer o espírito de quem, a um Domingo à tarde, sai de sua casa para aderir à luta. No entanto, custa-me a crer que os organizadores tenham verdadeiramente ficado impressionados ou sequer satisfeitos com as cerca de trinta pessoas que participaram na conversa / debate.

Por outro lado, ficou bem evidente que os presentes (e os não presentes) têm uma relação obviamente emocional com o problema em discussão e que isso acaba sempre por significar um pequeno desvio ao motor do Manifesto em Defesa da Cultura. Nada de errado aqui: há realmente uma série de problemas na cultura que não se resolvem com o tal 1% do orçamento de estado que os subscritores do manifesto exigem ao governo. E esses problemas, percebi eu ontem na dita reunião, estão solteiros de uma abordagem séria e efectiva. Porque são problemas graves que os artistas e produtores de cultura sentem no seu dia-a-dia e que acabam abafados por uma luta meramente orçamental e que nada tem a ver com os problemas de base da cultura em Portugal.

Não que nada disto invalide essa luta. Pelo contrário. Não podemos é enveredar por uma espécie de fuga para a frente, saltando por cima das outras dificuldades e dos erros crassos na educação cultural de um povo e de um país. Por outras palavras, este manifesto deve ter em conta esses outros problemas e abraçá-los com igual veemência e força.

Porque se um dia o país acordar com a notícia de que um qualquer governo decidiu ceder às exigências e conceder o tal 1% do orçamento de estado à cultura, ainda assim haverá questões sérias que ficarão por resolver ou, pior, serão ainda mais graves e determinantes da qualidade da cultura que fazemos e a que assistimos.

Nesse dia, o governo continuará a assumir publicamente que os projectos artísticos de Lisboa merecem receber mais dinheiro do que os do Porto, por nenhuma outra razão evidente que não a estratégico-geográfica. Um olhar objectivo às tabelas dos apoios concedidos pela DG Artes permite perceber que o maior apoio concedido a uma estrutura do Porto não anda longe da média dos apoios concedidos aos projectos da capital. Para além disso, a quantidade de projectos apoiados nas duas cidades é outra disparidade que só parece ser explicada pelo facto de uns serem de Lisboa e os outros da outra cidade lá para cima.

Outra questão que ficará por resolver (e na minha opinião que ficará ainda pior) é a dos valores milionários que se pagam a certos profissionais de teatro. Longe de ser uma questão simples de discutir, já que envolve coisas tão etéreas quanto o valor da criação artística e o património intelectual, a verdade é que esta é uma daquelas matérias que ocupa grande parte das conversas de café entre os outros artistas, os que não recebem valores milionários.

Outra questão que ficará sempre por resolver, mesmo que haja muito mais dinheiro para produção artística e cultural, é a dos preços de bilheteira cobrados por quem faz da cultura a sua profissão. Eu acredito na educação gratuita e acredito ainda mais na cultura e na arte como formas de educação. Acredito, por isso mesmo, que os espectáculos que são pagos pelo governo deviam ser mais baratos para quem os quer ver. Só assim se educa um povo e só assim se consegue levar mais pessoas ao teatro, aos concertos, aos bailados e às óperas.

Mais uma vez, nada disto invalida ou põe em causa a luta pelo aumento do orçamento para a cultura. O que pode pôr em causa essa luta é a evidente falta de coesão e de solidariedade entre os que desta luta retirariam maiores dividendos, os artistas. Artistas que parecem não querer saber ou que parecem comprometidos com a esmola do governo e que por isso não se querem colocar numa situação em que fiquem de alguma forma (não consigo imaginar qual) fragilizados na corrida ao subsídio. Poderá ser por aqui que este manifesto não venha a adquirir a força suficiente para fazer a diferença e para alcançar os objectivos a que se propõe. O que será uma lástima.

A cultura portuguesa precisa de melhorar, disso não há dúvidas. Precisa de chegar a mais público, de o educar e de o ensinar a ir ver. Precisa de ser mais exigente consigo própria e de dar ferramentas ao seu público para que exija mais qualidade e variedade e para que tenha mais vontade de ver mais, saber mais, querer mais. Para que isso aconteça não basta que o governo mude a sua maneira de olhar a produção cultural em Portugal. Para que isso aconteça é necessário que ambas as partes, governo e agentes culturais, mudem de uma vez por todas a forma como se olham e parem de virar as costas uns aos outros. Acima de tudo, é obrigatório que os artistas parem de uma vez por todas de desconfiarem uns dos outros, que comecem a respeitar-se e a apoiar-se e que deixem definitivamente de se achar melhores do que o parceiro do lado e a assumir a sua parte da culpa. E, como alguém me dizia ontem, que parem de se vergar para mostrar cada vez mais o rego. Quando isso acontecer, a cultura começa imediatamente a melhorar, com ou sem 1% do orçamento de estado. 

ACERCA DO RIVOLI



Eu não sei quem é o Tiago Guedes. Não o conheço, nunca ouvi falar dele, não sei nada da relevância do seu percurso artístico. Não o conheço mas dizem-me que é certo que seja o Tiago o próximo programador do Rivoli. Dizem-me também que resulta isto de um arranjinho em politiquês fluente, que o vereador da cultura queria muito que fosse ele e, vai daí, que desenhou um perfil pretendido que só podia ser correspondido pelo mesmo Tiago Guedes. Isto é o que me dizem. Investigo um bocadinho mais e descubro que este Tiago Guedes é coreógrafo e director artístico da associação cultural Materiais Diversos e do Teatro Virgínia, em Torres Novas. Sei que tem uma pequena página na Wikipedia.

Apesar de tudo o que me dizem e de tudo o que vejo escrito por aí, a verdade é que ainda não tenho a certeza de que vá ser este rapaz o novo programador (e angariador de fundos, já agora) do Rivoli. Disto não sei nada. Mas em relação ao Rivoli julgo saber umas quantas coisas e tenho a certeza das dúvidas que tenho em relação a tantas outras.

Sei que no Porto não existe um único projecto capaz de encher os 800 lugares do Rivoli.
Sei que nenhum grupo de teatro o seria capaz de fazer.
Sei que no Porto não existem espectáculos de dança.
Sei que no Porto não existe ópera, pese embora o orgulho vaidoso de um certo Círculo portuense de Ópera.

Tenho dúvidas em relação à escolha deste programador como duvido seriamente que a escolha de um programador, qualquer outro programador, fosse bem recebida pela comunidade artística da cidade. É assim o Porto. Desde o incidente La Féria que os artistas, muitos deles, pelo menos, viraram as costas à Câmara e ao Rivoli e não me parece, sinceramente, que estejam dispostos a mudar de atitude.

Duvido muito que a autarquia tenho dinheiro para compor uma programação que encha a vista e traga gente ao Rivoli.
Duvido que grande parte, a maioria até, dos grupos de teatro do Porto queira realmente trabalhar nas suas salas.
E duvido e desconfio do público do Porto. Duvido da sua real sede de cultura e desconfio tremendamente da sua abertura a todo o tipo de projectos que por cá se fazem.
Duvido que os festivais que existem na cidade consigam encher o Rivoli. Duvido do FITEI, duvido do Fantasporto e sei que já não temos PoNTI e outros festivais de antigamente.

Posto isto fica claro que tenho alguns receios.
Tenho receio de que só o Tony Carreira consiga encher o Rivoli. Tenho receio de que o Rivoli seja uma gigantesca baleia branca, um problema sem solução; tenho receio de que na cidade em que o Porto se tornou (para o bem e para o mal) não faça sentido uma sala das dimensões do Rivoli. Tenho receio de que o Rivoli esteja às portas da morte e que tudo isto seja uma questão de nostalgia imposta pelas características adquiridas pela cidade e pelos que nela moram.

Volto ao início. Não sei quem é o Tiago Guedes. Sei que não vai ser ele o salvador do Rivoli, sei que não vai ser esta Câmara a salvar o Rivoli e sei que é preciso, neste momento, muito mais do que dinheiro, uma programação cultural e um programador que a faça cumprir para salvar o Rivoli. E sei, com tristeza, que ler Rivoli nesta crónica é também ler estado da cultura no Porto.

quarta-feira, Março 19, 2014

FANTASPORTO: LONGA AGONIA PARA A MORTE?



Pequena introdução e enquadramento cronológico:
Em Abril do ano passado, cerca de dois meses depois do final da 33ª edição do Fantasporto, o jornal Público noticiava o despedimento colectivo de funcionários da Cooperativa Cinema Novo, responsável pela organização do festival de cinema e punha a nu os valores auferidos pelas duas sobreviventes ao temporal de demissões: 4500 euros brutos para a directora, Beatriz Pacheco Pereira, e 2040 euros brutos para a secretária, Irene Pires.

Em Setembro do mesmo ano a revista Visão avançava com uma extensa reportagem sobre o que parecia ser uma verdadeira história de terror: no mês que se seguiu ao despedimento colectivo o ICA receberia uma denúncia anónima que acusava a cooperativa de uma série de «eventuais ilegalidades relativas ao funcionamento e organização do Fantasporto». A reportagem da Visão era um chorrilho de suspeitas, acusações e de histórias dignas de um argumento de David Mamet, tudo muito bem embrulhado em trocadilhos fáceis inspirados no cinema de terror que durante muitos anos havia sido o combustível do Fantas. Uma semana depois desta reportagem, a Visão voltava à carga e revelava mais histórias mirabolantes do casal director do festival assim como uma espécie de reacção de Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira às acusações de que eram alvo.

Sem querer entrar aqui em mais teorias da conspiração, a verdade é que fazendo as contas e lendo o que se diz nas páginas da Visão, não deixa de ser fácil concluir que alguém que trabalhava na Cinema Novo (e que sabia mais do que era desejado pela direcção) não ficou muito satisfeito com a forma como foi despedido e resolveu tornar público o que manteve em segredo durante alguns anos. Significa isto que o que veio a público acerca da forma como o Fantasporto era dirigido seja falso? De forma alguma. Significa apenas que muito provavelmente os funcionários sabiam destas possíveis ilegalidades e se mantiveram convenientemente calados durante demasiado tempo.

Por outro lado, nenhuma das suspeitas lançadas por essa denúncia anónima se concretizou para já em facto indesmentível. O caso deverá estar a seguir o seu caminho e, como se sabe, em Portugal isso significa alguns bons anos de investigação, recolha de provas e etc. e tal. O que parece facto consumado, no entanto, é que o Fantasporto poderá ter começado já a pagar a factura de uma publicidade tão negativa. A edição deste ano teve uma divulgação praticamente inexistente e uma cobertura mediática absolutamente miserável, que se resumiu a não mais do que a atenção do Porto Canal e a uma pequena caixa com a programação diária no Jornal de Notícias. Ou seja, fica a ideia de que tudo o que foi dito em relação à gestão do festival afastou parceiros e desinteressou público em geral, já que vozes do interior terão já desabafado acerca da fraca adesão de espectadores na edição deste ano.

Não sei se é verdade ou não. Sei, porque durante muitos anos fui espectador assíduo do Fantas, que os números avançados pela sua direcção estavam longe de parecerem reais. As médias de ocupação de sala apresentadas por Dorminsky ou por Beatriz Pacheco Pereira esbarravam sempre na impossibilidade matemática que matinées com pouco mais de dez pessoas na plateia ofereciam. O que me parece indiscutível, e que pode igualmente explicar a possível quebra nas audiências do Fantasporto, é a qualidade em queda livre do que supostamente já foi o maior e mais importante festival de cinema em Portugal. Ao longo dos últimos anos foram cada vez menos os nomes sonantes da sétima arte a virem ao Porto e cada vez mais os nomes que só eram verdadeiramente relevantes para os directores que os convidavam, por exemplo. Os filmes, esses, eram na sua maioria desinteressantes e já nem a capa de festival generalista (mal esclarecida, diga-se) concedia ao Fantasporto a qualidade que o tornou numa referência mundial quando ainda era somente um festival temático e que satisfazia plenamente um público muito específico.

Foram muitos, de resto, os que anunciaram a sua morte quando a sua direcção resolveu alargar a competição a mais do que filmes de terror e do fantástico. A perda óbvia de uma identidade reconhecida, o afastamento mais ou menos esperado de uma grande parte do seu público fiel – fiel porque ia especificamente à procura de sangue e tripas – e a escolha dúbia de filmes a concurso, marcaram o início do declínio, precipitadamente ou não, anunciado.

Passados todos estes anos de quebra constante, a marca Fantasporto precisava de tudo menos do resultado que as notícias do ano passado aparentemente provocaram. A descredibilização artística de um evento cultural é coisa mais ou menos simples de resolver. A descredibilização da honra de quem o dirige, essa, é algo para criar uma imagem negativa de que raramente existe salvação. Em Portugal o povo julga por antecipação e muitas vezes sem retrocesso. A suspeita vale mais do que qualquer decisão judicial e neste caso, infelizmente, sejam ou não verdadeiras as acusações a Mário Dorminsky e a Beatriz Pacheco Pereira, quem paga é o Fantasporto. E a cidade do Porto não precisa mesmo nada de mais um festival moribundo. Já basta os que morreram sem nunca terem passado por esta provação pública e que nos fazem tanta falta.

Isto numa altura em que um grupo de ex-funcionários da Cinema Novo anuncia a criação de uma nova associação cultural, a Replicantes, e a programação de dois festivais de cinema para o Porto. António Reis, antigo director (supostamente) do Fantasporto, diz que nada disto tem como objectivo fazer concorrência ao festival de Dorminsky e Beatriz e que o principal interesse da Replicantes é «investir no cinema com seriedade e profissionalismo». Pessoalmente custa-me a crer que assim seja. Ou melhor, não duvido das boas intenções de quem esteve tantos anos ligado ao único festival de cinema da cidade. Não posso é deixar de ver nas palavras de António Reis uma forte alfinetada no comportamento aparentemente ilegal dos seus comparsas à frente do que também foi o seu Fantasporto. Por outro lado, sendo que um dos festivais já anunciados pela Replicantes será dedicado à temática do futebol(?), só posso imaginar que por esta altura o casal Dorminsky se esteja a rebolar de riso com a perspectiva de concorrência festivaleira. Tendo em conta o que por aí deverá vir, bem falta lhes faz quem lhes provoque uma boa gargalhada. 

quarta-feira, Março 05, 2014

VICTOR GASPAR E O SURFISTA PRATEADO



Todos somos familiares ao conceito da história ser circular, cíclica e repetitiva. Todos conhecemos bem expressões como há mar e mar, há ir e voltar e o que sobe tem de descer ou não dar ponto sem nó, etc. Todas servem perfeitamente a história que a seguir se conta e que é estranhamente semelhante a outra, do universo da banda desenhada americana, e a que vou dedicar algumas linhas biográficas.

O Surfista Prateado foi criado por esse monstro incontestável da BD chamado Jack Kirby em 1966. Antes de ser Surfista Prateado chamava-se Norrin Radd e habitava o planeta Zenn-La. Certo dia, o planeta foi visitado por Galactus, o Devorador de Mundos, outro alienígena que viajava pelas galáxias em busca da energia de planetas para saciar a sua gigantesca fome cósmica. Norrin Radd, abnegado e decidido a não deixar que o mundo onde vivia a sua amada fosse consumido pelo apetite do imparável Galactus, propõe um negócio ao esfomeado gigante: ser seu arauto e partir em busca de outros planetas, bons para comer e destruir. Uma espécie de pacto com o diabo, se quisermos. Galactus aceita, Zenn-La sobrevive-lhe e Norrin Radd é transformado em Surfista Prateado. Recebe uma porção mínima do poder cósmico do seu novo amo e uma prancha de surf que lhe permite viajar pelo universo à velocidade da luz e deixa o seu planeta de origem para nunca mais voltar. A sua viagem leva-o ao planeta Terra, cheio de energia, perfeito para o estômago do seu descomunal senhor, e onde encontra a oposição de um grupo de heróis conhecidos como Quarteto Fantástico. Decididos a não entregar o planeta ao apetite alarve do extraterrestre, convencem o Surfista Prateado de que ele é bem melhor do que aquilo que faz e ajudam-no a descobrir a humanidade que entretanto havia perdido. Consecutivamente, este trai Galactus e ajuda o Quarteto a vencer a batalha que se segue. Galactus, aborrecido com a traição do seu arauto, pune-o com o exílio no planeta Terra, de onde nunca mais poderá sair.

É esta, mais coisa, menos coisa, a história do surfista Prateado. É esta também a história de Victor Gaspar, o antigo ministro das finanças de Portugal. Sem prancha de surf, é certo. Sem a beleza poética que Jack Kirby emprestou ao seu personagem, é verdade. Sem a capacidade de reencontrar a humanidade de que se havia esquecido em sacrifício supremo por aqueles que amava e pelo planeta que o havia visto nascer. Porque a comparação entre Gaspar e o surfista acaba aqui, na humanidade, nos escrúpulos, nas intenções; na honestidade maldita da função amaldiçoada que era o pacto assinado com um monstro consumidor de mundos. O herói da Marvel era terrivelmente sincero em relação às suas intenções, Gaspar, esse, é um daqueles seres rastejantes a que a política já nos habituou e que disfarça todas as suas acções, impedindo-nos de ver os reais objectivos que o espicaçam.

Fosse outro o enquadramento, e não seria difícil sentir orgulho bacoco por termos um Português á frente de um dos gabinetes mais importantes do FMI. Tendo sucedido o que sucedeu a Portugal às mãos deste ex-ministro, e há tão pouco tempo, é impossível não acreditar que tudo isto foi um pacto com o diabo, assinado e rubricado em todas as cópias por um homem que sonhou ser maior do que a sua estatura e do que o futuro da sua carreira profissional. É inevitável acreditar que todo o plano de Victor Gaspar enquanto ministro das finanças teve como único objectivo não a tão propalada recuperação económica do país, mas a abertura das portas de uma das organizações mais poderosas do mundo. Que o que Gaspar queria era um gabinete, uma secretária, uma equipa de assessores e um ordenado de dezenas de milhares de euros. Independentemente do custo. Independentemente de ser muito próximo do tempo em que o mal foi feito, tão próximo que seria impossível não repararmos nisso, não pensarmos nisso, não concluirmos isso.

Victor Gaspar recebeu as ordens que recebeu do FMI por duas razões e por duas razões apenas: servir os melhores interessas da organização e conquistar um lugar confortável nos seus quadros. Conseguiu-o, como seria de esperar, e dessa fama nunca mais se livra. Não que isso o apoquente. A falta de escrúpulos dos políticos tem uma fama que a precede e as ligações de políticos no activo e de parlamentares eleitos pelo povo a grandes interesses económicos e a grandes empresas da banca mundial tem sido debatida o suficiente para que não sejamos constantemente apanhados de surpresa. Saber que Victor Gaspar comprou o bilhete para o FMI à custa dos portugueses na mesma semana em que pudemos ver o que Paulo Morais foi à assembleia da república dizer sobre a corrupção na classe parlamentar e o que Freitas do amaral expôs num dos telejornais nacionais já não é tão assustador como poderia ser há uns anos. Nós sabemos que é assim. Nós sabemos que ser governante ou deputado neste país é o melhor negócio de uma vida. Nós sabemos que os elegemos não para eles olharem por nós mas para que eles possam olhar por si e pelos seus. Para que possam fazer fortuna, abrir portas, travar conhecimentos; para fazer o que for preciso, seja qual for o preço a pagar, não por eles mas por nós, para defenderem os seus interesses. Interesses financeiros, diga-se. Ficarem mais ricos, mais poderosos, mais respeitados e temidos.

E ainda assim vamos alegremente às urnas. Ainda assim, acreditamos que nisto da democracia temos um papel importante a cumprir, que devemos pôr em prática o nosso direito de voto, essa liberdade conquistada e que por ter sido roubada às mãos rijas da ditadura tem de ser acarinhada como se fosse o menino Jesus salvador deitadinho na manjedoura. E demoramos a perceber que ao votarmos nesta gente rastejante estamos a votar neste sistema de corrupção e de ligações perigosas (para nós e só para nós). Não queremos entender, de uma vez por todas, que ao votarmos nestes energúmenos sem classe estamos a autorizá-los a fazer tudo o que puderem para ficarem mais ricos, mais poderosos, mais respeitados e temidos. Nós somos os únicos culpados por sermos um país com uma máfia autorizada por escrutínio popular, uma gangue de bandidos, corruptos e agiotas a quem alegremente abrimos a porta da nossa casa e a nossa carteira. Porque continuamos a acreditar que um destes dias vai realmente aparecer alguém que olhe por nós e que nos ajude abnegadamente. Alguém que não queira uma secretária no FMI e que não tenha como principal interesse o engordar da sua conta bancária.

E é por isto tudo que a comparação entre Victor Gaspar e o Surfista Prateado acabou lá em cima no terceiro parágrafo. Porque o Surfista Prateado comoveu-se com os humanos, recuperou a sua humanidade e ajudou quem merecia. Victor Gaspar e os da sua espécie não querem ter nada a ver com algo remotamente parecido com humanidade porque isso só serviria para lhes estragar os planos. Com a nossa autorização, que continuamos a dar plenos poderes a pessoas que são incapazes de se revoltar contra os gigantes consumidores de mundos. Não que isto seja também uma comparação. Ao pé da banca e do FMI, Galactus não é mais do que um menino da primária a quem roubaram a lancheira com a sandes de manteiga que trazia de casa e que chora agora sentadinho no banco do recreio.

domingo, Março 02, 2014

OSCAR: MENOS QUALIDADE, MENOS INTERESSE, MAIS DO MESMO



Não vi todos os filmes nomeados para todas as categorias. Pode ser esta a razão que transforma qualquer opinião um acto precipitado e mal defendido. No entanto, os filmes que vi ao longo de 2013 - nomeados e não nomeados, ou seja, os que foram, a meu ver, injustamente nomeados e não nomeados - servem para compor uma imagem do que realmente interessa a Hollywood. Por outras palavras, os melhores filmes do ano vieram desses (aparentemente) sub-géneros que são os filmes estrangeiros e os documentários.

Captain Phillips é um normal filme de acção que entretém mas que está longe, muito longe de ser um dos melhores do ano. American Hustler é divertido mas denuncia a tentativa de um realizador cujo trabalho me interessa há já uns anos em ser Scorcese no lugar de Scorcese; todos os planos são Scorcese, o estilo é Scorcese e o ritmo e a forma da narrativa são mais Scorcese do que os últimos filmes do verdadeiro Scorcese. Tudo isto, alguém aqui ao meu lado destaca, com alguns tiques de Soderbergh e dos primeiros Paul Thomas Anderson. E sem necessidade, que David O. Russell já tinha provado ter uma assinatura e um estilo próprios. Dallas Buyers Club não deveria sequer estar neste clube de nove e Gravity é só o filme mais sobrevalorizado do ano. Sobre Nebraska já aqui disse tudo o que tinha a dizer: parece-me o filme mais interessante e verdadeiramente merecedor de uma série de estatuetas.

Contas feitas, entre os filmes que vi e os que não vi, uma ideia parece-me certa: de que esta vai ser mais uma cerimónia em que nenhum filme se vai destacar de forma esmagadora e em que, salvo raras e já anunciadas excepções, será complicado avançar com previsões. 

Outra ideia certa, uma verdade de La Palice e ao mesmo tempo uma sugestão: se não viram, vejam os documentários nomeados e não nomeados de 2013 e vejam os filmes estrangeiros nomeados e não nomeados. Vão descobrir que aí se esconde o melhor, mais interessante, mais entusiasmante e mais desafiante cinema de 2013. Algo que claramente já há muitos anos não interessa à academia. 

sexta-feira, Fevereiro 28, 2014

AS INJUSTIÇAS (OU EU SOU MUITO TENDENCIOSO)



Antes era and the winner is. Hoje em dia diz-se and the Oscar goes to. Houvesse justiça no mundo do cinema e este ano o anúncio dos vencedores do Oscar seria algo do género não podendo ser para o The Hunt, o Oscar vai para…

Porque, convenhamos, não existe em nenhum dos doze nomeados a filme do ano uma obra mais impressionante do que The Hunt. Como não existe em nenhum dos nomeados a melhor actor principal uma interpretação ao nível da de Mads Mikkelsen e como não existe melhor realização do que a de Thomas Vinterberg. O resto são migalhas, prémios mais ou menos subjectivos, com certeza mais subjectivos do que estes três, quase factos de enciclopédia.

Mas The Hunt sofre dessa doença tão repulsiva à indústria americana que dá pelo nome de se não falas inglês estás lixado. Assim sendo, e como muitos antes dele, o filme dinamarquês fica limitado ao prémio para melhor filme em língua estrangeira que, mesmo esse e ao que tudo indica, está já reservado para o aparentemente xaroposo La Grande Belleza.

Fim da primeira parte

Segunda parte

Houvesse justiça no mundo do cinema e este ano o anúncio dos vencedores do Oscar para melhor filme, melhor actor, melhor actriz secundária, melhor argumento original e melhor realização teria um só destinatário: Nebraska.

Porque, convenhamos, não existe em nenhum dos onze restantes nomeados a filme do ano uma obra com tanta qualidade como o filme de Alexander payne. Mas Nebraska é um filme com todos os tiques do cinema indie americano, e isso, como se sabe bem, serve para despertar a curiosidade da indústria mas não chega para o levar aos prémios que merecia. E é uma pena, porque o filme contido, tão bem escrito, espécie de hino à dignidade e à tristeza resignada da velhice que é Nebraska, é seguramente o segundo melhor filme do ano que passou.

O problema destes dois filmes é que, acredito eu, não foram feitos com os olhos postos no (ainda) prémio mais apetecido pela indústria cinematográfica, que continua a privilegiar o mainstream e a sobrevalorizar tudo o que for feito com pompa e circunstância, elencos repletos de grandes nomes e realizadores dominantes.

E, mais uma vez, é uma pena enorme, porque já há uma série de anos que os filmes mais relevantes do ano surgem de produções americanas, sim, mas com orçamentos mais baixos, ou de países em que o inglês é somente aquela língua que se aprende na escola porque um dia pode vir a dar jeito se tivermos de viajar para o estrangeiro.

Fim 

Epílogo

Blue Jasmin, de Woody Allen, é um grande bocejo. É desinteressante, não chega a levantar voo, tem um dos piores argumentos saídos da mão do mestre, um elenco ainda mais baratucho do que é normal, desinteressado e em piloto automático e encabeçado por uma Cate Blanchett a imitar a melhor Gena Rowlands dos filmes de Cassavetes. A única coisa realmente boa de Blue Jasmin, e como não é raro à cinematografia de Allen, são os secundários. Fora isso, o filme é um grande salto para trás no que parecia ser o regresso de Woody Allen a um cinema maior e inquestionavelmente brilhante. Comparar Blue Jasmin a Midnight in Paris é tão justo como comparar Match Point a Crimes and Misdemeanors. O mesmo é dizer que seria comparar o mais interessante Woody ao mais entediante Allen. E pronto, tinha de tirar isto do sistema.

quarta-feira, Fevereiro 26, 2014

O VOTO E A PEDRA



E de repente o mundo das redes sociais acordou para o perigo do nacionalismo, do fascismo e do neonazismo. Por força dos que se tem passado na Ucrânia, vários são os que têm vindo para as páginas do universo digital preocupados com o que vai ser do mundo assim que estes movimentos assumam o poder. Para reforçar a sua consternação publicam ensaios, teses e teorias – da conspiração, muitas delas – acerca dos perigos do ressurgimento de tais forças no seio da Europa. Destes, alguns apoiaram a revolta de Kiev até que ficaram a saber, pasme-se!, que na Ucrânia também existem movimentos de extrema-direita.

Existem na Ucrânia como existem, há já alguns anos, em outros países da Europa de Leste. E bastante activos, diga-se. Como existem na Rússia, na Polónia, na Hungria e, em boa verdade, como existem no resto do continente, mesmo que mais ténues e pouco impressionantes. Como existem políticas de extrema-direita em governos como o da França, Espanha e, mais recentemente, da Suiça. Por opção ou por desconhecimento estes activistas das redes sociais acreditam que estes movimentos e partidos são financiados pela UE e pelos EUA, eternos interessados em desfazer quaisquer resíduos da antiga União Soviética e assim continuar a conquistar aliados comerciais. Esquecem-se, estes preocupados cidadãos, que um governo de extrema-direita dificilmente faria quaisquer acordos de aliança económica quer com os EUA, quer com a EU.

E não é mentira, de facto. Americanos e europeus continuam, hoje, a fazer tudo o que podem para desafiar o poder da Rússia, para deitar a língua de fora ao governo de Putin e dizer roubámos mais uma aldeia ao grande império enquanto se riem agarrados à pança capitalista. Tudo isto é verdade. O que preocupa, no entanto, é que ao dirigirem a sua atenção para estas teorias da conspiração se esquecem, ou ignoram, as verdadeiras razões – ou pelo menos as mais importantes – por trás deste crescimento da direita na Europa.

Porque também não é menos verdade que, em situações de grave crise económica, torna-se muito mais simples passar ideias fascistas e de extrema-direita a um povo que por força das dificuldades se torna mais permeável à alternativa política. Mesmo que a alternativa política seja abjeta e perigosamente odiável. Por falsos motivos financeiros, fica mais fácil justificar o ódio pelos emigrantes, esses ladrões de empregos, e leis antiaborto, esse sorvedouro de dinheiros públicos. Como se torna mais compreensível, por falsas razões de defesa da dignidade humana, limitar as liberdades religiosas aos muçulmanos, esses terroristas em potência e a quem não se pode confiar um metro quadrado de espaço público.

Como também não é menos verdade que a esquerda europeia tem sido totalmente ineficaz na conquista de credibilidade e que os sucessivos governos de esquerda e centro-esquerda não se conseguem livrar de uma forte responsabilidade na crise que atravessamos. Da mesma forma que não conseguem oferecer uma alternativa válida aos milhões de europeus desiludidos com o andar das coisas. Como não conseguem escolher líderes que motivem o povo, que se façam ouvir, que mostrem que podem ser diferentes de todo o lixo político que todos os dias aparece na televisão para falar aos cidadãos. Que não são mais um, igual a todos os outros que vieram antes.

E sim, a extrema-direita é sempre um perigo à espreita, hoje mais do que há uns anos. E sim, está a ganhar força, está a crescer e a conquistar cada vez mais seguidores. Mas o medo que tenho da extrema-direita é um medo quase irracional, quase sem razão, em parte porque não acredito ou não consigo acreditar, que os grandes horrores com que o fascismo e o nazismo marcaram a história da humanidade, possam voltar a acontecer num mundo aberto e hoje sempre exposto aos olhares de todos. E até posso ser ingénuo. E até podemos voltar a observar esses horrores em países ditos civilizados. A acontecer, o meu medo será então real e a minha preocupação desmedida. Até lá, prefiro concentrar os meus receios em países como a Espanha, a França, a Suíça e a Rússia e aos seus governantes preconceituosos e tão perigosos – porque já conseguiram pôr em práctica os seus preconceitos – como qualquer ideologia fascista, nacionalista ou nazi.

E até posso estar terrivelmente enganado, mas continuo a acreditar que o povo terá sempre a última palavra na democracia das coisas, o que me descansa, de alguma forma. Como teve, goste-se ou não, na Ucrânia. Porque, independentemente das forças políticas envolvidas na revolução de Kiev, o que sucedeu foi aquilo que muitas destas pessoas preocupadas com a extrema-direita tantas vezes defendem nas mesmas redes sociais: o povo saiu à rua e fez ouvir a sua voz. O problema é que, muito provavelmente, a orientação política deste povo não é do agrado de muitos e percebe-se porquê. Mas é esta a magia da democracia, não é? E a democracia cumpriu o seu papel na Ucrânia, a nós, agora, só nos resta amanharmo-nos com o resultado.

E se o povo for realmente um observador atento e sempre pronto a intervir, então talvez estes receios de políticas extremistas possam ser permanentemente um nado morto. Foi Lenine quem disse nós somos utopistas e não negamos de forma alguma que sejam possíveis e inevitáveis excessos individuais [dos governantes]; não negamos tão-pouco que seja necessário reprimir esses excessos. Mas primeiramente não é preciso para isso uma máquina especial, um aparelho especial de repressão. O povo armado se encarregará ele próprio dessa tarefa tão simplesmente, tão facilmente como qualquer multidão de homens civilizados, mesmo na sociedade actual, separa pessoas que se batem ou não permitem que maltratem uma mulher. E eu quero continuar a acreditar nisto. E se for pelo voto pois que assim seja. Se não, pela pedra. Como em Kiev.

segunda-feira, Fevereiro 17, 2014

PORTUGAL E VENEZUELA: AMIGOS PARA SIEMPRE



Portugal e a Venezuela assinaram no passado dia 15 de Janeiro acordos de cooperação de 1600 milhões de euros para projectos de construção, portos, habitação social e indústria. Vista assim a coisa, não há quem possa dizer mal da parceria económica. À luz dos recentes acontecimentos naquele país da América Latina e da falta de reacção do governo português e dos demais partidos com assento parlamentar, no entanto, a negociata assume outras proporções.

Portugal foi conduzido à posição de amigo da Venezuela pela mão de José Sócrates e por meio de inúmeros negócios e trocas comerciais com o governo de Chávez. Chávez veio a Portugal, os nossos governantes e homens de negócio foram a Caracas, o ambiente era relaxado e engraçadito, as relações eram afáveis e ligeiras e a amizade entre os dois países ganhou contornos de solidez e consolidação eternas. Essa amizade economicista levou a que Portugal sempre fechasse os olhos às demonstrações de soberba ditatorial de um governo sábio na arte do populismo e às suspeitas de ilegalidades eleitorais que que conduziram Chávez ao poder e que levaram a que o grande amigo de Sócrates pudesse também ser um amigo da nossa nação.

Os partidos da nossa esquerda, esses, viram no presidente venezuelano tudo o que tanto apreciam: um homem forte, um justiceiro solitário que carrega em si o ódio ao capitalismo e o antiamericanismo absoluto e declarado. Sem medos, sem papas na língua, um símbolo da cartilha comunista, o que muitos comunistas queriam ser quando fossem grandes. Um novo Che do qual podiam fazer novos cartazes e pins para vender nas festas de Verão e nos comícios políticos. Por estas razões, também esses partidos fecharam os olhos e as bocas a muito do que Chávez fez de errado e aceitaram de bom grado a sua amizade.

Mas Chávez morreu. Por culpa dos americanos, disse-se. Para que a sua luta tivesse uma continuidade nos espíritos dos que o adoravam e o desculpavam, foram os americanos culpados pela sua morte. Assim se concedeu a Chávez algo que ele não teria de outra forma: o condão de ter morrido num campo de batalha virtual, em flagrante combate contra as forças do mal capitalista e imperialista. E morto o grande líder havia a necessidade de manter o discurso populista e encantatório das pequenas mentes dos de esquerda, sedentos por um novo anjo libertador, exímio na trombeta incendiária bolivariana.

E assim foi. O novo ocupante do trono venezuelano fez justiça ao que prometeu e foi ao encontro do que dele era esperado - não pelo povo venezuelano, mas pelos outros, os que vivem à custa deste sonho anticapitalista - e rapidamente tratou de se tornar famoso pelos excessos discursivos, pelas visões de passarinhos transportadores da verdadeira alma de Chávez, pelas aparições do eterno presidente e por uma série de medidas populistas, algumas a roçar o ridículo, e que não conseguem disfarçar uma intenção declarada: a de enganar os venezuelanos.

Mas os venezuelanos há muito tempo vinham demonstrando já não serem fáceis de enganar. A juventude da Venezuela sai hoje à rua, sem receios, e grita que não quer este tipo de governação. Já não queria aquando das eleições que Maduro venceu, mais uma vez, com métodos dignos do mais bacoco e impune dos totalitarismos. Mas, também nessa altura, os amigos da Venezuela foram amigos do governo da Venezuela e calaram-se.

Este comportamento dos nossos governantes e dos partidos da oposição reforça o lado negativo de se ser amigo de um governo violentamente repressivo. Ora, quando alguém se cala perante as atrocidades políticas e sociais como as que temos vindo a assistir na Venezuela, o amigo deixa de se chamar amigo para se passar a chamar cúmplice. Cúmplice calado. Cúmplice porque se cala, porque não reclama, porque não se mostra indignado com o comportamento do compincha. Portugal é um cúmplice. Mais do que um cúmplice, Portugal é algo que a língua inglesa presenteou com uma palavra plena de significado e repleta de informação e que encerra em si um atributo nada bonito: bystander.

Portugal é um bystander e de acordo com o dicionário da língua inglesa, bystander significa a person present but not involved; chance spectator; onlooker. Para além disso, e sem recurso a qualquer tipo de criatividade desenquadrada, a palavra bystander transmite impecavelmente a imagem de alguém que está ao lado de. Ou seja, não adiantando de modo algum que os nossos políticos concordam com o que se tem vindo a passar na Venezuela, e muito menos com os acontecimentos dos últimos dias, parece-me claro que é, sim, sua vontade olharem para o lado enquanto assobiam uma qualquer cançãozita pitoresca. Tudo para não ofender os nossos amigos do país que tantos Magalhães nos comprou.

Enquanto isso, enquanto Portugal e mais um sem número de países e organizações olham para o lado e assobiam para o alto, o governo do senhor Maduro continua a deitar pela janela os direitos básicos do povo que jurou servir, a inventar leis que melhor sirvam o seu populismo e a cometer crimes de todo o tipo e feitio. E, pela parte que me toca, não me sinto nem desiludido nem chocado com a falta de uma reacção à altura da parte de outras nações e organizações porque conheço bem o jogo político-económico que tão bem dominam. Sinto-me traído, como sempre me senti em situações idênticas, quando vejo o governo do meu país levar tão a sério aquela velha, gasta, empoeirada e ultrapassada máxima que diz que entre marido e mulher não se mete a colher. Especialmente quando o marido é nosso amigo e nos dá muito dinheiro a ganhar e quando a mulher nunca fez nada de especial por nós a não ser servir-nos os drinks quando vamos a casa do casal passar férias.

Quanto aos estudantes que por estes dias morrem nas ruas de Caracas, ficaria muito mais descansado se tivesse a certeza de que sabem que o mesmo Símon Bolívar tão idolatrado por Chávez, e sempre usado como arma política pelo falecido ditador, disse um dia aos colombianos as seguintes palavras: a minha última vontade é a felicidade da pátria. Se a minha morte contribuir para o fim do partidarismo e para a consolidação da União, baixarei em paz à sepultura. 

A CIRURGIA MEDIÁTICA



Muito se fala habitualmente do poder dos media; da sua tendência para a manipulação, para o exagero, para as abordagens mais ou menos tendenciosas de factos e notícias e para o interesse que os órgãos de comunicação têm nestes ou aqueles assuntos. Nunca se fala, contudo, nas empresas de assessoria de comunicação e no que elas fazem pelos seus clientes, muitos clientes, individuais ou colectivos, com necessidades particulares e com objectivos, também esses, nem sempre nobres ou dignos.

Esta semana ficámos a saber que à queixa-crime movida pelos pais das vítimas do Meco à Universidade Lusófona, a instituição respondeu com a contratação de um aliado de peso, ou seja, uma prestigiada empresa de consultoria estratégica que, segundo o Jornal de Notícias, movimenta um dos maiores volumes de negócio em Portugal.

O que é que isto significa, na verdade? Significa que até aqui toda a comunicação dita de crise relativa ao caso da praia do Meco era efectuada por um docente da universidade e que, agora que a conversa subiu de tom, convém trazer alguém habituado a nadar num mar infestado de tubarões. Algo do género muito obrigado pelos teus serviços, meu menino, mas agora temos de chamar os adultos, tá bem? Porque o assunto agora é sério e há que tratar com especial carinho da imagem da instituição, afectada que está com toda esta história dos que morreram ao serviço de uma praxe académica, ritual de passagem ou de promoção ou seja lá o que for que era aquilo.

Não significa isto, no entanto, que a Lusófona tenha culpas no incidente do Meco. Significa somente que a maior preocupação daquela instituição de ensino superior neste momento seja passar ao público atento que são uns porreiros, que fazem muito pela sua comunidade académica e que nada têm a ver com o que os seus estudantes fazem para lá dos limites físicos da universidade. E com legitimidade, diga-se. O assunto é demasiado sério e é coisa para arrastar uma organização, por muito venerada que seja, para um buraco sujo e feio e do qual dificilmente se regressa.

No entanto…

No entanto é difícil acreditar que a Universidade Lusófona não tenha conhecimento das prácticas levadas a cabo pelos seus excelsos alunos durante as praxes académicas. É muito difícil de engolir, especialmente, que a instituição fosse desconhecedora destes rituais balneares que resultaram, tragicamente, em seis vítimas mortais. E claro, a desculpa de que a responsabilidade do que acontece para lá dos portões da Lusófona não pode ser imputada à instituição por isso mesmo, por estar igualmente do lado de fora do edifício, conquista sempre alguns fervorosos adeptos, nomeadamente dentro da própria universidade. Mas não convence quem não tem uma ligação emocional à organização.

É impossível que, num meio de grandes dimensões como é uma universidade, mas em que tudo facilmente se sabe, afirmar desconhecimento por rituais que, ao fim de algumas horas mediáticas, eram já amplamente descritos por quem já tinha passado por eles ou por quem simplesmente sabia da sua existência, mesmo que não tivesse sido aluno da referida universidade. Duas semanas antes destes rituais serem referidos bombasticamente nos meios de comunicação, fiquei a saber por alguém que nunca sequer estudou em lisboa, que estas cerimónias eram recorrentes e que muito provavelmente teria sido um destes rituais a resultar na tragédia do Meco.

Mais uma vez, significa isto que a universidade Lusófona é culpada na morte dos seus seis alunos? Não. Significa que podia fazer algo relativamente às praxes e rituais ditos académicos que os seus alunos realizam fora da universidade? Não sei. Talvez. Não sei como, mas talvez. Significa que pode ser alvo de uma queixa-crime? Com certeza que sim. Quanto mais não seja para pôr os responsáveis por aquela instituição a pensar numa maneira de, uma vez por todas, acabar com as praxes ou, pelo menos, limitá-las a algo minimamente digno e que funcione verdadeiramente como um ritual de boas vindas aos caloiros, sem humilhações, sem faltas de respeito e acima de tudo sem demonstrações de um poder falso, que só existe na cabeça de quem tem somente mais uma matrícula.

A Universidade Lusófona tem a responsabilidade de acabar com este brincar às hierarquias e aos clubes secretos que leva a que os seus estudantes exercitem a sua criatividade na busca permanente de rituais que os façam sentir como nos filmes e nos livros que conhecem; que os façam sentir diferentes e melhores do que os outros, dos que conscientemente se decidem a não segui-los e a não fazer parte da comandita, do círculo fechado de autoeleitos.

Mas a principal preocupação da Lusófona, claramente, é ter um aliado comprado que desenhe uma estratégia de comunicação, que invente uma imagem favorável da organização, que passe boas energias a quem está atento a todos os desenvolvimentos do incidente na praia do Meco. Alguém que saiba o que fazer numa situação de crise, que seja capaz de vender o melhor da Lusófona e a abafar toda e qualquer notícia menos abonatória do bom nome do cliente. É para isto que serve uma assessoria de comunicação. Serve para servir de assessoria de imagem, assessoria estratégica, aliado cerebral, estratega militar, preparado para a pior das batalhas, munido das armas mais baixas e mais inteligentes, prontos a tudo, mercenários sem escrúpulos, bem treinados, experientes em intervenções rápidas, entrar e sair em cinco minutos, sem danos colaterais e, acima de tudo, sem baixas na equipa.

Os jornalistas esses, preguiçosos na sua demanda pelo facto real, esquecidos que estão de como se faz um trabalho de investigação, sequiosos pelo que der mais dinheiro ao patrão, permitirão que estes interesseiros assessores lhes empurrem tudo e mais alguma coisa pela garganta abaixo para poderem cagar notícias que interessam somente a todos os que fazem parte da fauna Lusófona. E este ecossistema feroz e imparável atropela-nos, leva-nos na enxurrada; baralha-nos, confunde-nos e engana-nos, engenhosamente ludibria-nos e convence-nos. Porque é um ecossistema assente num jogo jogado em campos de jogo muito distantes da nossa vista e do nosso conhecimento, nos bastidores, em salas de reunião e gabinetes em que só alguns podem entrar e em que a só uns quantos é permitido falar.

O que a Lusófona se prepara para começar a fazer, com a ajuda inestimável do mercenário, é uma cirurgia plástica mediática, que lhe limpe as feias estrias e lhe reduza as inestéticas gorduras abdominais. Que a faça parecer bem e eternamente jovem, que a torne bonita para além de qualquer dúvida. Se estivermos atentos ao desenrolar dos acontecimentos em torno da Lusófona vamos poder assistir em primeira mão e com todo o esplendor à força dos assessores de comunicação. 

Se não tivermos cuidado e o devido distanciamento, ainda acabamos a sentir uma irresistível vontade de nos matricularmos na Lusófona e a sermos praxados até à inconsciência.