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Bom Karma... ou não!

quinta-feira, Outubro 30, 2014

TEATRO EXPANDIDO (COM O RABO DE FORA)



É com alegria que vejo o Campo Alegre habitado por novos inquilinos. Um espaço daquela qualidade, mesmo que deslocalizado do epicentro da energia da cidade, merecia vida, merecia acontecimento, merecia sangue novo a correr-lhe pelos corredores. É com alegria, portanto, que vejo o TEP, a Companhia Radar 360º, o NEC, a Erva Daninha e o Teatro Expandido… Teatro Expandido? Pausa na crónica para investigação rápida nos meios tecnológicos ao dispor. Quem É o Teatro Expandido? Já volto…

Acreditem ou não, fui mesmo investigar o Teatro Expandido e descobri que… não existe. Ou melhor, não existe grande coisa acerca de. Ou por outra, não há notícias relativas a alguma actividade do Teatro Expandido a não ser aquela que vai passar a desenvolver no TCA. Ou seja, as únicas notícias com o nome do Teatro Expandido são as que dão conta da sua nova habitação, o TCA, e de um grupo no Brasil que terá inventado o conceito de teatro expandido, ou algo do género. Isto é, existe de facto um nome associado ao Teatro Expandido que esse sim apresenta alguma relevância e que é o de João Sousa Cardoso, um rapaz com página na Wikipedia e tudo. Nessa página rapidamente ficamos a saber que o João Sousa Cardoso está principalmente ligado ao cinema, tendo também passado pelo teatro, pela performance e pelas exposições. João Sousa Cardoso tem, diga-se de passagem, um CV bastante interessante.

Na página da Wikipedia de João Sousa Cardoso não existe, no entanto, qualquer referência ao projecto (seu projecto, ao que tudo indica) Teatro Expandido. O que é uma pena, porque não há como não querer saber quem é o Teatro Expandido e porque merece honras de inquilino do renovado (filosoficamente falando, claro) Teatro Municipal Campo Alegre. Não há como querer saber porque foi esta companhia considerada como uma das importantes do Porto ­­­– palavras do director do Teatro Municipal do Porto.  

O que leva a questionar: quem é João Sousa Cardoso? É realizador do filme Santa Joana dos Matadouros, uma produção que tem sido publicamente e fortemente apoiada por Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara do Porto. E mais? E mais nada. Ou melhor, e como já disse, João Sousa Cardoso é de facto senhor de um currículo bastante diversificado e interessante. Mas isso chega para que um projecto seu, que não existe a não ser nas notícias que dão conta pela primeira vez da sua existência, ocupe um espaço privilegiado num equipamento cultural do Porto? Porquê o Teatro Expandido numa cidade em que há tantas companhias que não têm sequer um escritório, quanto mais um espaço de ensaio e de construção de projectos?

Volto ao início para reforçar o quanto fico satisfeito com a nova vida do Teatro Municipal Campo Alegre. Como fico satisfeito com a mudança de atitude deste executivo camarário e em especial com o comportamento de Tiago Guedes, director do Teatro Municipal do Porto. Contudo, e isto é algo que deve estar bem presente nas cabeças de quem agora decide a cultura na cidade, o povo não dorme em serviço e está bem atento ao que lhe querem empurrar pela goela abaixo ­– em especial depois de toda a novela La Féria. Situações menos claras são o que menos se deseja numa altura em que há um nítido esforço para mudar a política cultural do município; numa altura em que a mudança de filosofia começa já a fazer-se sentir na cidade e nas pessoas; numa altura em que muitos rascunham já um balanço positivo (e justo) da vereação da cultura e da direcção artística do Rivoli e do Campo Alegre.

As coisas têm a importância que têm, nem mais nem menos. E a frase que acabei de escrever vale o que vale. E não há nada como realmente. Isto tudo para não dizer nada de jeito mas para dizer que tudo isto em torno do Teatro Expandido pode na verdade ser só um medo irracional de velhos hábitos que nunca morrem realmente. Pode sim, é verdade. Mas também pode mesmo ser um velho hábito que não morre nunca e isso seria uma tremenda chatice. 

Tenho uma gata que adora brincar com o seu próprio cocó. Ele rebola e salta e isso, como é sabido, é demasiado irresistível para um gato. Volta e meia, há um leve odor a cocó de gato debaixo de um sofá ou de uma mesa. A dúvida não dura mais do que uns segundos: arrasta-se o sofá e lá está ele, o pedacinho de cocó seco que foi ali parar por ter sido bola de futebol. Os gatos, como se sabe também, bem podemos barafustar com eles e tentar provar-lhes que aquilo de brincar com cocós secos é errado e uma tremenda porcaria, mas a verdade é que nunca vão aprender e esse hábito não vão perder. Lixa-se quem mora cá em casa, que de vez em quando tem de levar com um leve odor a cocó escondido. 

quarta-feira, Outubro 29, 2014

HOMELAND: A MORTE DO ARTISTA



Homeland faz parte da história da televisão americana e é, ao mesmo tempo, a mais fiel representação da história das séries de televisão americanas. E uma história que se conta a correr: primeira e segunda temporadas totalmente obrigatórias, incontornáveis e provavelmente o melhor que alguma vez foi escrito para televisão. Terceira temporada rapidamente a resvalar para uma pasta lodosa e inconsequente em que nada avançava, nada se passava e em que quase nada interessava. Durou esta modorra até ao episódio final que deveria ter realmente sido o fim da série, por muito que isso custasse aos seus indefectíveis seguidores. Não foi. E assim chegamos à quarta temporada, que nunca deveria ter existido e que só serve para nos provar que a terceira era de facto o ponto final na história daquelas personagens e que tudo o que viesse a seguir era a mais. 

A quarta temporada de Homeland é na verdade a primeira de outra série qualquer. De uma série em que espiões americanos e paquistaneses fazem joguinhos de poder atrás de janelas entreabertas, em mesas de café fumarentos e em hotéis de luxo colonialista. É uma série desinteressante, gasta, mastigada e cuspida e mastigada novamente, vista e revista em dezenas de outras séries e filmes de Hollywood. Não tem assunto, não tem foco, não tem objectivo e não tem personagens, porque estas, desta série, tinham utilidade e objectivo numa outra, anterior a esta e que as alimentava com um sem número de situações e de relações que nos mantinham agarrados ao ecrã e ao sofá. Esta não tem nada disso e é só um enorme bocejo em que já nada faz sentido. 

A metáfora é tão fácil que até custa escrevê-la: Homeland morreu com o sargento Nicholas Brody pendurado pelo pescoço num guindaste no último episódio da terceira temporada. E deveria ter ficado morta. Recuperá-la para isto é o mesmo que ressuscitar um velho amigo do mundo dos mortos e tê-lo lá em casa sentado no sofá a encher tudo de baba e outros fluidos típicos dos mortos-vivos, sem se fazer útil, sem servir para nada, nem para um inocente jogo de sueca. Um desperdício.

terça-feira, Outubro 28, 2014

A PUNHETA



Sempre admirei Pier Paolo Pasolini. Não gosto de nenhum filme seu e o teatro que escreveu não me provoca overdoses de vontade de o ir a correr encenar. Esclarecida que está a minha posição relativamente ao artista italiano, apetece-me dizer o seguinte: espero sinceramente que Jorge Louraço Figueira estivesse bêbedo (ou que tenha um retorcido humor nórdico) no momento em que apelidou John Romão de “o representante de Pasolini na terra”. Eu, que não estou morto, dei trambolhões dentro do meu caixão, pelo que só posso imaginar que o falecido PPP, depois de ter andado às cabeçadas às tábuas do seu invólucro, encontrou forma de sair de lá de dentro e se encontra já a caminho do Porto para uma pequena conversa com o escritor/jornalista/cronista/crítico do Público.

A crónica/crítica/peça precisamente intitulada (lá está) O representante de Pasolini na terra, escrita por Louraço no Público do passado dia 27 e em que o autor discorre acerca de Teorema, o novo espectáculo daquele encenador português, é um bom exemplo da dupla-dupla punheta, uma práctica muito corrente entre críticos e encenadores deste país e que há anos é o miolo da relação da imprensa portuguesa com as suas artes performativas.

Passo a explicar: a primeira punheta é o espectáculo levado a cena por um determinado criador e que mais não é do que uma masturbação egoísta e solitária de um grau de intelectualísse insuportável. Punheta número um.

Punheta número dois, o texto que lhe é dedicado por um jornalista embevecido e deslumbrado, ajoelhado perante o trabalho inalcançável pelo comum dos mortais, com acesso exclusivo a quem tiver cartão do clube dos hipsters da intelligentsia do lobby da teatrice burgueso-lisboeta. Punheta número dois, portanto.

Punheta número três, o acto isolado de quem, como Jorge Louraço, escreve uma crítica enquanto sonha com uma carreira literária de sucesso e cantarola baixinho o I’m a lumberjack and I’m ok dos Monty Python.

É esta a nata da crítica de teatro em Portugal. Indivíduos que escolhem o que querem ver, sobre o que querem falar, que assumidamente dizem não a uma série de espectáculos, encenadores, companhias e festivais de teatro e gritam sim a uns quantos eleitos; que assim almejam atingir um estatuto de exclusividade de estrela da crítica, que querem ser temidos, que querem entrar no foyer do Rivoli e ouvir o seu nome repetido centenas de vezes em sussurro por quem os reconhece e a quem é melhor fazer todas as vontades na esperança de que possam descer à terra e assistir a um ensaiozito de dez minutos e escarrar umas quantas postas da mais fina literatura nas páginas dos jornais mais respeitados. São estes os nossos críticos de teatro, indivíduos que queriam muito era ter uma carreira na literatura, venderem milhares de cópias e serem chamados para conferências pelo mundo fora.

São estes os punheteiros da crítica em Portugal, o par perfeito para todos os punheteiros do teatro português. É este o casamento de capa de revista cor-de-rosa que alimenta o teatro e as artes performativas de um país que do que menos precisava era destes ecossistemas fedorentos. O espectáculo de John Romão? Permitam-me recorrer ao português mais curto e assertivo para vos falar dele: o espectáculo de John Romão é uma bela merda!

sexta-feira, Outubro 03, 2014

DEMASIADO NADA PARA FAZER

Incomoda-me muito o fascismo. De todos os ismos é o que mais me incomoda, só ultrapassado pelo bruxismo, que é aquela coisa de ranger os dentes enquanto se dorme e que me provoca arrepios da pior espécie. Não gosto de fascismo, não suporto fascistas e chateia-me que ainda exista fascismo aqui e ali pelo mundo fora – mesmo no mundo democrático, mesmo que não em regimes políticos mas em comportamentos e formas de pensar. Tudo em relação ao fascismo me incomoda. E incomoda porque conheço o seu papel na história e alguns dos seus rostos. Conheço e não tenho nenhuma intenção de enterrar a cabeça na areia e fingir que nunca existiu para que não me incomode. Por outro lado, lembrar-me do fascismo não é glorificá-lo nem tão pouco eternizá-lo de forma elogiosa. Só uma mente desabitada poderia acreditar numa barbaridade dessas. Como parecem ser as mentes dos deputados do PCP e do BE, desabitadas e cheias de tempo livre para saírem das cabeças onde vivem e irem por esse mundo fora a preocuparem-se com assuntos que, verdade seja dita, não parecem ser vitais para a qualidade de vida da população.

A polémica em torno da exposição de bustos de presidentes é mais um exemplo de como os deputados são demasiado bem pagos para o que fazem. Se esta gente tem tempo para desencadear uma verdadeira micro-guerra civil por causa de uma exposiçãozita onde surgem as carantonhas de alguns presidentes fascistas, então só posso concluir que: ou não há nada para fazer no parlamento ou não há nada para fazer no parlamento e os deputados destes partidos querem a todo o custo dar nas vistas e enganar quem anda mais distraído e passar a imagem de que são trabalhadores incansáveis. Não são. São um bando de meninos conhecidos por serem eternamente e permanentemente e muito facilmente ofendidos, que querem acima de tudo, e por motivos diferentes, dar nas vistas, gritar bem alto seja o que for para parecer que estão a reclamar de alguma coisa importante. Os do PCP porque é essa a sua natureza – e que às vezes é útil, justiça lhes seja feita. Os do BE, porque ninguém lhes liga nenhuma e vai daí comportam-se como o puto mais puto do grupo de putos, que ainda não fuma mas quer ser tão popular como os putos mais crescidos.

Aos preocupados deputados de PCP e BE deixo a seguinte sugestão, para que possam pensar sobre ela enquanto mastigam um bolinho de bacalhau num dos cafezitos ali ao lado da assembleia e, quem sabe, propô-la ao hemiciclo: queimem-se todos os livros escritos por fascistas e todos os livros de história que fazem referência a ditadores, nacionais ou internacionais. Destruam todas as obras de arte de alguma maneira associadas ao fascismo ou a fascistas, todos e quaisquer cartazes do Fidel Castro, que não é fascista, não senhor, mas que também não é nenhum paladino da democracia. Vamos fazer uma grande pira ao estilo nazi e mandar para lá tudo o que é fascista e que nos faz tremer de medo à noite quando estamos enterrados nos lençóis à espreita de uma qualquer sombra ameaçadora.

Se não quiserem ser tão extremistas, a solução é também ela muito simples e fácil de pôr em práctica: deixem pura e simplesmente de falar em fascismo. Eu próprio, a partir de agora vou eliminar a palavra         nesta crónica. Se não falarem em         ele deixa de existir. Podem até negar qualquer conhecimento de         ou de           de hoje ou de outrora. Façamos todos de conta que o         nunca existiu que pode ser que dessa forma ele nunca mais venha a existir. Toda a gente sabe que a melhor maneira de acabar com um problema é fazer de conta que ele não existe. «Devo dinheiro a quem? Às finanças? Não sei quem é…».

Vou seguir o exemplo dos senhores deputados do PCP e do BE, que arreliados com a ameaça do         fazem de conta que ele não existe, e farei o mesmo com os senhores deputados, com todos eles. A partir de hoje nego a sua existência ou sequer o conhecimento de que alguma vez os tivemos no nosso país. «Deputados? Não sei do que fala.» A partir de hoje deixo de acreditar que tais criaturas existem e pode ser que assim me deixem de dar cabo da vida e da paciência. 

terça-feira, Abril 29, 2014

CARTA ABERTA AO BLOCO



Caríssimos bloquistas (bloqueiros, bloquentos ou bloquitos, nunca sei bem),

A propósito do vosso recente ciclo de cinema, levado a cabo nos quase extintos cinemas Trindade, e que de resto me pareceu conter uma seleção bem interessante de filmes, vim a tomar conhecimento da mensagem de divulgação/convocatória/chamada às armas escrita ­– ou pelo menos assinada – pela vossa coordenadora, Catarina Martins, e do vídeo bastante mal amanhado, diga-se, com o mesmo objectivo e em que podemos ver um senhor Soeiro a falar, mais ou menos escorreitamente, sobre toda a iniciativa.

Pois bem, não perdendo de vista a boa ideia de realizar um ciclo de cinema, parece-me no entanto importante realçar a forma da mensagem e o seu objectivo político nem por isso bem escondido – ou provavelmente assumidíssimo.

Diz a Martins mesmo no final da sua mensagem que num país onde não existe Ministério da Cultura, num Porto a quem os equipamentos culturais foram sendo sucessivamente subtraídos nestes últimos 12 anos, numa cidade e num país onde a austeridade nos morde as canelas e que todos os dias vê tanta gente partir, abrir o Trindade por três dias é, em si mesmo, um ato de resistência. Complementando esta ideia, o senhor Soeiro chama à iniciativa um acto de desobediência civil e é sobre estes termos tão fortes e revolucionários que eu gostava de conversas com vossas excelências.

Ora bem, todos sabemos que as eleições europeias estão à porta e que uma empreitada cultural desta natureza é uma fantástica oportunidade de dar nas vistas, fazer passar uma espécie de mensagem e pelo caminho conseguir uma preciosa e mui objectiva pré-campanha eleitoral. Todos os partidos fazem pré-campanhas eleitorais; uns de uma forma, outros de outra, todas elas mais ou menos desavergonhadas e o povo já está habituado a isso e já nem repara nos objectivos disfarçados. O que aborrece nas mensagens de venham lá ao cinema do Bloco é a falsa ideia de que indo faremos parte de uma revolução, de um acto de rebeldia, de desobediência civil e que também nós seremos cúmplices soldados da resistência.

Pois muito bem, achei que vos devia dizer que há mais rebeldia e desobediência civil num peão que atravessa a passadeira quando o semáforo está verde para os carros. E em boa verdade nem precisava de vos dizer algo que vocês sabem bem. O problema é que ainda há uns quantos que não percebem isso e acreditam nas patranhas que os partidos lhes contam. O problema é que é precisamente desse modo que se conseguem mais umas quantas pessoas e, consecutivamente, mais uns quantos votos nas urnas. E todos sabemos o preço a que está o quilo do voto por estes dias.

Lamento que tenha de ser assim. Lamento especialmente porque ainda acredito que o Bloco e outros partidos (não todos) deste nosso país político conseguiriam atrair gente aos seus objectivos e preocupações por força de propostas válida, úteis e que realmente significassem uma alternativa e uma mudança de rumo. Mas eu percebo, somos um partido jovem, de jovens e para os jovens e há que procurar novas formas de cativar eleitores, que as mais recentes eleições não nos sorriram lá muito, irra!

Ainda assim. Chamem as coisas pelos nomes próprios e deixem lá o sonho de uma nova revolução de lado. Não vai acontecer, nem nas ruas, nem nas urnas e muito menos no parlamento europeu. O povo que encheu (e ainda bem) as sessões do vosso ciclo de cinema ainda gosta mais de pão e vinho do que de pensar em coisas sérias, especialmente se não tiver de pagar para se entreter e divertir.

Para terminar, parabéns (sinceros) pela iniciativa, desejos de que esta se possa repetir, mas sem o discursinho rebeldo-revolucionário-insurgente. É ridículo e não faz nada pela vossa vontade de serem levados a sério. 

segunda-feira, Março 24, 2014

ACERCA (DO MANIFESTO EM DEFESA) DA CULTURA



Sou incondicionalmente a favor do Manifesto em Defesa da Cultura. Sou a favor deste e de todos os manifestos que defendam a melhoria das condições em que se faz cultura em Portugal. Não há como não ser a favor. Por ser a favor deste manifesto e por querer saber mais acerca dele e do combate que pretende travar, participei ontem numa reunião de trabalho com vista a desenvolver novas formas de luta e a agendar um regresso aos protestos. A reunião serviu para conhecer melhor as linhas com que se cose o manifesto e para concluir uma série de outras coisas igualmente preocupantes.

Desde logo a fraca adesão à referida reunião. Já se sabe que é bom enaltecer o espírito de quem, a um Domingo à tarde, sai de sua casa para aderir à luta. No entanto, custa-me a crer que os organizadores tenham verdadeiramente ficado impressionados ou sequer satisfeitos com as cerca de trinta pessoas que participaram na conversa / debate.

Por outro lado, ficou bem evidente que os presentes (e os não presentes) têm uma relação obviamente emocional com o problema em discussão e que isso acaba sempre por significar um pequeno desvio ao motor do Manifesto em Defesa da Cultura. Nada de errado aqui: há realmente uma série de problemas na cultura que não se resolvem com o tal 1% do orçamento de estado que os subscritores do manifesto exigem ao governo. E esses problemas, percebi eu ontem na dita reunião, estão solteiros de uma abordagem séria e efectiva. Porque são problemas graves que os artistas e produtores de cultura sentem no seu dia-a-dia e que acabam abafados por uma luta meramente orçamental e que nada tem a ver com os problemas de base da cultura em Portugal.

Não que nada disto invalide essa luta. Pelo contrário. Não podemos é enveredar por uma espécie de fuga para a frente, saltando por cima das outras dificuldades e dos erros crassos na educação cultural de um povo e de um país. Por outras palavras, este manifesto deve ter em conta esses outros problemas e abraçá-los com igual veemência e força.

Porque se um dia o país acordar com a notícia de que um qualquer governo decidiu ceder às exigências e conceder o tal 1% do orçamento de estado à cultura, ainda assim haverá questões sérias que ficarão por resolver ou, pior, serão ainda mais graves e determinantes da qualidade da cultura que fazemos e a que assistimos.

Nesse dia, o governo continuará a assumir publicamente que os projectos artísticos de Lisboa merecem receber mais dinheiro do que os do Porto, por nenhuma outra razão evidente que não a estratégico-geográfica. Um olhar objectivo às tabelas dos apoios concedidos pela DG Artes permite perceber que o maior apoio concedido a uma estrutura do Porto não anda longe da média dos apoios concedidos aos projectos da capital. Para além disso, a quantidade de projectos apoiados nas duas cidades é outra disparidade que só parece ser explicada pelo facto de uns serem de Lisboa e os outros da outra cidade lá para cima.

Outra questão que ficará por resolver (e na minha opinião que ficará ainda pior) é a dos valores milionários que se pagam a certos profissionais de teatro. Longe de ser uma questão simples de discutir, já que envolve coisas tão etéreas quanto o valor da criação artística e o património intelectual, a verdade é que esta é uma daquelas matérias que ocupa grande parte das conversas de café entre os outros artistas, os que não recebem valores milionários.

Outra questão que ficará sempre por resolver, mesmo que haja muito mais dinheiro para produção artística e cultural, é a dos preços de bilheteira cobrados por quem faz da cultura a sua profissão. Eu acredito na educação gratuita e acredito ainda mais na cultura e na arte como formas de educação. Acredito, por isso mesmo, que os espectáculos que são pagos pelo governo deviam ser mais baratos para quem os quer ver. Só assim se educa um povo e só assim se consegue levar mais pessoas ao teatro, aos concertos, aos bailados e às óperas.

Mais uma vez, nada disto invalida ou põe em causa a luta pelo aumento do orçamento para a cultura. O que pode pôr em causa essa luta é a evidente falta de coesão e de solidariedade entre os que desta luta retirariam maiores dividendos, os artistas. Artistas que parecem não querer saber ou que parecem comprometidos com a esmola do governo e que por isso não se querem colocar numa situação em que fiquem de alguma forma (não consigo imaginar qual) fragilizados na corrida ao subsídio. Poderá ser por aqui que este manifesto não venha a adquirir a força suficiente para fazer a diferença e para alcançar os objectivos a que se propõe. O que será uma lástima.

A cultura portuguesa precisa de melhorar, disso não há dúvidas. Precisa de chegar a mais público, de o educar e de o ensinar a ir ver. Precisa de ser mais exigente consigo própria e de dar ferramentas ao seu público para que exija mais qualidade e variedade e para que tenha mais vontade de ver mais, saber mais, querer mais. Para que isso aconteça não basta que o governo mude a sua maneira de olhar a produção cultural em Portugal. Para que isso aconteça é necessário que ambas as partes, governo e agentes culturais, mudem de uma vez por todas a forma como se olham e parem de virar as costas uns aos outros. Acima de tudo, é obrigatório que os artistas parem de uma vez por todas de desconfiarem uns dos outros, que comecem a respeitar-se e a apoiar-se e que deixem definitivamente de se achar melhores do que o parceiro do lado e a assumir a sua parte da culpa. E, como alguém me dizia ontem, que parem de se vergar para mostrar cada vez mais o rego. Quando isso acontecer, a cultura começa imediatamente a melhorar, com ou sem 1% do orçamento de estado. 

ACERCA DO RIVOLI



Eu não sei quem é o Tiago Guedes. Não o conheço, nunca ouvi falar dele, não sei nada da relevância do seu percurso artístico. Não o conheço mas dizem-me que é certo que seja o Tiago o próximo programador do Rivoli. Dizem-me também que resulta isto de um arranjinho em politiquês fluente, que o vereador da cultura queria muito que fosse ele e, vai daí, que desenhou um perfil pretendido que só podia ser correspondido pelo mesmo Tiago Guedes. Isto é o que me dizem. Investigo um bocadinho mais e descubro que este Tiago Guedes é coreógrafo e director artístico da associação cultural Materiais Diversos e do Teatro Virgínia, em Torres Novas. Sei que tem uma pequena página na Wikipedia.

Apesar de tudo o que me dizem e de tudo o que vejo escrito por aí, a verdade é que ainda não tenho a certeza de que vá ser este rapaz o novo programador (e angariador de fundos, já agora) do Rivoli. Disto não sei nada. Mas em relação ao Rivoli julgo saber umas quantas coisas e tenho a certeza das dúvidas que tenho em relação a tantas outras.

Sei que no Porto não existe um único projecto capaz de encher os 800 lugares do Rivoli.
Sei que nenhum grupo de teatro o seria capaz de fazer.
Sei que no Porto não existem espectáculos de dança.
Sei que no Porto não existe ópera, pese embora o orgulho vaidoso de um certo Círculo portuense de Ópera.

Tenho dúvidas em relação à escolha deste programador como duvido seriamente que a escolha de um programador, qualquer outro programador, fosse bem recebida pela comunidade artística da cidade. É assim o Porto. Desde o incidente La Féria que os artistas, muitos deles, pelo menos, viraram as costas à Câmara e ao Rivoli e não me parece, sinceramente, que estejam dispostos a mudar de atitude.

Duvido muito que a autarquia tenho dinheiro para compor uma programação que encha a vista e traga gente ao Rivoli.
Duvido que grande parte, a maioria até, dos grupos de teatro do Porto queira realmente trabalhar nas suas salas.
E duvido e desconfio do público do Porto. Duvido da sua real sede de cultura e desconfio tremendamente da sua abertura a todo o tipo de projectos que por cá se fazem.
Duvido que os festivais que existem na cidade consigam encher o Rivoli. Duvido do FITEI, duvido do Fantasporto e sei que já não temos PoNTI e outros festivais de antigamente.

Posto isto fica claro que tenho alguns receios.
Tenho receio de que só o Tony Carreira consiga encher o Rivoli. Tenho receio de que o Rivoli seja uma gigantesca baleia branca, um problema sem solução; tenho receio de que na cidade em que o Porto se tornou (para o bem e para o mal) não faça sentido uma sala das dimensões do Rivoli. Tenho receio de que o Rivoli esteja às portas da morte e que tudo isto seja uma questão de nostalgia imposta pelas características adquiridas pela cidade e pelos que nela moram.

Volto ao início. Não sei quem é o Tiago Guedes. Sei que não vai ser ele o salvador do Rivoli, sei que não vai ser esta Câmara a salvar o Rivoli e sei que é preciso, neste momento, muito mais do que dinheiro, uma programação cultural e um programador que a faça cumprir para salvar o Rivoli. E sei, com tristeza, que ler Rivoli nesta crónica é também ler estado da cultura no Porto.

quarta-feira, Março 19, 2014

FANTASPORTO: LONGA AGONIA PARA A MORTE?



Pequena introdução e enquadramento cronológico:
Em Abril do ano passado, cerca de dois meses depois do final da 33ª edição do Fantasporto, o jornal Público noticiava o despedimento colectivo de funcionários da Cooperativa Cinema Novo, responsável pela organização do festival de cinema e punha a nu os valores auferidos pelas duas sobreviventes ao temporal de demissões: 4500 euros brutos para a directora, Beatriz Pacheco Pereira, e 2040 euros brutos para a secretária, Irene Pires.

Em Setembro do mesmo ano a revista Visão avançava com uma extensa reportagem sobre o que parecia ser uma verdadeira história de terror: no mês que se seguiu ao despedimento colectivo o ICA receberia uma denúncia anónima que acusava a cooperativa de uma série de «eventuais ilegalidades relativas ao funcionamento e organização do Fantasporto». A reportagem da Visão era um chorrilho de suspeitas, acusações e de histórias dignas de um argumento de David Mamet, tudo muito bem embrulhado em trocadilhos fáceis inspirados no cinema de terror que durante muitos anos havia sido o combustível do Fantas. Uma semana depois desta reportagem, a Visão voltava à carga e revelava mais histórias mirabolantes do casal director do festival assim como uma espécie de reacção de Mário Dorminsky e Beatriz Pacheco Pereira às acusações de que eram alvo.

Sem querer entrar aqui em mais teorias da conspiração, a verdade é que fazendo as contas e lendo o que se diz nas páginas da Visão, não deixa de ser fácil concluir que alguém que trabalhava na Cinema Novo (e que sabia mais do que era desejado pela direcção) não ficou muito satisfeito com a forma como foi despedido e resolveu tornar público o que manteve em segredo durante alguns anos. Significa isto que o que veio a público acerca da forma como o Fantasporto era dirigido seja falso? De forma alguma. Significa apenas que muito provavelmente os funcionários sabiam destas possíveis ilegalidades e se mantiveram convenientemente calados durante demasiado tempo.

Por outro lado, nenhuma das suspeitas lançadas por essa denúncia anónima se concretizou para já em facto indesmentível. O caso deverá estar a seguir o seu caminho e, como se sabe, em Portugal isso significa alguns bons anos de investigação, recolha de provas e etc. e tal. O que parece facto consumado, no entanto, é que o Fantasporto poderá ter começado já a pagar a factura de uma publicidade tão negativa. A edição deste ano teve uma divulgação praticamente inexistente e uma cobertura mediática absolutamente miserável, que se resumiu a não mais do que a atenção do Porto Canal e a uma pequena caixa com a programação diária no Jornal de Notícias. Ou seja, fica a ideia de que tudo o que foi dito em relação à gestão do festival afastou parceiros e desinteressou público em geral, já que vozes do interior terão já desabafado acerca da fraca adesão de espectadores na edição deste ano.

Não sei se é verdade ou não. Sei, porque durante muitos anos fui espectador assíduo do Fantas, que os números avançados pela sua direcção estavam longe de parecerem reais. As médias de ocupação de sala apresentadas por Dorminsky ou por Beatriz Pacheco Pereira esbarravam sempre na impossibilidade matemática que matinées com pouco mais de dez pessoas na plateia ofereciam. O que me parece indiscutível, e que pode igualmente explicar a possível quebra nas audiências do Fantasporto, é a qualidade em queda livre do que supostamente já foi o maior e mais importante festival de cinema em Portugal. Ao longo dos últimos anos foram cada vez menos os nomes sonantes da sétima arte a virem ao Porto e cada vez mais os nomes que só eram verdadeiramente relevantes para os directores que os convidavam, por exemplo. Os filmes, esses, eram na sua maioria desinteressantes e já nem a capa de festival generalista (mal esclarecida, diga-se) concedia ao Fantasporto a qualidade que o tornou numa referência mundial quando ainda era somente um festival temático e que satisfazia plenamente um público muito específico.

Foram muitos, de resto, os que anunciaram a sua morte quando a sua direcção resolveu alargar a competição a mais do que filmes de terror e do fantástico. A perda óbvia de uma identidade reconhecida, o afastamento mais ou menos esperado de uma grande parte do seu público fiel – fiel porque ia especificamente à procura de sangue e tripas – e a escolha dúbia de filmes a concurso, marcaram o início do declínio, precipitadamente ou não, anunciado.

Passados todos estes anos de quebra constante, a marca Fantasporto precisava de tudo menos do resultado que as notícias do ano passado aparentemente provocaram. A descredibilização artística de um evento cultural é coisa mais ou menos simples de resolver. A descredibilização da honra de quem o dirige, essa, é algo para criar uma imagem negativa de que raramente existe salvação. Em Portugal o povo julga por antecipação e muitas vezes sem retrocesso. A suspeita vale mais do que qualquer decisão judicial e neste caso, infelizmente, sejam ou não verdadeiras as acusações a Mário Dorminsky e a Beatriz Pacheco Pereira, quem paga é o Fantasporto. E a cidade do Porto não precisa mesmo nada de mais um festival moribundo. Já basta os que morreram sem nunca terem passado por esta provação pública e que nos fazem tanta falta.

Isto numa altura em que um grupo de ex-funcionários da Cinema Novo anuncia a criação de uma nova associação cultural, a Replicantes, e a programação de dois festivais de cinema para o Porto. António Reis, antigo director (supostamente) do Fantasporto, diz que nada disto tem como objectivo fazer concorrência ao festival de Dorminsky e Beatriz e que o principal interesse da Replicantes é «investir no cinema com seriedade e profissionalismo». Pessoalmente custa-me a crer que assim seja. Ou melhor, não duvido das boas intenções de quem esteve tantos anos ligado ao único festival de cinema da cidade. Não posso é deixar de ver nas palavras de António Reis uma forte alfinetada no comportamento aparentemente ilegal dos seus comparsas à frente do que também foi o seu Fantasporto. Por outro lado, sendo que um dos festivais já anunciados pela Replicantes será dedicado à temática do futebol(?), só posso imaginar que por esta altura o casal Dorminsky se esteja a rebolar de riso com a perspectiva de concorrência festivaleira. Tendo em conta o que por aí deverá vir, bem falta lhes faz quem lhes provoque uma boa gargalhada.