kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

quinta-feira, março 26, 2015

AH, OS FILHOS DA PUTA...



Há um senhor que escreve no Manifesto 74. Chama-se António Santos e tem a vertebralidade de um atrópode. Escreve o senhor no dito blog acerca de assuntos comunistas; escreve com o coração, comunista, e com a alma, comunista também. Não escreve, e é pena, com a coluna vertebral de muitos comunistas.

O senhor António escreveu há uns dias uma espécie de crónica em que colocava 19 pertinentes questões. Se qualquer um de nós respondesse afirmativamente a cinco dessas questões isso seria um sinal inquestionável de que somos filhos da puta. Está giro e tal, percebe-se a mensagem, é certo, e o ataque aos que o senhor António considera serem os filhos da puta da nossa sociedade, sem dúvida. O problema não é tanto o que o senhor António escreve, mas aquilo que se segue ao que o senhor António escreve.

Destaca-se, desde logo, o facto de o senhor António ter retirado da sua espécie de crónica quase todas as fotografias de personalidades públicas que tinham lá sido colocadas para exemplificar cada uma das questões colocadas. Ele era governantes, políticos, empresários, enfim, a fina nata daqueles a quem o povo chama filho da puta. Presumo também que sejam estes os que mais facilmente telefonam aos seus advogados a fazerem queixinhas de moluscos como o senhor António e que, por essa mesma razão, o senhor António se terá posto fino e para não sofrer quaisquer tipos de represálias lhes apagou os retratos – alguns de altíssimo nível e elegância estonteante.

Ou seja, esta coisa de se dizer o que se quer porque a internet nos protege do lado de lá de um ecrã, aparentemente, e a dizer pela atitude do senhor António, não deve sossegar todos os que querem dizer o que querem. O senhor António claramente não se sentiu sossegado. Ou isso ou alguém do blog lhe disse «põe-te fino, Toni» ou algum advogado amigo lhe disse «abispa-te, Tóno». E o senhor António abispou-se. Ou melhor, abispou-se mais ou menos que eu não tenho a certeza do alcance do poder de queixa da moça Le Pen – uma das duas sobreviventes da borracha higiénica do senhor António.

O senhor António e outros como ele metem-me o mais nojentos dos nojos. Têm muita coragem mas por dois minutos, que a seguir vem a caganeira e correm para se agarrarem à saia da mãe – e entendam por mãe o que acharem mais indicado. E a coragenzinha que levou o senhor António a retirar o que tinha feito – foi ele que fez, era ele que o devia assumir sem medos – é a mesma que o leva a escrever, no espaço dedicado aos comentários, a seguinte pérola de que Castro tanto se orgulharia: Em resposta a algumas perguntas, aqui e ali deixadas, informo que censuro e continuarei a censurar quaisquer mensagens de natureza fascista.

É um comunista de mão cheia, este senhor António. Um dos bons velhos tempos, daqueles que acham que oposição é lixo, que a sua opinião é doutrina, imbatível e inquestionável e que se alguém levantar a voz para a desdizer não merece outra coisa que não o cárcere. O senhor António é um filho da puta de um fascista de esquerda que infelizmente veste a camisola política de um partido que tudo tem feito para merecer gente desta – como todos os partidos fazem tudo para merecer os filhos da puta que lá têm, militantes, simpatizantes, etc.

Filhos da puta há muitos e de muita espécie. O senhor António, no entanto, passa a ser um dos tipos de filho da puta que mais me chateiam e o Manifesto 74 um ninho deles que me irrita e revolta por representar o que de pior existe na política: a cegueira fundamentalista.

A título de exemplo e para terminar, que já escrevi demasiado sobre esta raça de gentinha, uma outra crónica do senhor António. Esta, sobre o aniversário do PCP e sem nada de especial a apontar, continha num dos comentários o tipo de cegueira de que falo. O comentário? Este: Parabéns pelo texto, e parabéns todos os dias ao PCP. Só não concordo com a escolha da música, embora adore o Zeca Afonso, na minha opinião devias por uma música de alguém do partido.

terça-feira, março 24, 2015

A BESTA



A história é universalmente conhecida: lá na escola há um puto que não é particularmente popular. Não é simpático nem educado, alias, é até bastante estúpido e insuportavelmente arrogante. É filho de pais ricos, no entanto, o que lhe garante a casa com piscina e campo de ténis com que pode atrair «amigos» e é alto e espadaúdo, o que certifica que, quando se aborrece ou é contrariado ou não tem nada melhor para fazer pode sacudir os mais medrosos com ameaças mais ou menos violentas ou mesmo uns safanões vistosos. É uma besta, mas é uma besta com o poder que lhe permitem ter. Neste caso, o remédio era a maioria dos alunos da escola agir em absoluta concertação e isolar o animal, fazer de conta que ele e a casa dos papás e os músculos impróprios de um rapaz daquela idade não existiam e pura e simplesmente isolá-lo. Deixá-lo sozinho a falar para as paredes, a exercer o seu falso poder sobre os cestos do lixo, uma alma solitária penada, sem ninguém, sem ninguém, sem ninguém. Não durava muito tempo e passava a ser uma memória distante de algo que incomodava e que já só lembrado para as inevitáveis piadas de putos e para dar o exemplo.

O mesmo se devia fazer a Israel. Isolar um país daqueles e levá-lo ao esquecimento era o melhor que se podia fazer. Um mundo perfeito seria um mundo em que todos os países do mundo boicotassem completamente a nação de Israel. Boicote aos vistos turísticos para entrar e sair do país, boicote aos vistos de trabalho dentro e fora do país, boicote aos artistas israelitas, aos cientistas e investigadores israelitas, boicote às importações e exportações israelitas, nem mais um figo comprado, nem mais uma aspirina vendida. Fechar Israel bem dentro daqueles muros de que tanto se orgulha. Não mais reuniões políticas e empresariais, não mais conferências de paz, não mais uma cadeira que fosse na ONU ou em qualquer outra organização, governamental ou não. Isolamento total e implacável do resto do mundo. 

Parece violento? Parece, sim senhor. Muita da população israelita provavelmente não tem culpa das decisões dos sucessivos governos nacionais. Não tem culpa e não concorda. Nem a população nem os artistas, nem os cientistas, nem os investigadores. Mas alguém vota nas eleições e elege estes terroristas tornando-os terroristas legais. Alguém vai às urnas legitimar um estado racista, xenófobo, violento, prepotente e apostado, pelas últimas notícias, em aumentar decididamente o tom da violência na região. E portanto teria muito pouca ou nenhuma pena da população israelita se o cenário idílico acima descrito se concretizasse de alguma maneira. 

É violento? É. É bastante. Mas não é mais violento do que o que Israel faz à Palestina e, desenganem-se, se acharem que não, ao resto do mundo. É claro, Israel não o faz sozinho e sem aliados de peso. Aliados que, como os putos na escola, têm medo do galifão, têm interesse na «amizade» do boçal e não conseguem nem querem, na verdade, dizer-lhe que não. Eu, que já esgotei toda a paciência e crença numa resolução pacífica para o problema que é Israel – e não o problema Israel-Palestina, como todos lhe chamam – ficaria muito contente por ver o país dos escolhidos por Deus encerrado dentro de quatro paredes, deixado a definhar sozinho, sem amigos, sem ajuda, teimosamente à espera da vinda do Salvador à terra só para perceber que a vinda dele não era a salvação prometida mas sim um tiro de misericórdia que não merece. Israel em chamas provocadas pela ira justiceira do Deus deles. Isso sim seria um sonho tornado realidade. 

quarta-feira, março 04, 2015

UMA HOUSE OF CARDS PELA ESCADA ABAIXO



Parece ser um problema incontornável das séries de televisão, principalmente das made in USA: a dada altura tudo o que foi construído com qualidade, rigor e critério, dispara escada abaixo aos trambolhões e com estrondo. No caso da magnífica House of Cards a queda deu-se à terceira temporada – o que parece dar razão à teoria de um amigo que defende que as duas primeiras temporadas são escritas de uma vez para ver no que dá e que a terceira, em virtude do sucesso das que lhe antecederam, é rabiscada a correr muito para alimentar os fãs sedentos e aproveitar a onda positiva. No caso de House of Cards, no entanto, isso pode não ser verdade, tendo em conta os doze meses de intervalo entre a segunda e a terceira temporadas. e se não for verdade, então o acidente é ainda mais incompreensível.

E não havendo maneira de dizer isto de forma simpática, permitam-me uma introdução suave: House of Cards continua a ser filmada com uma mestria absoluta, bem escrita, interpretada por actores intocáveis no seu trabalho e servida por uma banda sonora arrepiante de boa. O que é que falha? O que não podia de modo algum falhar: o argumento.

A terceira temporada da série apadrinhada por David Fincher é chata, desinteressante e desencantada consigo própria. Não tem energia, não tem ritmo nem dinâmica; perdeu todo o veneno, os jogos de bastidores desceram ao nível do mais simples humano e o suspense morreu. House of Cards é hoje mais previsível que o pior episódio de Anatomia de Grey; é uma série rendida ao mais comum dos clichés, chegando ao ponto de ressuscitar memórias de uma guerra fria que ficou para sempre congelada na era Reagan. O duelo entre presidentes dos EUA e da Rússia, que ocupa nesta terceira temporada um considerável pedaço da intriga, chega a ser ridículo de tão bacoco e bafiento.

Não há como entender o que se passou no curto prazo – na verdade anormalmente longo – que separa o que foi um dos maiores fenómenos da produção televisiva americana deste objecto perfeitamente dispensável. É uma queda brutal e que não deixa antever melhoras breves, especialmente se tivermos em conta que a quarta temporada não foi sequer anunciada ao mundo. Por outro lado, o mesmo já aconteceu com outras séries de igual ou maior valor. Breaking Bad e Sons of Anarchy, só para não me alongar nos exemplos, tiveram temporadas absolutamente aborrecidas e que não pareciam ir a lado nenhum e sobreviveram-lhes, reinventaram-se e voltaram à boa forma inicial. É o que se deseja a House of Cards. Que se esqueça rapidamente do trambolhão ou que se esforce muito por o reconhecer para que o possa usar para se catapultar para uma quarta temporada que nos permita, espectadores atentos, esquecer que houve uma terceira.


sábado, fevereiro 21, 2015

FOXCATCHER - O QUE ESTÁ PARA VIR



Foxcatcher é bom. É um bom filme de um realizador que não filma muito – desde 1998 assinou um documentário, uma curta documental e três longas-metragens – mas que consegue (quase) sempre atrair a atenção de público e crítica. O quase ali em cima refere-se a Moneyball, de 2011, obra muito aclamada mas que foi na verdade um desvio ao que parece ser a real assinatura de Bennett Miller. E que assinatura é esta? É uma de frieza quase clínica, tão evidente em Capote e agora neste Foxcatcher e que faz do seu um cinema de poucas falas, planos gélidos e quase fantasmagóricos, acompanhados por bandas sonoras que pairam sobre as imagens sem as incomodar, quase sem se fazer notar; preenchido por personagens com inúmeras camadas, nem todas evidentes mas quase nunca surpreendentes. O cinema de Miller é, por tudo isto, um caminho certo, com final anunciado, previsto e temido, mortal.

E por isso começo pelo final para dizer que por tudo isto, e ao contrário de tanta gente, não me desiludi com o final de Foxcatcher. Não por ser um espectador visionário, daqueles que pela experiência adquirida é capaz de adivinhar o final de um filme, mas porque Foxcatcher dedica hora e meia a mostrar-nos que aquilo, aquela história, não tem como acabar bem. É uma tragédia inevitável, uma espiral de violência implodida a cada curva e que deixa pelo caminho um rasto claro do que está para vir.

Este cinema, o de Bennett Miller, é construído de maneira a que todos os seus elementos nos conduzam para um mesmo fim. Como já referi anteriormente, o ambiente, a imagem e o som dos seus filmes trabalham em conjunto, são um só veículo em velocidade controlada, muito controlada, com um destino marcado e hora de chegada cumprida à risca. E é neste veículo que entram os actores – em Foxcatcher como em Capote, de 2005 – cumprindo escrupulosamente as regras do jogo, que existem, novamente, para que o seu propósito seja consumado.

Neste ponto não posso deixar de destacar a tremenda injustiça que tem sido todo o falatório em torno do desempenho de Mark Ruffalo e Steve Carrell – especialmente deste último – e o esquecimento claramente propositado de Channing Tatum, inquestionavelmente o melhor de tudo o que há de bom no filme. Tatum é magistral no desenho que faz de um homem também ele em constante implosão, em permanente contenção; um tímido bruto, uma infantil máquina de força dentro do corpo de um gigante com vergonha de abrir os braços ou de dar passadas mais largas. Tatum carrega o filme às costas porque é a sua personagem que carrega a tragédia anunciada às suas e é, mais uma vez e sempre, grandioso. É uma das interpretações do ano. Maior e melhor, desde logo, que a do seu colega, Carrell, que consegue a nomeação ao Óscar simplesmente porque a Academia adora uma boa transformação física. Transformação física que não foi capaz de detectar no corpo de Channing Tatum, essa sim realmente impressionante e que não necessitou de tanta prostética. Sem meias palavras: Tatum merecia a nomeação e concorria directamente contra Michael Keaton pelo boneco dourado.

Foxcatcher é bom. É um bom filme de um realizador que não filma muito mas que quando o faz, faz bem. E que leva o tempo que acha necessário para construir a sua carreira, da mesma forma que leva o tempo que considera útil para contar as histórias que lhe interessam. Este filme, espera-se, é o retomar do caminho começado em Capote e que sofreu um desvio tão esquecível como, percebemos agora, insignificante. Esperemos (ansiosamente) pelo próximo trabalho para perceber afinal para onde caminha Bennett Miller.


terça-feira, fevereiro 17, 2015

BIRDMAN ou A VIRTUDE



Directamente ao argumento que vai encerrar este texto: o meu filme de 2014 é The Grand Budapest Hotel mas Birdman or the Unexpected Virtue of Ignorance merece todos os principais Ócares para que está nomeado. E à falta de uma ordem lógica para começar a escrever sobre a última obra de Alejandro González Iñárritu, aproveito esta certeza para melhor a abordar:

Melhor filme do ano (apesar da minha preferência) indiscutivelmente.

Melhor actor do ano para um Michael Keaton absolutamente arrasador.

Melhor actor secundário para Edward Norton que perde a estatueta para J. K. Simmons por uma série de razões que nada têm a ver com o trabalho dos dois actores.

Melhor actriz secundária porque, apesar de não conhecer o desempenho das restantes nomeadas, tenho a certeza de que Emma Stone merece tudo o que dela tem sido dito.

Melhor argumento original porque um argumento é uma boa história mas é, acima de tudo, um texto bem escrito, com falas e diálogos que nos ficam na cabeça e que são o princípio base do trabalho dos actores.

Melhor cinematografia porque é a melhor câmara dos últimos anos.

Melhor realizador porque é de Alejandro González Iñárritu que estamos a falar.

Birdman é um daqueles filmes que nos agarram pelos colarinhos ao primeiro segundo de projecção e que só nos largam alguns dias depois de o termos visto. Um daqueles filmes que apetece rever assim que termina. Um filme que surpreende apenas quem não conhecia a carreira do seu realizador e que é, assim, abençoado com a virtude da ignorância que está no título, apetece-me, por isso mesmo.

Birdman é perfeito, obra de um homem que tem conseguido afirmar um trabalho de autor que não cedeu, para já, à grande indústria mas que anda ao lado dela num corredor-caminho bem mais interessante. Iñárritu é um cineasta único, com um universo único, com um olhar único sobre o mundo e os seus e que inova a cada obra que constrói. Inova na técnica, nas histórias, no trabalho de actor e na câmara que os filma. É um autor, criador, inventor de cinema como não há muitos por aí.

A máxima injustiça de 2011 que foi Biutiful não ter ganho tudo o que havia para ganhar – e quase nas mesmas categorias – é uma daquelas que mancham mais um bocadinho a longa lista de atropelos made in Hollywood. Se 2015 seguir pelo mesmo caminho, Alejandro González Iñárritu junta-se já, e apenas com quatro longas-metragens no currículo, ao rol de ilustres realizadores esquecidos pela academia.

E nada mais a dizer em relação a Birdman. A não ser que é o mais entusiasmante, original, arriscado, criativo e delirante filme de 2014. The Grand Budapest Hotel é o meu filme preferido de 2014, mas se Birdman o vencer em todas as frentes, nessa noite dormirei mais descansado sabendo que se fez justiça.




sexta-feira, fevereiro 13, 2015

WHIPLASH: O HYPE É UMA CENA LIXADA



O argumento de Whiplash:
Acto 1
– Eu quero ser o melhor baterista da história!
– Eu sou o tipo certo para te ajudar nisso. Mas olha que vai ser lixado, que eu sou um psicopata do pior.
– Na boa, eu aguento.
– Depois não digas que não avisei…

Acto 2
– Afinal és psicopata de mais e eu, que afinal também sou psicopata, não aguento mais esta brincadeira.
– Eu avisei.
– Pois avisaste, mas ainda assim, arranjei maneira de te dar cabo da vida, meu menino. E agora vou desistir da bateria, pronto.

Acto 3
(Reencontro num bar)
– Então e essa vida?
– Olha, fui despedido por ser psicopata.
– Não me digas!?
– É verdade, mas não faz mal, a culpa é dos outros que não perceberam esta mensagem que te vou dizer agora para tu perceberes e me ajudares a dar um fim digno a esta história.

Acto 4
Fim digno da história.

Este é o argumento de Whiplash, o filme que tem prometido mundos e fundos e que na verdade não passa de uma obra vulgar.

Whiplash é o enésimo representante desse subgénero clássico do cinema americano que é o filme de escola e/ou academia militar, dedicado à vontade de ser o melhor, de superar todas as dificuldades e de se superar a sim mesmo, às hierarquias, ao abuso de poder que realmente é uma ajuda para chegar mais longe e à amizade e ao respeito improváveis que surgem das relações complicadas entre líder/professor e aluno/instruendo e o que tudo isto representa na sociedade americana. Já vimos isto tantas vezes e tantas vezes mais bem feito, que não conseguimos deixar de olhar com desconfiança para os epítetos de originalidade e frescura que tanta gente tem tentado colar ao filme de Damien Chazelle.

Whiplash, esse nomeado a melhor filme do ano, é o esticar de uma corda curta que servia (como serviu) para uma curta-metragem. Fazer um filme de uma hora e quarenta com uma história tão escassa é um encurtar de caminho aos encontrões, com pouca informação, personagens redondos – e também já vistos e revistos – e que, por essa mesma razão, escalam de uma forma muitas vezes exagerada – a mudança de comportamento de Andrew (Miles Teller), por exemplo, surge do nada, sem que nenhuma pista acerca da sua loucura obsessiva nos tivesse sido previamente apresentada.
Ou seja, não se compreende a nomeação para melhor argumento adaptado do ano. Porque não é um grande argumento (na qualidade e na dimensão), porque não é um texto particularmente brilhante e porque é um aglomerado de personagens chavão, tiradas mastigadas e situações cliché, mais uma vez, vistas e revistas em centenas de outros filmes.

Mas depois há J. K. Simmons. E sobre ele tudo o que foi dito foi bem dito. É um dos melhores segundas linhas que por aí tem andado e o facto de só agora ter esta dose de reconhecimento é uma daquelas injustiças que não tem grande explicação. Nem se pretende que tenha. Simmons é realmente brilhante, neste como em outros trabalhos da sua longa carreira, e se no dia 22 levar a estatueta dourada para casa, não será de todo uma surpresa ou uma injustiça – embora na minha opinião o melhor secundário do ano esteja noutro filme concorrente aos Óscares.

Mas é Whiplash um mau filme? Não, não é e até se vê bastante bem. É o filme que tantos andam por aí a apregoar? Nem de perto, nem de longe. É até um filme bastante sincero, herdeiro fiel dessa tal cinematografia tão querida aos americanos. Do que eu duvido é da sinceridade dos que tudo fizeram para que estivesse ali, no topo da hierarquia cinematográfica de 2014. Não o merece, como não merecia ser arma de arremesso de uma indústria que procura desesperadamente por uma salvação que, por uma vez, ao menos, não passe pelos blockbusters da Marvel.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

PARA ACABAR DE UMA VEZ COM O PROBLEMA



Para acabar de uma vez com o problema entram duas Kalashnikov numa redacção em Paris e quando saem levam doze consigo, de caneta em punho, mais um na rua, a sua arma bem guardada, que nem no punho estava.

Para acabar de uma vez com o problema somos todos subitamente franceses, somos todos subitamente Charlie Hebdo, somos todos anti-terrorismo e, pior do que isso, somos muitos, mais do que éramos ontem, anti-muçulmanos. E de repente somos todos adeptos de um discurso de choque, pontual e que tem, como sempre, o prazo de validade de um requeijão de Seia.

Subitamente somos todos Charlie Hebdo como não fomos todos subitamente James Foley ou Steven Sotloff, os jornalistas americanos decapitados por jihadistas do Estado Islâmico, ao vivo e a cores, porque enfim, eram americanos, estavam a pedi-las. Como não fomos Yousaf Khokhar, Robert Shamwami Shalubuto, Aung Kyaw Naing, Maria del Rosario Fuentes Rubio e como não fomos nenhum dos 138 jornalistas que em 2014 morreram no desempenho da sua profissão. Porque esses morreram lá longe, sabiam dos riscos que corriam e olha, paciência, já sabiam o que lhes podia calhar em sorte.

Ontem fomos todos franceses e fomos todos Charlie Hebdo como hoje não somos iemenitas como os trinta que foram assassinados ontem numa academia de polícia do Iémen por um bombista suicida. Porque isso é lá entre eles numa terra que não interessa a ninguém, que se lixem, que se matem uns aos outros, que se expludam.

Hoje, como ontem, seremos todos Charlie Hebdo. Uns porque sentem a dor do que aconteceu em Paris no dia 7 de Janeiro de 2015; outros, porque têm uma vontade inesgotável de vociferar contra o poder imperialista dos EUA e qualquer pretexto é um bom pretexto para culpar os americanos destas treze mortes; outros, os políticos, porque nada funciona melhor do que um massacre desta natureza para consolidar as parvoíces que apregoam.

E no fundo é mentira que somos todos Charlie Hebdo. É mentira porque para sermos todos Charlie Hebdo teríamos de ser Charlie Hebdo todos os dias e não somos. Não falamos para não ofender, não dizemos para não arreliar, não gozamos porque temos medo de perder o emprego, não escrevemos porque tal fulano tem poder e pode dar-nos cabo da vidinha. Na verdade, do que menos precisam os jornalistas assassinados é da nossa solidariedade. Não precisam dela e nem nós merecemos oferecê-la a quem verdadeiramente se arrisca todos os dias em nome da liberdade de expressão e da liberdade de informação, duas liberdades para que nós nos estamos todos os dias a borrifar e que só nos interessam se não for para falar mal do meu partido ou da minha religião ou do meu clube de futebol.

Alguém que admiro profundamente e que partilha o meu amor e a minha obsessão pela liberdade de expressão e pela liberdade do humor, escreveu ontem na sua página de Facebook o direito de insultar é tão importante como o direito de nos sentirmos insultados  –  mas nenhum deles é razão válida para cortar a palavra, a ideia ou muito menos a vida a ninguém. Como nada é razão que justifique a censura.

E a censura não é o que aconteceu ontem em França. O que aconteceu ontem em França é algo para que não encontro nenhuma qualificação realmente justa. A censura começa no não digas isso, o que tu foste dizer ou ainda te vais lixar com isso. E quem tem medo de falar ou dos que os outros possam dizer, quem tem uma postura interesseira relativamente à liberdade de expressão não pode ser Charlie Hebdo. Não tem esse direito. Porque a liberdade de expressão deve ser defendida todos os dias e em todas as ocasiões e não só quando é interrompida por duas Kalashnikov, uma faca na garganta, um carro carregado de explosivos e não sei quantos jornalistas assassinados.

O massacre no Charlie Hebdo é daquelas coisas que me dá um nó na garganta. Que me emociona como me emocionam na verdade as manifestações de solidariedade que têm enchido as páginas das redes sociais e as primeiras páginas dos jornais a sério. O massacre no Charlie Hebdo é um massacre, ponto final. Não é uma teoria da conspiração de como foi levado a cabo por activistas da extrema-direita. Não é uma desculpa para falar no colonialismo americano, nos sionistas, na globalização ou no monstro do capitalismo. É um massacre de treze pessoas, jornalistas, incómodos, sem medo de dizer, escrever e desenhar o que lhes ia na cabeça, sem medo de ofender, insultar, gozar e, com isso tudo, denunciar tudo e todos, sem fazer reféns, sem medo, sem medo, sem medo.

Hoje somos todos franceses e todos Charlie Hebdo – e isso enche-me de orgulho, em muitos casos, e de vergonha em tantos outros. E devíamos ser todos os dias franceses, americanos, iraquianos, chilenos, sul-africanos e devíamos todos os dias defender o direito à informação e a liberdade de expressão, mesmo que ofensiva, mesmo que insultuosa. Esperar pela morte de quem luta pelas nossas liberdades para sair à rua em sua defesa é a única liberdade a que não temos direito.