kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

domingo, abril 19, 2015

O LUGAR DA CULTURA?



Sempre achei que muitas das pessoas que estão à frente de ministérios, secretarias de estado, gabinetes de desenvolvimento e de investigação e tantos outros serviços que nos interessam de uma forma ou outra, têm pouco ou nada a ver com os assuntos em questão. São cargos ocupados por inúmeros motivos; por colocação, por sugestão de amigos de amigos, por ascensão natural na carreira, etc. Não são, acredito eu, por interesse pessoal na matéria a ser trabalhada. Mais concretamente, acredito que no campo governativo, os políticos são as piores pessoas para assegurarem os interesses da cultura. Um político carreirista lutar pelos interesses de quem produz e de quem consome cultura, é mais ou menos o mesmo que destinar um economista académico a uma vida de vendedor de bolas de Berlim nas praias da Nazaré.

Eu sei, é arrogância nivelar todos os políticos profissionais por um mesmo degrau de ignorância, de burrice e de desinteresse por todos os assuntos que não tenham a ver com economia, finanças, banca e politiquice pura e dura. Por outro lado, todos os dias, de há não sei quantos anos para cá, não vemos outra coisa que não seja um profundo desinteresse pelo estado da cultura em Portugal e pela qualidade de vida de quem a trabalha. Os profissionais da cultura em Portugal não são profissionais aos olhos dos outros. Cultura em Portugal ainda é, para muita gente, um hobby, uma coisa que se faz nas horas vagas. Os enfermeiros, os tipos do metro e os pilotos da TAP, esses sim, esses têm de lutar pelos seus direitos e têm de receber mais e trabalhar menos horas. Os actores, realizadores, encenadores e aquela gente toda das artes, esses já têm muita sorte em receber seja o que for para fazerem aquelas coisas que ninguém vai ver. Eu também acho que os enfermeiros e todos os outros profissionais de todos os sectores têm o direito, acima de tudo, a serem respeitados por aquilo que fazem. O respeito, esse, tem é de ser para todos.

A mais recente prova de que os políticos deste país se estão nas tintas para a cultura e que para eles a cultura e as artes são coisas muito estranhas e de que eles não percebem uma migalha de pão seco, é este fórum organizado pela secretaria de estado da cultura com o nome profético O Lugar da Cultura – no fim explico esta do profético. Durante três dias, Lisboa será palco de uma aturada discussão em torno da cultura e da sua «presença e relevância em Portugal», segundo palavras do próprio secretário de estado. Tudo muito bonito, não fosse o painel de oradores composto por economistas, directores e professores de várias universidades, outros ministros e secretários de estado, um delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, no Vaticano, um antigo presidente do Parlamento Europeu, o Imã da Mesquita Central de Lisboa, a vice-presidente da comunidade judaica em Lisboa, a presidente do INE e mais uns quantos outros que, segundo a organização do fórum, têm tudo a ver com a discussão em causa. Artistas? São muito poucos…

Se o objectivo é falar do lugar da cultura e a sua relevância no nosso país, começo por duvidar, então, do conhecimento que os convidados internacionais terão da nossa realidade cultural e artística. E se os artistas estivessem mais representados neste discussão acerca da sua relevância e lugar, não teria quaisquer problemas em que viessem uns quantos camones para botar faladura acerca de algo que, desconfio, sabem muito pouco. E é aqui, precisamente que reside o problema. 

É este, aliás, o problema. Em Portugal quem trata da cultura, quem lhe dá meios, quem olha pelos seus interesses, são políticos, economistas e teóricos dos mais diversos quadrantes, que se convidam uns aos outros para as conferências, fóruns e debates que organizam. Esta gente vai a conferências por um preço e faz disso uma carreira, que começa ou acaba na publicação de um paper numa revista muito conceituada. Pelo meio fica a dita conferência, com honorários não tão de saldos quanto isso, estadia em hotel de cinco estrelas e jantares de gala. E nada, como diriam os espanhóis. Daqui não resulta nada, muito menos para os artistas e profissionais (a sério) da cultura em Portugal.

Este fórum, como tantos outros, é um passeio de vaidades, um ninho de amiguismos, sem real interesse ou preocupação pelo assunto em debate, sem vontade se mudar seja o que for. É uma tremenda perda de tempo e de dinheiro, um novo-riquismo de quem gosta muito de brincar à gente crescida, que organiza eventos internacionais e gosta de gritar «também somos civilizados!»

Portugal é um país triste porque é ridículo. É um país triste porque, como muitos outros, é conduzido por gente que se veste como um bancário. Num país como este, a resposta à pergunta – que nem no fórum é uma pergunta – qual o lugar da cultura? é simples: não sei, mas sei que não é em Portugal.


Pequeno comentário: de acordo com informações recolhidas pelo jornal Público, este fórum terá custado aos cofres da secretaria de estado da cultura cerca de 140 mil euros. Esses 140 mil euros davam para muita coisa na cultura, mas a verdade é que a secretaria de estado da cultura e o seu secretário, não se preocupam lá muito com a cultura. Para ele e para os outros como ele, é este o lugar evidente da cultura: num cantinho, bem longe da vista, como quem arruma aquele kit de fondue que recebeu pelo casamento e para o qual não tem a mais pequena utilização. Não era necessário gastar 140 mil euros num fórum para nos provar o que já sabemos.

quarta-feira, abril 01, 2015

A CORJA E O RAMBO



Imaginem um país em que o Primeiro Ministro é apanhado a fugir ao fisco, o anterior Primeiro Ministro está preso, acusado de fraude fiscal qualificada, corrupção e branqueamento de capitais, diversos novos inquilinos de câmaras municipais e juntas de freguesia denunciam variadíssimas prácticas criminosas dos seus antecessores e em que o casamento entre os tubarões do sector privado, nomeadamente da banca, e os políticos eleitos pelo povo é um enorme charco de nojo. Imaginem que nesse país se descobrem as ligações nada bonitas entre o Ministro da Defesa, os seus amigos e o seu próprio gabinete de advocacia. Imaginem que o ministro, por exemplo, atribuiu a construção dos drones portugueses a uma empresa gerida por um seu antigo assessor; imaginem que em 2014 o gabinete de advocacia que pertence ao ministro promoveu um seminário sobre oportunidades de investimento na Colômbia uma semana antes do dito ministro visitar aquele país da América Latina em representação do governo português; imaginem ainda que, três meses após uma visita do ministro ao Perú, também ela oficial, que este gabinete anunciou um novo parceiro, imagine-se, peruano. 

Se ouvissem falar de um país onde coisas destas acontecem, qual acham que seria a vossa opinião de tal país e, acima de tudo, da sua classe política? Pois é assim que os outros olham para Portugal e para a nossa classe política: um bando de corruptos em nada melhores do que aquelas caricaturas de líderes de países fictícios que povoam o cinema de série B em que heróis anti-fascistas combatem políticos rastejantes e capitalistas de fundo de floresta tropical e lhes destroem o império munidos somente de uma faca de cozinha e duas riscas pretas debaixo dos olhos para se disfarçarem na vegetação.

Este é o nosso país e estas são as pessoas a quem confiámos a condução da nossa vida. E confiamos nestas pessoas, seja lá pelo tempo que for, porque durante gerações e gerações fomos convencidos de que era realmente necessário e muito bom para nós escolhermos os nossos representantes. A noção de representante, de líder que olha pelos nosso interesses, impregnou-se no nosso DNA e existe hoje na forma de responsável de condomínio, líder sindical, presidente da associação de pais, delegado de turma, presidente de junta, presidente da câmara, ministros, presidente. Fomos convencidos disto. Fomos convencidos de que era tudo no nosso maior interesse e estamos agora lentamente – muito lentamente – a convencermos-nos de que é tudo uma grande mentira nascida, cultivada e crescida numa grande verdade. Não é no nosso interesse e não sei quando terá sido a última vez que realmente terá sido no nosso interesse. Sei que já não é e sei que tão cedo não volta a ser.

Esta gente, esta corja, que compõe o tecido dos eleitos a serem eleitos, dos que podem ser escolhidos para nossos representantes, é o pior de qualquer sistema político e é decididamente o início do fim dos sistemas políticos. Depois disto só a absoluta e total anarquia. Sem eles não nos entendemos e com eles só ficamos pior, cada vez pior. Num incêndio destas proporções só uma explosão é remédio, portanto, que haja uma explosão que nos faça regressar a um tempo que se calhar nunca existiu, a um tempo de anarquia. Porque isto, este sistema, conduzido por esta gente, perpetuado por esta gente, não tem solução. E não tem solução porque é demasiado bom para esta gente o recusar e tentar ser o que tanto esperamos e necessitamos e porque nós, os verdadeiros responsáveis pela queda de um sistema, não os controlamos, não os responsabilizamos e não reclamamos.


Esta gente é criminosa. São criminosos com licença para matar, com autorização para roubar, com o direito atribuído por nós de nos fazerem mal, de nos maltratarem, de nos colocarem no lixo, sem remorsos, sem vergonha. E em criminosos eu não voto. Neste sistema eu não voto. Votarei, sim, no dia em que um qualquer Rambo de faca de cozinha nos dentes e dois dedos pretos debaixo dos olhos subir ao poder para explodir esta corja da face do planeta. Nesse dia voto e levo comigo uma faca de pão que guardo na gaveta da cozinha e que é bem perigosa e faz uns cortes bem lixados de curar. Nesse dia sim.

quinta-feira, março 26, 2015

AH, OS FILHOS DA PUTA...



Há um senhor que escreve no Manifesto 74. Chama-se António Santos e tem a vertebralidade de um atrópode. Escreve o senhor no dito blog acerca de assuntos comunistas; escreve com o coração, comunista, e com a alma, comunista também. Não escreve, e é pena, com a coluna vertebral de muitos comunistas.

O senhor António escreveu há uns dias uma espécie de crónica em que colocava 19 pertinentes questões. Se qualquer um de nós respondesse afirmativamente a cinco dessas questões isso seria um sinal inquestionável de que somos filhos da puta. Está giro e tal, percebe-se a mensagem, é certo, e o ataque aos que o senhor António considera serem os filhos da puta da nossa sociedade, sem dúvida. O problema não é tanto o que o senhor António escreve, mas aquilo que se segue ao que o senhor António escreve.

Destaca-se, desde logo, o facto de o senhor António ter retirado da sua espécie de crónica quase todas as fotografias de personalidades públicas que tinham lá sido colocadas para exemplificar cada uma das questões colocadas. Ele era governantes, políticos, empresários, enfim, a fina nata daqueles a quem o povo chama filho da puta. Presumo também que sejam estes os que mais facilmente telefonam aos seus advogados a fazerem queixinhas de moluscos como o senhor António e que, por essa mesma razão, o senhor António se terá posto fino e para não sofrer quaisquer tipos de represálias lhes apagou os retratos – alguns de altíssimo nível e elegância estonteante.

Ou seja, esta coisa de se dizer o que se quer porque a internet nos protege do lado de lá de um ecrã, aparentemente, e a dizer pela atitude do senhor António, não deve sossegar todos os que querem dizer o que querem. O senhor António claramente não se sentiu sossegado. Ou isso ou alguém do blog lhe disse «põe-te fino, Toni» ou algum advogado amigo lhe disse «abispa-te, Tóno». E o senhor António abispou-se. Ou melhor, abispou-se mais ou menos que eu não tenho a certeza do alcance do poder de queixa da moça Le Pen – uma das duas sobreviventes da borracha higiénica do senhor António.

O senhor António e outros como ele metem-me o mais nojentos dos nojos. Têm muita coragem mas por dois minutos, que a seguir vem a caganeira e correm para se agarrarem à saia da mãe – e entendam por mãe o que acharem mais indicado. E a coragenzinha que levou o senhor António a retirar o que tinha feito – foi ele que fez, era ele que o devia assumir sem medos – é a mesma que o leva a escrever, no espaço dedicado aos comentários, a seguinte pérola de que Castro tanto se orgulharia: Em resposta a algumas perguntas, aqui e ali deixadas, informo que censuro e continuarei a censurar quaisquer mensagens de natureza fascista.

É um comunista de mão cheia, este senhor António. Um dos bons velhos tempos, daqueles que acham que oposição é lixo, que a sua opinião é doutrina, imbatível e inquestionável e que se alguém levantar a voz para a desdizer não merece outra coisa que não o cárcere. O senhor António é um filho da puta de um fascista de esquerda que infelizmente veste a camisola política de um partido que tudo tem feito para merecer gente desta – como todos os partidos fazem tudo para merecer os filhos da puta que lá têm, militantes, simpatizantes, etc.

Filhos da puta há muitos e de muita espécie. O senhor António, no entanto, passa a ser um dos tipos de filho da puta que mais me chateiam e o Manifesto 74 um ninho deles que me irrita e revolta por representar o que de pior existe na política: a cegueira fundamentalista.

A título de exemplo e para terminar, que já escrevi demasiado sobre esta raça de gentinha, uma outra crónica do senhor António. Esta, sobre o aniversário do PCP e sem nada de especial a apontar, continha num dos comentários o tipo de cegueira de que falo. O comentário? Este: Parabéns pelo texto, e parabéns todos os dias ao PCP. Só não concordo com a escolha da música, embora adore o Zeca Afonso, na minha opinião devias por uma música de alguém do partido.

terça-feira, março 24, 2015

A BESTA



A história é universalmente conhecida: lá na escola há um puto que não é particularmente popular. Não é simpático nem educado, alias, é até bastante estúpido e insuportavelmente arrogante. É filho de pais ricos, no entanto, o que lhe garante a casa com piscina e campo de ténis com que pode atrair «amigos» e é alto e espadaúdo, o que certifica que, quando se aborrece ou é contrariado ou não tem nada melhor para fazer pode sacudir os mais medrosos com ameaças mais ou menos violentas ou mesmo uns safanões vistosos. É uma besta, mas é uma besta com o poder que lhe permitem ter. Neste caso, o remédio era a maioria dos alunos da escola agir em absoluta concertação e isolar o animal, fazer de conta que ele e a casa dos papás e os músculos impróprios de um rapaz daquela idade não existiam e pura e simplesmente isolá-lo. Deixá-lo sozinho a falar para as paredes, a exercer o seu falso poder sobre os cestos do lixo, uma alma solitária penada, sem ninguém, sem ninguém, sem ninguém. Não durava muito tempo e passava a ser uma memória distante de algo que incomodava e que já só lembrado para as inevitáveis piadas de putos e para dar o exemplo.

O mesmo se devia fazer a Israel. Isolar um país daqueles e levá-lo ao esquecimento era o melhor que se podia fazer. Um mundo perfeito seria um mundo em que todos os países do mundo boicotassem completamente a nação de Israel. Boicote aos vistos turísticos para entrar e sair do país, boicote aos vistos de trabalho dentro e fora do país, boicote aos artistas israelitas, aos cientistas e investigadores israelitas, boicote às importações e exportações israelitas, nem mais um figo comprado, nem mais uma aspirina vendida. Fechar Israel bem dentro daqueles muros de que tanto se orgulha. Não mais reuniões políticas e empresariais, não mais conferências de paz, não mais uma cadeira que fosse na ONU ou em qualquer outra organização, governamental ou não. Isolamento total e implacável do resto do mundo. 

Parece violento? Parece, sim senhor. Muita da população israelita provavelmente não tem culpa das decisões dos sucessivos governos nacionais. Não tem culpa e não concorda. Nem a população nem os artistas, nem os cientistas, nem os investigadores. Mas alguém vota nas eleições e elege estes terroristas tornando-os terroristas legais. Alguém vai às urnas legitimar um estado racista, xenófobo, violento, prepotente e apostado, pelas últimas notícias, em aumentar decididamente o tom da violência na região. E portanto teria muito pouca ou nenhuma pena da população israelita se o cenário idílico acima descrito se concretizasse de alguma maneira. 

É violento? É. É bastante. Mas não é mais violento do que o que Israel faz à Palestina e, desenganem-se, se acharem que não, ao resto do mundo. É claro, Israel não o faz sozinho e sem aliados de peso. Aliados que, como os putos na escola, têm medo do galifão, têm interesse na «amizade» do boçal e não conseguem nem querem, na verdade, dizer-lhe que não. Eu, que já esgotei toda a paciência e crença numa resolução pacífica para o problema que é Israel – e não o problema Israel-Palestina, como todos lhe chamam – ficaria muito contente por ver o país dos escolhidos por Deus encerrado dentro de quatro paredes, deixado a definhar sozinho, sem amigos, sem ajuda, teimosamente à espera da vinda do Salvador à terra só para perceber que a vinda dele não era a salvação prometida mas sim um tiro de misericórdia que não merece. Israel em chamas provocadas pela ira justiceira do Deus deles. Isso sim seria um sonho tornado realidade. 

quarta-feira, março 04, 2015

UMA HOUSE OF CARDS PELA ESCADA ABAIXO



Parece ser um problema incontornável das séries de televisão, principalmente das made in USA: a dada altura tudo o que foi construído com qualidade, rigor e critério, dispara escada abaixo aos trambolhões e com estrondo. No caso da magnífica House of Cards a queda deu-se à terceira temporada – o que parece dar razão à teoria de um amigo que defende que as duas primeiras temporadas são escritas de uma vez para ver no que dá e que a terceira, em virtude do sucesso das que lhe antecederam, é rabiscada a correr muito para alimentar os fãs sedentos e aproveitar a onda positiva. No caso de House of Cards, no entanto, isso pode não ser verdade, tendo em conta os doze meses de intervalo entre a segunda e a terceira temporadas. e se não for verdade, então o acidente é ainda mais incompreensível.

E não havendo maneira de dizer isto de forma simpática, permitam-me uma introdução suave: House of Cards continua a ser filmada com uma mestria absoluta, bem escrita, interpretada por actores intocáveis no seu trabalho e servida por uma banda sonora arrepiante de boa. O que é que falha? O que não podia de modo algum falhar: o argumento.

A terceira temporada da série apadrinhada por David Fincher é chata, desinteressante e desencantada consigo própria. Não tem energia, não tem ritmo nem dinâmica; perdeu todo o veneno, os jogos de bastidores desceram ao nível do mais simples humano e o suspense morreu. House of Cards é hoje mais previsível que o pior episódio de Anatomia de Grey; é uma série rendida ao mais comum dos clichés, chegando ao ponto de ressuscitar memórias de uma guerra fria que ficou para sempre congelada na era Reagan. O duelo entre presidentes dos EUA e da Rússia, que ocupa nesta terceira temporada um considerável pedaço da intriga, chega a ser ridículo de tão bacoco e bafiento.

Não há como entender o que se passou no curto prazo – na verdade anormalmente longo – que separa o que foi um dos maiores fenómenos da produção televisiva americana deste objecto perfeitamente dispensável. É uma queda brutal e que não deixa antever melhoras breves, especialmente se tivermos em conta que a quarta temporada não foi sequer anunciada ao mundo. Por outro lado, o mesmo já aconteceu com outras séries de igual ou maior valor. Breaking Bad e Sons of Anarchy, só para não me alongar nos exemplos, tiveram temporadas absolutamente aborrecidas e que não pareciam ir a lado nenhum e sobreviveram-lhes, reinventaram-se e voltaram à boa forma inicial. É o que se deseja a House of Cards. Que se esqueça rapidamente do trambolhão ou que se esforce muito por o reconhecer para que o possa usar para se catapultar para uma quarta temporada que nos permita, espectadores atentos, esquecer que houve uma terceira.


sábado, fevereiro 21, 2015

FOXCATCHER - O QUE ESTÁ PARA VIR



Foxcatcher é bom. É um bom filme de um realizador que não filma muito – desde 1998 assinou um documentário, uma curta documental e três longas-metragens – mas que consegue (quase) sempre atrair a atenção de público e crítica. O quase ali em cima refere-se a Moneyball, de 2011, obra muito aclamada mas que foi na verdade um desvio ao que parece ser a real assinatura de Bennett Miller. E que assinatura é esta? É uma de frieza quase clínica, tão evidente em Capote e agora neste Foxcatcher e que faz do seu um cinema de poucas falas, planos gélidos e quase fantasmagóricos, acompanhados por bandas sonoras que pairam sobre as imagens sem as incomodar, quase sem se fazer notar; preenchido por personagens com inúmeras camadas, nem todas evidentes mas quase nunca surpreendentes. O cinema de Miller é, por tudo isto, um caminho certo, com final anunciado, previsto e temido, mortal.

E por isso começo pelo final para dizer que por tudo isto, e ao contrário de tanta gente, não me desiludi com o final de Foxcatcher. Não por ser um espectador visionário, daqueles que pela experiência adquirida é capaz de adivinhar o final de um filme, mas porque Foxcatcher dedica hora e meia a mostrar-nos que aquilo, aquela história, não tem como acabar bem. É uma tragédia inevitável, uma espiral de violência implodida a cada curva e que deixa pelo caminho um rasto claro do que está para vir.

Este cinema, o de Bennett Miller, é construído de maneira a que todos os seus elementos nos conduzam para um mesmo fim. Como já referi anteriormente, o ambiente, a imagem e o som dos seus filmes trabalham em conjunto, são um só veículo em velocidade controlada, muito controlada, com um destino marcado e hora de chegada cumprida à risca. E é neste veículo que entram os actores – em Foxcatcher como em Capote, de 2005 – cumprindo escrupulosamente as regras do jogo, que existem, novamente, para que o seu propósito seja consumado.

Neste ponto não posso deixar de destacar a tremenda injustiça que tem sido todo o falatório em torno do desempenho de Mark Ruffalo e Steve Carrell – especialmente deste último – e o esquecimento claramente propositado de Channing Tatum, inquestionavelmente o melhor de tudo o que há de bom no filme. Tatum é magistral no desenho que faz de um homem também ele em constante implosão, em permanente contenção; um tímido bruto, uma infantil máquina de força dentro do corpo de um gigante com vergonha de abrir os braços ou de dar passadas mais largas. Tatum carrega o filme às costas porque é a sua personagem que carrega a tragédia anunciada às suas e é, mais uma vez e sempre, grandioso. É uma das interpretações do ano. Maior e melhor, desde logo, que a do seu colega, Carrell, que consegue a nomeação ao Óscar simplesmente porque a Academia adora uma boa transformação física. Transformação física que não foi capaz de detectar no corpo de Channing Tatum, essa sim realmente impressionante e que não necessitou de tanta prostética. Sem meias palavras: Tatum merecia a nomeação e concorria directamente contra Michael Keaton pelo boneco dourado.

Foxcatcher é bom. É um bom filme de um realizador que não filma muito mas que quando o faz, faz bem. E que leva o tempo que acha necessário para construir a sua carreira, da mesma forma que leva o tempo que considera útil para contar as histórias que lhe interessam. Este filme, espera-se, é o retomar do caminho começado em Capote e que sofreu um desvio tão esquecível como, percebemos agora, insignificante. Esperemos (ansiosamente) pelo próximo trabalho para perceber afinal para onde caminha Bennett Miller.


terça-feira, fevereiro 17, 2015

BIRDMAN ou A VIRTUDE



Directamente ao argumento que vai encerrar este texto: o meu filme de 2014 é The Grand Budapest Hotel mas Birdman or the Unexpected Virtue of Ignorance merece todos os principais Ócares para que está nomeado. E à falta de uma ordem lógica para começar a escrever sobre a última obra de Alejandro González Iñárritu, aproveito esta certeza para melhor a abordar:

Melhor filme do ano (apesar da minha preferência) indiscutivelmente.

Melhor actor do ano para um Michael Keaton absolutamente arrasador.

Melhor actor secundário para Edward Norton que perde a estatueta para J. K. Simmons por uma série de razões que nada têm a ver com o trabalho dos dois actores.

Melhor actriz secundária porque, apesar de não conhecer o desempenho das restantes nomeadas, tenho a certeza de que Emma Stone merece tudo o que dela tem sido dito.

Melhor argumento original porque um argumento é uma boa história mas é, acima de tudo, um texto bem escrito, com falas e diálogos que nos ficam na cabeça e que são o princípio base do trabalho dos actores.

Melhor cinematografia porque é a melhor câmara dos últimos anos.

Melhor realizador porque é de Alejandro González Iñárritu que estamos a falar.

Birdman é um daqueles filmes que nos agarram pelos colarinhos ao primeiro segundo de projecção e que só nos largam alguns dias depois de o termos visto. Um daqueles filmes que apetece rever assim que termina. Um filme que surpreende apenas quem não conhecia a carreira do seu realizador e que é, assim, abençoado com a virtude da ignorância que está no título, apetece-me, por isso mesmo.

Birdman é perfeito, obra de um homem que tem conseguido afirmar um trabalho de autor que não cedeu, para já, à grande indústria mas que anda ao lado dela num corredor-caminho bem mais interessante. Iñárritu é um cineasta único, com um universo único, com um olhar único sobre o mundo e os seus e que inova a cada obra que constrói. Inova na técnica, nas histórias, no trabalho de actor e na câmara que os filma. É um autor, criador, inventor de cinema como não há muitos por aí.

A máxima injustiça de 2011 que foi Biutiful não ter ganho tudo o que havia para ganhar – e quase nas mesmas categorias – é uma daquelas que mancham mais um bocadinho a longa lista de atropelos made in Hollywood. Se 2015 seguir pelo mesmo caminho, Alejandro González Iñárritu junta-se já, e apenas com quatro longas-metragens no currículo, ao rol de ilustres realizadores esquecidos pela academia.

E nada mais a dizer em relação a Birdman. A não ser que é o mais entusiasmante, original, arriscado, criativo e delirante filme de 2014. The Grand Budapest Hotel é o meu filme preferido de 2014, mas se Birdman o vencer em todas as frentes, nessa noite dormirei mais descansado sabendo que se fez justiça.