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Bom Karma... ou não!

terça-feira, Novembro 18, 2014

QUASE JORNALISMO



Já há muito que a andava a desesperar com a qualidade do nosso jornalismo, nomeadamente com a qualidade da escrita e com as inúmeras gralhas e erros gramaticais impressos nos jornais portugueses. Hoje foi a gota de água. O título de uma notícia do Jornal de Notícias informa-nos de que o Estado Islâmico já matou quase 1500 pessoas. E muito bem. Muito bem, a escrita do título, português imaculado, informação correctamente transmitida, não muito bem o EI ter assassinado quase 1500 pessoas, isso é errado. A notícia, no entanto, arranca logo com uma daquelas caneladas com direito a cartão amarelo a fugir para o alaranjado ao informar-nos de que afinal o EI já matou quase 1429 pessoas.

Ora bem, não se matam quase 1429 pessoas. É impossível matar quase 1429 pessoas, por muito que uma ou outra fiquem mais mortas do que vivas, não se matam quase 1429 pessoas  por muito que se percam as esperanças na saúde de um ou outro que sobreviveu, não se matam quase 1429 pessoas a não ser que se tenham matado 1428, e isso de facto são quase 1429 infelizes que viram as suas vidinhas a andar para trás às mãos dos radicais islâmicos.

Contudo, há uma regra qualquer que se aprende no curso do jornalismo acerca de como utilizar estas expressões numéricas numa notícia. O arredondamento aceita-se, por exemplo, no caso das quase 1500 pessoas – pese embora me pareça que 71 pessoas sejam demasiadas para se poder arredondar os defuntos para 1500. Não se aceita, nem se justifica de maneira nenhuma, quando se utiliza um número certo. 1429 pessoas é um número certíssimo e que dispensa, portanto, o uso da palavra quase, porque… já perceberam, não já?

Erros destes e piores são norma no jornalismo escrito que nos vem parar às mãos diariamente. É mau o português, é deficiente o uso da linguagem e das regras gramaticais, são mal escritas as notícias, os artigos de opinião e as crónicas, que perderam redatores de peso para ganharem famosos que sabem suficientemente escrever em português. Que deve ser mais ou menos a única exigência também para se ser revisor em Portugal. É português? Está contratado, não se fala mais nisso. Embora eu acredite, na verdade e infelizmente, que os revisores na imprensa escrita são uma espécie em vias rápidas de extinção. O que será grave.

E é ainda pior do que parece. Num país em que há quem acredite que os pinguins vivem na Amazónia, que a primeira letra da palavra Hugo é a letra grande e em que ministros aparentemente compram os seus cursos superiores, seria mesmo importante ter uma imprensa que informe mas também que ensine a ler. A ler em português correcto. E isso começa na formação, como não podia deixar de ser. Ensinar um futuro jornalista a escrever é da mais fundamental relevância. Ensinar-lhe as regras jornalísticas também, claro, mas de que nos servem as regras se não perceberem o que estão a querer dizer? Se perceberem quase o que querem dizer, se souberem quase como o querem fazer?

Um quase jornalismo é tanto jornalismo como uma quase medicina é medicina ou como um quase engenheiro é engenheiro de facto. E não basta um diploma para se ser profissional seja do que for. A bagagem deve ser maior e mais completa e complementar e deve ser transmissível a quem quizer aprender. Neste caso, o jornalismo informa quem quer ser informado. Fazê-lo correctamente, sem quases, é absolutamente imperativo.

quarta-feira, Novembro 12, 2014

OLHA UMA MOEDINHA, FACHABOR...




Acho muito bem! Grande decisão, a do Costa, de cobrar um eurito a quem quiser entrar no seu feudo, sim senhor que é de homem com os colhões (que é como se diz cá no Porto) de aço bem polido, brilhante e garboso. É assim mesmo, ó Costa, se agora os farsolas quiserem entrar aí têm de pagar a respectiva taxa que é para não pensarem que a Lisboa é de todos, que é fácil, que se abre a qualquer um. Não senhor, agora têm de pagar e é se querem. Não pagam para entrar num parque de diversões, nos aquaparques dos parolos no Algarve e ainda em alguns bares? Pois então, pagam para entrar na cidade do Costa que não é nenhum menino e sabe o que faz com a sua cidade, sua e dos seus que o elegeram e esses não pagam, pois tá claro, como podiam pagar se é lá que moram? Não há cá pão pra malucos (é assim que se diz no Porto). 

Sim senhor, ó Costa, quiseste fazer como as grandes cidades da Europa que também cobram a quem lá quiser entrar e elevar o teu feudo à qualidade de grande também e como não havia outra maneira não foste de modas e toma lá morangos (diz-se assim no Porto, não sei se aí em baixo também se diz) que isto é pra quem pode, não é pra quem quer. Acho muito bem que alguém que manda na Lisboa, como o Costa, pense nós não queremos nem precisamos aqui de tanta gentinha e não perca muito tempo a ter uma ideia de génio, regressar à idade média de que tantos sentem a falta e comece a cobrar entradas a torto e direito, que Lisboa não é pra todos. 

Até podias fazer uma coisa que era bem engraçada, ó Costa, e de que eu me lembro com saudade: podias fazer como no Jardim Zoológico de Lisboa (nem de propósito) quando eu era pequenino e tirar fotografias às pessoas que entram em Lisboa. No fim da viagem, à saída, vendias-lhes a fotografia e ainda fazias uns trocos, que isto hoje em dia toda a gente quer ter uma recordação das férias para pôr no Face eu na Portela, eu na portagem, essas merdas. Não sejas morcão (já sabes que é assim que se diz no Porto) Costa, vai por mim e não pares pela taxa. Se a taxa é turismo então pensa em todas as possibilidades que isso te pode trazer de fazer mais algum. Podes vender balões com a forma dos Jerónimos nas portagens da ponte 25 de Abril, nossas senhoras fluorescentes a quem chega nos cruzeiros e galos de Barcelos daqueles que mudam de cor para anunciar chuva aos que vão no pendular. 

Já viste, Costa, podes fazer tanto guito (como se diz no Porto) com os papalvos que por alguma razão querem ir à Lisboa e ficas-te pela taxa? Tem juízo nessa moleirinha (também se diz assim, no Porto). Olha, pela parte que me toca, vou pensar seriamente nessa estratégia e aconselhar aqui o Porto, a cidade onde moro e onde podes vir de borla (e tu podes mesmo vir de borla) a seguir o teu exemplo, campeão (não perguntes, é uma coisa que se diz no Porto). Não a cobrar um euro a quem cá entra mas a cobrar dois euros a todos os lisboetas que quiserem cá comer francesinhas. Porquê dois euros, Costa? Eu explico. É que o teu vice, o Fernando Medina, disse que esta taxa equivale a, e passo a citar, «pouco mais de um café diário» e cá no Porto o café (que é um bem de primeira necessidade) na maioria esmagadora dos sítios não custa mais de 60, 65 cêntimos, havendo ainda quem, imagina, Costa, cobre apenas 50 cêntimos. Ou seja, claramente o nível de vida aí na Lisboa é bem superior ao nosso e se um café vos custa sem esforço um eurito, acho justo que vocês paguem mais para comer uma francesinha do que nós para irmos à Lisboa. 

Ainda por cima porque o que vocês têm por aí também nós temos por cá, sendo que nós temos boas francesinhas e vocês… bem, vocês orgulham-se da sardinha assada e dos caracóis, mas se são esses os vossos ex libris gastronómicos então só posso concluir que todas as vilazinhas piscatórias deste nosso Portugal vão passar a cobrar uma fortuna para lá entrarmos. Espero que não, ó Costa, que a tua ideia é incrível e não gostava nada que alguém se aproveitasse dela para sacar umas coroas à má fila (é uma expressão de cá de cima, Costa) e sem nenhuma justificação por mais ilógica que fosse. Abraço, Costa!

quinta-feira, Novembro 06, 2014

A MORTE CEREBRAL DE UM SER FALANTE



Ouvi ainda há pouco as dissertações de Isabel Stilwell relativamente à eutanásia e à morte assistida. Não tenho nada a dizer a quem seja contra. Desde logo porque de todos os assuntos fracturantes este é, sem dúvida, o mais difícil de abordar. Ninguém que não tenha passado por uma situação como a que levou Britanny Maynard a marcar o dia da sua morte pode, em absoluta justiça, dizer seja o que for sobre a sua decisão. E foi precisamente a partir da morte da jovem americana que Stilwell puxou o assunto para o discutir com Eduardo Sá no seu programa Os Dias do Avesso, na Antena 1. E sem sequer se preocupar em demonstrar todo o seu repúdio pela sua decisão e o desprezo pelo seu carácter, ao começar o discurso falando de Maynard como «aquela rapariga». 

E repito, não tenho nada contra quem é contra. Tenho, isso sim, e muito, contra argumentos como os que aquela mulher que fala na rádio apresenta. Aquela mulher que fala na rádio acha que a eutanásia é uma decisão egoísta que não respeita nem se preocupa com quem cá fica. Aquela mulher acredita que Britanny Maynard (e outros na sua situação) devia ter optado por se encharcar de medicamentos que lhe atenuassem as dores e lhe dessem um resto de vida «digno». A mesma mulher acha que era preferível a americana ter esperado mais uma semana na esperança de que uma cura milagrosa (para um cancro terminal no cérebro) surgisse. Não há muitas maneiras de dizer isto, mas vou optar pela mais suave: aquela mulher que fala na rádio e escreve crónicas e livros tem o cérebro em pior estado do que o de Britanny Maynard. Em pior estado e substancialmente mais pequeno do que o cérebro de um adulto normal. 

Aquela mulher que fala na rádio tem a liberdade concedida de dizer ao mundo o que lhe passa pelo seu cérebro diminuto. É-lhe dado tempo de antena para, no que muitos consideram função pública, discutir assuntos que em princípio interessam à maioria do seu público. É este o jogo e é com isto que temos inevitavelmente de levar. São estes os nossos pensadores/comunicadores, que nos entram pela casa pela televisão, jornais e rádio e que nos dão a conhecer o que lhes vai lá dentro. Mais uma vez, nada contra eles, só contra argumentos que já não são deste século e que são bem mais perigosos do que se pode à partida pensar. 

sábado, Novembro 01, 2014

O SARAIVA É MAIS FELIZ?



A única coisa que verdadeiramente me espanta na mais recente crónica do José António Saraiva é esta não ser tão estúpida quanto muitas outras que ele já escreveu. É estúpida, é sim senhor. É produto de uma cabeça estúpida, retrógrada, cujo raciocínio congelou lá para os lados do século XIX, é sim senhor. O autor da dita crónica é estúpido? Pois não posso afirmar uma coisa dessas sem ter a certeza absoluta, mas lá que parece estúpido, parece.

E então, as mulheres são mais felizes hoje ou não? É que é esta a pergunta que José António Saraiva começa por lançar no título da sua crónica e que repete algures lá mais para o final do texto e a que eu respondo com um sonoro quero lá saber! Estou-me nas tintas para se as mulheres são mais felizes hoje ou se eram mais felizes quando tinham de pedir autorização ao marido para sair do país. Não quero mesmo nada saber se preferiam ser donas de casa ou presidentes de uma multinacional; se se sentiam mais realizadas a limpar merda, mijo e vomitado dos filhos ou se ficam mais felizes a dirigir um 737 com destino ao Rio. Nada disto me interessa em relação às mulheres como não me interessa em relação aos homens, e no que diz respeito à igualdade de direitos de uns e outros, esta crónica encerra nesta linha o assunto.

Interessa-me que essa igualdade seja hoje bem mais equilibrada do que era há 30 anos? Certamente. Fico contente que as coisas tenham mudado significativamente? Com certeza. Há coisas que ainda não estão bem no que a oportunidades dizem respeito? Obviamente. E dou todo o meu apoio à luta, só peço é que não me venham moer o juízo com discursozinhos das desgraçadinhas pisadas pelo pé gordo da opressão machista.

Não tenho pachorra para isso como não tenho pachorra para este discurso disfarçadamente (mal disfarçado) não machista de quem está tão preocupado com a saúde social das mulheres e com o desequilíbrio de uma sociedade que não estava preparada para a revolução do sexo feminino - como era impossível estar, como é impossível que qualquer sociedade descomunalmente desiquilibrada esteja preparada para o equilíbrio - e que não consegue esconder que o que realmente o incomoda é já não ter a roupa passada a ferro, o jantar cozinhado e a casa limpa quando regressa do trabalho. Ou melhor, se calhar até tem, mas por outra mulher que não a sua e a quem tem de pagar uma espécie de ordenado.

O Saraiva pode até nem ser estúpido, mas que é pessoa de mente reduzida, lá isso é. A ver se nos entendemos: quando as mulheres começam a sair de casa para irem trabalhar, todo este equilíbrio naturalmente desaba precisamente porque os homens não sabiam o que fazer dentro de casa. A culpa é dos homens. A casa fica vazia durante o dia inteiro e há tarefas que não se executam porque os homens não fazem a mínima ideia de como fazê-las. A culpa é dos homens.

Passam a preocupar-se muitas vezes mais com as carreiras do que com a família, começam a ter filhos mais tarde e têm menos filhos. Os filhos beneficiam menos da presença das mães. As mulheres conversam mais tempo com alguns colegas do que com os maridos, criando relações de cumplicidade. A família relativiza-se, passa a segundo plano. Os adultérios, concretizados ou apenas idealizados, tornam-se mais frequentes. Isto é tão estupidamente preconceituoso e desinformado que nem merece comentário...

E daqui até ao final da crónica a estupidez não cessa nem reduz de intensidade. O Saraiva é realmente estúpido (retiro o que disse no primeiro parágrafo) e gosta disso. Tem orgulho nisso. Tem tanto orgulho em ser estúpido como tem uma ferida no orgulho por as coisas já não serem como antigamente. E portanto a pergunta devia ser E o Saraiva, é mais feliz? Honestamente acho que não. A dizer pelas barbaridades típicas de um machista, racista, xenófobo, homofóbico que o Saraiva imprime ao jornal que dirige, concluo que não.

Eu sei que sou mais feliz quando não tenho de levar com comentários do género os homens são todos iguais ou quando não tenho de ouvir uma mulher vangloriar-se de como consegue tão facilmente dar a volta a um homem sem que este, pobre coitado, pobre idiota, se aperceba do nó que acabaram de lhe dar à cabeça. Se eu passar sem ouvir barbaridades destas, tão estúpidas como a crónica do José António Saraiva, sou muito mais feliz e sinto muito menos vontade de, por oposição a elas e só para chatear, escrever ou dizer coisas do género das que escreve o Saraiva.

Se as mulheres são mais felizes? Não podia querer saber menos disso. Se as pessoas são felizes sem a estupidez umas das outras? Sem dúvida. E é aí que começa a verdadeira igualdade entre todos, mesmo entre os que não querem, como o Saraiva… e algumas mulheres.

quinta-feira, Outubro 30, 2014

TEATRO EXPANDIDO (COM O RABO DE FORA)



É com alegria que vejo o Campo Alegre habitado por novos inquilinos. Um espaço daquela qualidade, mesmo que deslocalizado do epicentro da energia da cidade, merecia vida, merecia acontecimento, merecia sangue novo a correr-lhe pelos corredores. É com alegria, portanto, que vejo o TEP, a Companhia Radar 360º, o NEC, a Erva Daninha e o Teatro Expandido… Teatro Expandido? Pausa na crónica para investigação rápida nos meios tecnológicos ao dispor. Quem É o Teatro Expandido? Já volto…

Acreditem ou não, fui mesmo investigar o Teatro Expandido e descobri que… não existe. Ou melhor, não existe grande coisa acerca de. Ou por outra, não há notícias relativas a alguma actividade do Teatro Expandido a não ser aquela que vai passar a desenvolver no TCA. Ou seja, as únicas notícias com o nome do Teatro Expandido são as que dão conta da sua nova habitação, o TCA, e de um grupo no Brasil que terá inventado o conceito de teatro expandido, ou algo do género. Isto é, existe de facto um nome associado ao Teatro Expandido que esse sim apresenta alguma relevância e que é o de João Sousa Cardoso, um rapaz com página na Wikipedia e tudo. Nessa página rapidamente ficamos a saber que o João Sousa Cardoso está principalmente ligado ao cinema, tendo também passado pelo teatro, pela performance e pelas exposições. João Sousa Cardoso tem, diga-se de passagem, um CV bastante interessante.

Na página da Wikipedia de João Sousa Cardoso não existe, no entanto, qualquer referência ao projecto (seu projecto, ao que tudo indica) Teatro Expandido. O que é uma pena, porque não há como não querer saber quem é o Teatro Expandido e porque merece honras de inquilino do renovado (filosoficamente falando, claro) Teatro Municipal Campo Alegre. Não há como querer saber porque foi esta companhia considerada como uma das importantes do Porto ­­­– palavras do director do Teatro Municipal do Porto.  

O que leva a questionar: quem é João Sousa Cardoso? É realizador do filme Santa Joana dos Matadouros, uma produção que tem sido publicamente e fortemente apoiada por Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara do Porto. E mais? E mais nada. Ou melhor, e como já disse, João Sousa Cardoso é de facto senhor de um currículo bastante diversificado e interessante. Mas isso chega para que um projecto seu, que não existe a não ser nas notícias que dão conta pela primeira vez da sua existência, ocupe um espaço privilegiado num equipamento cultural do Porto? Porquê o Teatro Expandido numa cidade em que há tantas companhias que não têm sequer um escritório, quanto mais um espaço de ensaio e de construção de projectos?

Volto ao início para reforçar o quanto fico satisfeito com a nova vida do Teatro Municipal Campo Alegre. Como fico satisfeito com a mudança de atitude deste executivo camarário e em especial com o comportamento de Tiago Guedes, director do Teatro Municipal do Porto. Contudo, e isto é algo que deve estar bem presente nas cabeças de quem agora decide a cultura na cidade, o povo não dorme em serviço e está bem atento ao que lhe querem empurrar pela goela abaixo ­– em especial depois de toda a novela La Féria. Situações menos claras são o que menos se deseja numa altura em que há um nítido esforço para mudar a política cultural do município; numa altura em que a mudança de filosofia começa já a fazer-se sentir na cidade e nas pessoas; numa altura em que muitos rascunham já um balanço positivo (e justo) da vereação da cultura e da direcção artística do Rivoli e do Campo Alegre.

As coisas têm a importância que têm, nem mais nem menos. E a frase que acabei de escrever vale o que vale. E não há nada como realmente. Isto tudo para não dizer nada de jeito mas para dizer que tudo isto em torno do Teatro Expandido pode na verdade ser só um medo irracional de velhos hábitos que nunca morrem realmente. Pode sim, é verdade. Mas também pode mesmo ser um velho hábito que não morre nunca e isso seria uma tremenda chatice. 

Tenho uma gata que adora brincar com o seu próprio cocó. Ele rebola e salta e isso, como é sabido, é demasiado irresistível para um gato. Volta e meia, há um leve odor a cocó de gato debaixo de um sofá ou de uma mesa. A dúvida não dura mais do que uns segundos: arrasta-se o sofá e lá está ele, o pedacinho de cocó seco que foi ali parar por ter sido bola de futebol. Os gatos, como se sabe também, bem podemos barafustar com eles e tentar provar-lhes que aquilo de brincar com cocós secos é errado e uma tremenda porcaria, mas a verdade é que nunca vão aprender e esse hábito não vão perder. Lixa-se quem mora cá em casa, que de vez em quando tem de levar com um leve odor a cocó escondido. 

quarta-feira, Outubro 29, 2014

HOMELAND: A MORTE DO ARTISTA



Homeland faz parte da história da televisão americana e é, ao mesmo tempo, a mais fiel representação da história das séries de televisão americanas. E uma história que se conta a correr: primeira e segunda temporadas totalmente obrigatórias, incontornáveis e provavelmente o melhor que alguma vez foi escrito para televisão. Terceira temporada rapidamente a resvalar para uma pasta lodosa e inconsequente em que nada avançava, nada se passava e em que quase nada interessava. Durou esta modorra até ao episódio final que deveria ter realmente sido o fim da série, por muito que isso custasse aos seus indefectíveis seguidores. Não foi. E assim chegamos à quarta temporada, que nunca deveria ter existido e que só serve para nos provar que a terceira era de facto o ponto final na história daquelas personagens e que tudo o que viesse a seguir era a mais. 

A quarta temporada de Homeland é na verdade a primeira de outra série qualquer. De uma série em que espiões americanos e paquistaneses fazem joguinhos de poder atrás de janelas entreabertas, em mesas de café fumarentos e em hotéis de luxo colonialista. É uma série desinteressante, gasta, mastigada e cuspida e mastigada novamente, vista e revista em dezenas de outras séries e filmes de Hollywood. Não tem assunto, não tem foco, não tem objectivo e não tem personagens, porque estas, desta série, tinham utilidade e objectivo numa outra, anterior a esta e que as alimentava com um sem número de situações e de relações que nos mantinham agarrados ao ecrã e ao sofá. Esta não tem nada disso e é só um enorme bocejo em que já nada faz sentido. 

A metáfora é tão fácil que até custa escrevê-la: Homeland morreu com o sargento Nicholas Brody pendurado pelo pescoço num guindaste no último episódio da terceira temporada. E deveria ter ficado morta. Recuperá-la para isto é o mesmo que ressuscitar um velho amigo do mundo dos mortos e tê-lo lá em casa sentado no sofá a encher tudo de baba e outros fluidos típicos dos mortos-vivos, sem se fazer útil, sem servir para nada, nem para um inocente jogo de sueca. Um desperdício.

terça-feira, Outubro 28, 2014

A PUNHETA



Sempre admirei Pier Paolo Pasolini. Não gosto de nenhum filme seu e o teatro que escreveu não me provoca overdoses de vontade de o ir a correr encenar. Esclarecida que está a minha posição relativamente ao artista italiano, apetece-me dizer o seguinte: espero sinceramente que Jorge Louraço Figueira estivesse bêbedo (ou que tenha um retorcido humor nórdico) no momento em que apelidou John Romão de “o representante de Pasolini na terra”. Eu, que não estou morto, dei trambolhões dentro do meu caixão, pelo que só posso imaginar que o falecido PPP, depois de ter andado às cabeçadas às tábuas do seu invólucro, encontrou forma de sair de lá de dentro e se encontra já a caminho do Porto para uma pequena conversa com o escritor/jornalista/cronista/crítico do Público.

A crónica/crítica/peça precisamente intitulada (lá está) O representante de Pasolini na terra, escrita por Louraço no Público do passado dia 27 e em que o autor discorre acerca de Teorema, o novo espectáculo daquele encenador português, é um bom exemplo da dupla-dupla punheta, uma práctica muito corrente entre críticos e encenadores deste país e que há anos é o miolo da relação da imprensa portuguesa com as suas artes performativas.

Passo a explicar: a primeira punheta é o espectáculo levado a cena por um determinado criador e que mais não é do que uma masturbação egoísta e solitária de um grau de intelectualísse insuportável. Punheta número um.

Punheta número dois, o texto que lhe é dedicado por um jornalista embevecido e deslumbrado, ajoelhado perante o trabalho inalcançável pelo comum dos mortais, com acesso exclusivo a quem tiver cartão do clube dos hipsters da intelligentsia do lobby da teatrice burgueso-lisboeta. Punheta número dois, portanto.

Punheta número três, o acto isolado de quem, como Jorge Louraço, escreve uma crítica enquanto sonha com uma carreira literária de sucesso e cantarola baixinho o I’m a lumberjack and I’m ok dos Monty Python.

É esta a nata da crítica de teatro em Portugal. Indivíduos que escolhem o que querem ver, sobre o que querem falar, que assumidamente dizem não a uma série de espectáculos, encenadores, companhias e festivais de teatro e gritam sim a uns quantos eleitos; que assim almejam atingir um estatuto de exclusividade de estrela da crítica, que querem ser temidos, que querem entrar no foyer do Rivoli e ouvir o seu nome repetido centenas de vezes em sussurro por quem os reconhece e a quem é melhor fazer todas as vontades na esperança de que possam descer à terra e assistir a um ensaiozito de dez minutos e escarrar umas quantas postas da mais fina literatura nas páginas dos jornais mais respeitados. São estes os nossos críticos de teatro, indivíduos que queriam muito era ter uma carreira na literatura, venderem milhares de cópias e serem chamados para conferências pelo mundo fora.

São estes os punheteiros da crítica em Portugal, o par perfeito para todos os punheteiros do teatro português. É este o casamento de capa de revista cor-de-rosa que alimenta o teatro e as artes performativas de um país que do que menos precisava era destes ecossistemas fedorentos. O espectáculo de John Romão? Permitam-me recorrer ao português mais curto e assertivo para vos falar dele: o espectáculo de John Romão é uma bela merda!