kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

sábado, fevereiro 21, 2015

FOXCATCHER - O QUE ESTÁ PARA VIR



Foxcatcher é bom. É um bom filme de um realizador que não filma muito – desde 1998 assinou um documentário, uma curta documental e três longas-metragens – mas que consegue (quase) sempre atrair a atenção de público e crítica. O quase ali em cima refere-se a Moneyball, de 2011, obra muito aclamada mas que foi na verdade um desvio ao que parece ser a real assinatura de Bennett Miller. E que assinatura é esta? É uma de frieza quase clínica, tão evidente em Capote e agora neste Foxcatcher e que faz do seu um cinema de poucas falas, planos gélidos e quase fantasmagóricos, acompanhados por bandas sonoras que pairam sobre as imagens sem as incomodar, quase sem se fazer notar; preenchido por personagens com inúmeras camadas, nem todas evidentes mas quase nunca surpreendentes. O cinema de Miller é, por tudo isto, um caminho certo, com final anunciado, previsto e temido, mortal.

E por isso começo pelo final para dizer que por tudo isto, e ao contrário de tanta gente, não me desiludi com o final de Foxcatcher. Não por ser um espectador visionário, daqueles que pela experiência adquirida é capaz de adivinhar o final de um filme, mas porque Foxcatcher dedica hora e meia a mostrar-nos que aquilo, aquela história, não tem como acabar bem. É uma tragédia inevitável, uma espiral de violência implodida a cada curva e que deixa pelo caminho um rasto claro do que está para vir.

Este cinema, o de Bennett Miller, é construído de maneira a que todos os seus elementos nos conduzam para um mesmo fim. Como já referi anteriormente, o ambiente, a imagem e o som dos seus filmes trabalham em conjunto, são um só veículo em velocidade controlada, muito controlada, com um destino marcado e hora de chegada cumprida à risca. E é neste veículo que entram os actores – em Foxcatcher como em Capote, de 2005 – cumprindo escrupulosamente as regras do jogo, que existem, novamente, para que o seu propósito seja consumado.

Neste ponto não posso deixar de destacar a tremenda injustiça que tem sido todo o falatório em torno do desempenho de Mark Ruffalo e Steve Carrell – especialmente deste último – e o esquecimento claramente propositado de Channing Tatum, inquestionavelmente o melhor de tudo o que há de bom no filme. Tatum é magistral no desenho que faz de um homem também ele em constante implosão, em permanente contenção; um tímido bruto, uma infantil máquina de força dentro do corpo de um gigante com vergonha de abrir os braços ou de dar passadas mais largas. Tatum carrega o filme às costas porque é a sua personagem que carrega a tragédia anunciada às suas e é, mais uma vez e sempre, grandioso. É uma das interpretações do ano. Maior e melhor, desde logo, que a do seu colega, Carrell, que consegue a nomeação ao Óscar simplesmente porque a Academia adora uma boa transformação física. Transformação física que não foi capaz de detectar no corpo de Channing Tatum, essa sim realmente impressionante e que não necessitou de tanta prostética. Sem meias palavras: Tatum merecia a nomeação e concorria directamente contra Michael Keaton pelo boneco dourado.

Foxcatcher é bom. É um bom filme de um realizador que não filma muito mas que quando o faz, faz bem. E que leva o tempo que acha necessário para construir a sua carreira, da mesma forma que leva o tempo que considera útil para contar as histórias que lhe interessam. Este filme, espera-se, é o retomar do caminho começado em Capote e que sofreu um desvio tão esquecível como, percebemos agora, insignificante. Esperemos (ansiosamente) pelo próximo trabalho para perceber afinal para onde caminha Bennett Miller.


terça-feira, fevereiro 17, 2015

BIRDMAN ou A VIRTUDE



Directamente ao argumento que vai encerrar este texto: o meu filme de 2014 é The Grand Budapest Hotel mas Birdman or the Unexpected Virtue of Ignorance merece todos os principais Ócares para que está nomeado. E à falta de uma ordem lógica para começar a escrever sobre a última obra de Alejandro González Iñárritu, aproveito esta certeza para melhor a abordar:

Melhor filme do ano (apesar da minha preferência) indiscutivelmente.

Melhor actor do ano para um Michael Keaton absolutamente arrasador.

Melhor actor secundário para Edward Norton que perde a estatueta para J. K. Simmons por uma série de razões que nada têm a ver com o trabalho dos dois actores.

Melhor actriz secundária porque, apesar de não conhecer o desempenho das restantes nomeadas, tenho a certeza de que Emma Stone merece tudo o que dela tem sido dito.

Melhor argumento original porque um argumento é uma boa história mas é, acima de tudo, um texto bem escrito, com falas e diálogos que nos ficam na cabeça e que são o princípio base do trabalho dos actores.

Melhor cinematografia porque é a melhor câmara dos últimos anos.

Melhor realizador porque é de Alejandro González Iñárritu que estamos a falar.

Birdman é um daqueles filmes que nos agarram pelos colarinhos ao primeiro segundo de projecção e que só nos largam alguns dias depois de o termos visto. Um daqueles filmes que apetece rever assim que termina. Um filme que surpreende apenas quem não conhecia a carreira do seu realizador e que é, assim, abençoado com a virtude da ignorância que está no título, apetece-me, por isso mesmo.

Birdman é perfeito, obra de um homem que tem conseguido afirmar um trabalho de autor que não cedeu, para já, à grande indústria mas que anda ao lado dela num corredor-caminho bem mais interessante. Iñárritu é um cineasta único, com um universo único, com um olhar único sobre o mundo e os seus e que inova a cada obra que constrói. Inova na técnica, nas histórias, no trabalho de actor e na câmara que os filma. É um autor, criador, inventor de cinema como não há muitos por aí.

A máxima injustiça de 2011 que foi Biutiful não ter ganho tudo o que havia para ganhar – e quase nas mesmas categorias – é uma daquelas que mancham mais um bocadinho a longa lista de atropelos made in Hollywood. Se 2015 seguir pelo mesmo caminho, Alejandro González Iñárritu junta-se já, e apenas com quatro longas-metragens no currículo, ao rol de ilustres realizadores esquecidos pela academia.

E nada mais a dizer em relação a Birdman. A não ser que é o mais entusiasmante, original, arriscado, criativo e delirante filme de 2014. The Grand Budapest Hotel é o meu filme preferido de 2014, mas se Birdman o vencer em todas as frentes, nessa noite dormirei mais descansado sabendo que se fez justiça.




sexta-feira, fevereiro 13, 2015

WHIPLASH: O HYPE É UMA CENA LIXADA



O argumento de Whiplash:
Acto 1
– Eu quero ser o melhor baterista da história!
– Eu sou o tipo certo para te ajudar nisso. Mas olha que vai ser lixado, que eu sou um psicopata do pior.
– Na boa, eu aguento.
– Depois não digas que não avisei…

Acto 2
– Afinal és psicopata de mais e eu, que afinal também sou psicopata, não aguento mais esta brincadeira.
– Eu avisei.
– Pois avisaste, mas ainda assim, arranjei maneira de te dar cabo da vida, meu menino. E agora vou desistir da bateria, pronto.

Acto 3
(Reencontro num bar)
– Então e essa vida?
– Olha, fui despedido por ser psicopata.
– Não me digas!?
– É verdade, mas não faz mal, a culpa é dos outros que não perceberam esta mensagem que te vou dizer agora para tu perceberes e me ajudares a dar um fim digno a esta história.

Acto 4
Fim digno da história.

Este é o argumento de Whiplash, o filme que tem prometido mundos e fundos e que na verdade não passa de uma obra vulgar.

Whiplash é o enésimo representante desse subgénero clássico do cinema americano que é o filme de escola e/ou academia militar, dedicado à vontade de ser o melhor, de superar todas as dificuldades e de se superar a sim mesmo, às hierarquias, ao abuso de poder que realmente é uma ajuda para chegar mais longe e à amizade e ao respeito improváveis que surgem das relações complicadas entre líder/professor e aluno/instruendo e o que tudo isto representa na sociedade americana. Já vimos isto tantas vezes e tantas vezes mais bem feito, que não conseguimos deixar de olhar com desconfiança para os epítetos de originalidade e frescura que tanta gente tem tentado colar ao filme de Damien Chazelle.

Whiplash, esse nomeado a melhor filme do ano, é o esticar de uma corda curta que servia (como serviu) para uma curta-metragem. Fazer um filme de uma hora e quarenta com uma história tão escassa é um encurtar de caminho aos encontrões, com pouca informação, personagens redondos – e também já vistos e revistos – e que, por essa mesma razão, escalam de uma forma muitas vezes exagerada – a mudança de comportamento de Andrew (Miles Teller), por exemplo, surge do nada, sem que nenhuma pista acerca da sua loucura obsessiva nos tivesse sido previamente apresentada.
Ou seja, não se compreende a nomeação para melhor argumento adaptado do ano. Porque não é um grande argumento (na qualidade e na dimensão), porque não é um texto particularmente brilhante e porque é um aglomerado de personagens chavão, tiradas mastigadas e situações cliché, mais uma vez, vistas e revistas em centenas de outros filmes.

Mas depois há J. K. Simmons. E sobre ele tudo o que foi dito foi bem dito. É um dos melhores segundas linhas que por aí tem andado e o facto de só agora ter esta dose de reconhecimento é uma daquelas injustiças que não tem grande explicação. Nem se pretende que tenha. Simmons é realmente brilhante, neste como em outros trabalhos da sua longa carreira, e se no dia 22 levar a estatueta dourada para casa, não será de todo uma surpresa ou uma injustiça – embora na minha opinião o melhor secundário do ano esteja noutro filme concorrente aos Óscares.

Mas é Whiplash um mau filme? Não, não é e até se vê bastante bem. É o filme que tantos andam por aí a apregoar? Nem de perto, nem de longe. É até um filme bastante sincero, herdeiro fiel dessa tal cinematografia tão querida aos americanos. Do que eu duvido é da sinceridade dos que tudo fizeram para que estivesse ali, no topo da hierarquia cinematográfica de 2014. Não o merece, como não merecia ser arma de arremesso de uma indústria que procura desesperadamente por uma salvação que, por uma vez, ao menos, não passe pelos blockbusters da Marvel.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

PARA ACABAR DE UMA VEZ COM O PROBLEMA



Para acabar de uma vez com o problema entram duas Kalashnikov numa redacção em Paris e quando saem levam doze consigo, de caneta em punho, mais um na rua, a sua arma bem guardada, que nem no punho estava.

Para acabar de uma vez com o problema somos todos subitamente franceses, somos todos subitamente Charlie Hebdo, somos todos anti-terrorismo e, pior do que isso, somos muitos, mais do que éramos ontem, anti-muçulmanos. E de repente somos todos adeptos de um discurso de choque, pontual e que tem, como sempre, o prazo de validade de um requeijão de Seia.

Subitamente somos todos Charlie Hebdo como não fomos todos subitamente James Foley ou Steven Sotloff, os jornalistas americanos decapitados por jihadistas do Estado Islâmico, ao vivo e a cores, porque enfim, eram americanos, estavam a pedi-las. Como não fomos Yousaf Khokhar, Robert Shamwami Shalubuto, Aung Kyaw Naing, Maria del Rosario Fuentes Rubio e como não fomos nenhum dos 138 jornalistas que em 2014 morreram no desempenho da sua profissão. Porque esses morreram lá longe, sabiam dos riscos que corriam e olha, paciência, já sabiam o que lhes podia calhar em sorte.

Ontem fomos todos franceses e fomos todos Charlie Hebdo como hoje não somos iemenitas como os trinta que foram assassinados ontem numa academia de polícia do Iémen por um bombista suicida. Porque isso é lá entre eles numa terra que não interessa a ninguém, que se lixem, que se matem uns aos outros, que se expludam.

Hoje, como ontem, seremos todos Charlie Hebdo. Uns porque sentem a dor do que aconteceu em Paris no dia 7 de Janeiro de 2015; outros, porque têm uma vontade inesgotável de vociferar contra o poder imperialista dos EUA e qualquer pretexto é um bom pretexto para culpar os americanos destas treze mortes; outros, os políticos, porque nada funciona melhor do que um massacre desta natureza para consolidar as parvoíces que apregoam.

E no fundo é mentira que somos todos Charlie Hebdo. É mentira porque para sermos todos Charlie Hebdo teríamos de ser Charlie Hebdo todos os dias e não somos. Não falamos para não ofender, não dizemos para não arreliar, não gozamos porque temos medo de perder o emprego, não escrevemos porque tal fulano tem poder e pode dar-nos cabo da vidinha. Na verdade, do que menos precisam os jornalistas assassinados é da nossa solidariedade. Não precisam dela e nem nós merecemos oferecê-la a quem verdadeiramente se arrisca todos os dias em nome da liberdade de expressão e da liberdade de informação, duas liberdades para que nós nos estamos todos os dias a borrifar e que só nos interessam se não for para falar mal do meu partido ou da minha religião ou do meu clube de futebol.

Alguém que admiro profundamente e que partilha o meu amor e a minha obsessão pela liberdade de expressão e pela liberdade do humor, escreveu ontem na sua página de Facebook o direito de insultar é tão importante como o direito de nos sentirmos insultados  –  mas nenhum deles é razão válida para cortar a palavra, a ideia ou muito menos a vida a ninguém. Como nada é razão que justifique a censura.

E a censura não é o que aconteceu ontem em França. O que aconteceu ontem em França é algo para que não encontro nenhuma qualificação realmente justa. A censura começa no não digas isso, o que tu foste dizer ou ainda te vais lixar com isso. E quem tem medo de falar ou dos que os outros possam dizer, quem tem uma postura interesseira relativamente à liberdade de expressão não pode ser Charlie Hebdo. Não tem esse direito. Porque a liberdade de expressão deve ser defendida todos os dias e em todas as ocasiões e não só quando é interrompida por duas Kalashnikov, uma faca na garganta, um carro carregado de explosivos e não sei quantos jornalistas assassinados.

O massacre no Charlie Hebdo é daquelas coisas que me dá um nó na garganta. Que me emociona como me emocionam na verdade as manifestações de solidariedade que têm enchido as páginas das redes sociais e as primeiras páginas dos jornais a sério. O massacre no Charlie Hebdo é um massacre, ponto final. Não é uma teoria da conspiração de como foi levado a cabo por activistas da extrema-direita. Não é uma desculpa para falar no colonialismo americano, nos sionistas, na globalização ou no monstro do capitalismo. É um massacre de treze pessoas, jornalistas, incómodos, sem medo de dizer, escrever e desenhar o que lhes ia na cabeça, sem medo de ofender, insultar, gozar e, com isso tudo, denunciar tudo e todos, sem fazer reféns, sem medo, sem medo, sem medo.

Hoje somos todos franceses e todos Charlie Hebdo – e isso enche-me de orgulho, em muitos casos, e de vergonha em tantos outros. E devíamos ser todos os dias franceses, americanos, iraquianos, chilenos, sul-africanos e devíamos todos os dias defender o direito à informação e a liberdade de expressão, mesmo que ofensiva, mesmo que insultuosa. Esperar pela morte de quem luta pelas nossas liberdades para sair à rua em sua defesa é a única liberdade a que não temos direito. 

sexta-feira, dezembro 19, 2014

O PRECONCEITO NÃO É SÓ UM PUNHO FECHADO ou «OS TAXISTAS NORMALMENTE ATÉ TRANSPORTAM GAYS E TRAVESTIS NOS TAXIS»



Isto é o que eu sei: uma cidadã meteu-se num táxi e acabou selvaticamente agredida por um profissional no desempenho das suas funções. Isto é, na verdade, a única coisa de que podemos ter certeza. As razões que levaram o taxista à agressão são as apontadas pela vítima da agressão, o que inevitavelmente lhes concede uma repentina condição de verdade absoluta. A versão do taxista agressor é substancialmente diferente e obviamente não consegue convencer tanta gente assim. Isto é o que sabemos. E provavelmente mais ninguém viu realmente nada revelador dos motivos que levaram um profissional a agredir violentamente uma cliente, porque mesmo os referidos colegas taxistas que terão assistido à triste cena, poderão apenas ter assistido comodamente às agressões sem saberem o que se passava e o porquê das mesmas e sem sequer se interessarem por nada disso. O que nós sabemos em relação a isso – e que me parece inquestionável – é que foram plácidas testemunhas de um homem a bater com agressividade e violência numa mulher no meio da rua. E sabemos que não mexeram uma palha para fazer fosse o que fosse. Assistiram, simplesmente. Como assistem calmamente os vizinhos, as autoridades e os funcionários de acção social a dezenas, centenas de casos de violência de homens sobre mulheres, muitos deles, quarenta, até agora, que resultaram na morte das vítimas. Ou seja, não surpreende a calma dos espectadores desta triste cena. É algo que aparentemente nos está no DNA.

E portanto, um profissional agride uma cliente e o que eu espero é que o profissional seja imediatamente suspenso enquanto decorre a investigação. O que eu espero é que o caso siga para tribunal e o profissional seja despedido, caso se prove que é um agressor, e que cumpra uma pena de prisão em conformidade com os crimes que cometeu. Isto é o que eu espero que aconteça. Não me interessam os motivos que o levaram à agressão, podiam ser muitos e nem por isso menos perigosos e preocupantes do que aqueles que a vítima alega. A vítima diz que foi agredida por ter beijado outra mulher, acusa o agressor de ser homofóbico e nós imediatamente saímos à rua e gritamos que o agressor é homofóbico e que o Governo despreza os homossexuais e que Portugal odeia gays. E parte disto, nós sabemos que é verdade. O Governo e os governantes e a classe política em geral não têm grande interesse pelos direitos dos homossexuais. Não é uma prioridade, não lhes ocupa a cabeça, não lhes tira o sono nem lhes rouba o apetite. É um não-problema, uma questão de menor relevo, um problema de terceira linha, muito atrás dos juros da dívida, da ida aos mercados, dos bancos em dificuldades e do material de guerra subaquático. Os paneleiros não interessam, podem esperar, nunca tiveram direitos, bem podem esperar mais uns quantos anos até os terem e o governo que vier a seguir que se resolva com eles.

E portanto, esta parte nós sabemos que sim, é verdade. A parte do agressor ser homofóbico e por isso ter feito o que fez eu não sei se é verdade. E não me interessa. Como já disse, o que me interessa é que um cidadão já não pode estar seguro em circunstância alguma e deve começar a ter medo dos taxistas, empregados de café, funcionários dos quiosques e caixas de supermercado. Porque longe vão os tempos em que os únicos que à noite nos podiam aviar com uns valentes sopapos eram os seguranças das discotecas, os namorados ciumentos e, claro, os ladrões que nos acompanhavam a casa. E é por isso que o que realmente me interessa nesta triste história da agressão de um taxista à sua cliente é a agressão e, para já, não os motivos da mesma.

Como me interessa este fenómeno imediato de levantar bandeiras e sair para a rua aos gritos contra a homofobia e de se organizarem manifestações, ao vivo e virtuais, em defesa da agredida e denunciando o preconceito por trás das agressões quando ainda nada foi provado e especialmente quando, e a não ser que o agressor o admita publicamente, dificilmente se conseguirá provar que o homem odeia homossexuais e lhes move uma caça implacável disfarçado de taxista.

E isto interessa-me porque gostava de ver toda esta energia aplicada a outras manifestações em defesa dos direitos dos homossexuais. Entristece-me que as dezenas de associações de defesa dos direitos dos homossexuais que rapidamente se mobilizaram para gritar contra este aparente caso de homofobia, não tenham a mesma capacidade de mobilização para diariamente se manifestarem contra o desprezo legal com que os homossexuais são tratados em Portugal. E entristece-me e preocupa-me, caso seja verdade que a agressão tenha acontecido por puro preconceito, que seja necessário um homossexual ser selvaticamente agredido para que estas dezenas de associações saiam do conforto dos seus escritórios para virem para a rua com cartazes.

Tudo isto me preocupa, e que me perdoe a agredida, porque o que lhe aconteceu não é o mais perigoso que podia acontecer a um homossexual em Portugal. O mais perigoso que podia acontecer, e aconteceu a um homossexual em Portugal, aconteceu nas centenas de comentários homofóbicos que pudemos ler por estes dias na rede social de referência; nos insultos à agredida, nos parabéns ao agressor, no desejo de que mais indivíduos pudessem ter a coragem do taxista e combater à porrada esse mal, essa vergonha, essa doença que é o amar outra pessoa do mesmo sexo. Isso é o que de mais perigoso acontece aos homossexuais em Portugal. E é ainda mais perigoso quando é pensado, embora não dito, por quem nos legisla e tem o poder de tornar a nossa vida mais justa e o nosso país mais justo e equilibrado. Contra esses, as dezenas de associações que saíram à rua e escrevem manifestos nas redes sociais, tudo por causa da agressão do taxista, não se manifestam assim lá muito.

Lá mais em cima afirmei não me interessarem os motivos da agressão do taxista para já. Para já porque para já me interessa que houve mais uma agressão de um homem a uma mulher e uma agressão de um profissional a uma cliente. Para já porque sou solidário com a vítima das agressões e porque espero ansiosamente que se perceba de uma vez por todas o que aconteceu e porquê. Isto tudo para já. Porque se se provar que a agressão foi movida por motivos homofóbicos, nesse dia acusarei as dezenas de associações de defesa dos direitos dos homossexuais e o governo de Portugal de serem cúmplices desta e de outras agressões, físicas, verbais e aos direitos de milhares indivíduos.


E para que fique bem claro, não é esta manifestação de solidariedade para com a vítima que me preocupa. O que me preocupa é o aproveitamento mediático de um caso tão violento. O que me preocupa é não existirem mais manifestações destas para com as vítimas que são vítimas todos os dias sem que para isso tenham de levar porrada.

terça-feira, dezembro 09, 2014

A MORTE ASSISTIDA DA COMÉDIA À PORTUGUESA



Já inúmeras vezes falei mal – ou critiquei negativamente falando mal, com acidez e algum desprezo violento – o stand up que se faz em Portugal e a comédia e os comediantes que por cá passeiam a sua falta de classe. De classe e de qualidade. E resolvi voltar ao assunto por uma série de acontecimentos, tristes, pese embora seja de comédia que se fale, e que despertaram em mim o lado negro da minha vesícula.

Aqui há umas semanas voltei a sair de casa para ir assistir a um espectáculo de stand up. O facto de ter um amigo em palco – e um amigo cujo trabalho admiro e respeito – foi razão suficiente para me deslocar ao Hot Five, um bar aqui do Porto, e a passar uma hora mergulhado na mais fedorenta vergonha alheia, um presente do dono do bar e mestre-de-cerimónias, e de um dos seus convidados, apresentado como o futuro do stand up em Portugal e alguém a seguir com muita atenção. Pois bem, do mestre-de-cerimónias já sabia eu há muitos anos não ter o mínimo jeito para a coisa. Não tem piada, não tem postura e comete aquele erro típico de quem não tem jeito nem piada e que é refugiar-se nos amigos que tem na sala. O convidado era ainda pior, pelo que não merece que eu escreva mais do que isto.

Ou seja, dez anos, mais coisa menos coisa, desde que comecei a seguir o stand up português, chego à conclusão de que nada mudou. E nada mudou porque pura e simplesmente o stand up português teve sucesso. Inesperado, para mim, mas sucesso. E de repente toda a gente queria fazer aquilo, custasse o que custasse, fosse qual fosse o caminho. E foi por isso que surgiram comediantes – embora me custe, e muito, chamar-lhes isso – que sem que nada o fizesse esperar atingiram um glorioso patamar de fama e sucesso. Outros, felizmente, desapareceram como se nunca tivessem existido. E ainda bem.

Ainda bem, sim senhor, mas se esses já não nos fazem mal, outros há, os que atingiram o tal patamar, e outros que ainda vão a caminho de o atingir, que continuam a infligir-nos um mal, dir-se-ia, irremediável. A culpa é deles, claro está, mas é acima de tudo de uma indústria, a do entretenimento, que se alimenta do que eles produzem, alimentando os papalvos que os continuam a idolatrar.

Exemplo disso é o segundo acontecimento triste que referi no primeiro parágrafo: o lançamento do livro Os Telefonemas do Nílton. E o que é Os Telefonemas do Nílton? É tão somente um compêndio das famosas partidas telefónicas que Nílton pregava aos mais incautos no Cinco Para a Meia Noite. E vai vender? Vai, sim senhor, pois está claro que vai. Vai vender muito e serve, desde logo e também, como exemplo de algo em que Portugal é campeão do mundo: a capacidade de desencantar figuras públicas, famosos, ilustres, vips, divas, opinion makers, spin doctors, etc, etc.

O que me leva direitinho ao terceiro acontecimento triste: a tomada de conhecimento de algo verdadeiramente merdoso que dá pelo sugestivo nome Pancas da Semana. E o que é isto? A resposta é-nos dada pelo canal +TVI! no  seu site: «Pancas da Semana, um programa de humor da autoria de Alexandre Santos, um dos comediantes mais vistos do youtube em Portugal. Depois de alcançar mais de 2 milhões de visualizações com fenómenos como O Estrondo ou A Gunada, Alexandre Santos salta da internet e chega de armas e bagagens ao +TVI para uma série repleta de skeches, paródias, improvisos e personagens que lhe garantiram milhares de seguidores.» Portanto, basta ser um sucesso no YouTube para rapidamente, num saltinho, chegar à televisão e ter um programa só seu? Correcto. Mas se calhar aquilo tem piada, é bem escrito, bem realizado e filmado, os actores são bons e… Não! É mentira! É tudo mau! É mal escrito, é mal feito, não tem piadinha nenhuma e serve apenas para nos tentarmos lembrar onde já vimos aquele sketch ou aquela piadola. Porque é uma imitação rasca de uma imitação rasca de uma imitação rasca.

Mas ainda bem que existe. Ainda bem que existe para percebermos de uma vez por todas tudo o que está mal com o humor em Portugal. Humor esse que anda de um lado para o outro entre o lobby Produções Fictícias e amiguinhos e os comediantes que (mais uma vez) estão dispostos a tudo para terem sucesso. Estes, os do Pancas da Semana, e muitos, muitos outros, como a psicóloga que achou imensa graça a fazer stand up e vai daí decidiu que ninguém notava se ela se inspirasse um bocadinho na Sarah Silverman, dedicam-se a coleccionar o que os outros fazem para se poderem inspirar neles o suficiente para não serem acusados de plágio. Outros, que tinham qualidade no que faziam, são hoje meros assalariados da RTP, paus para toda a obra mergulhados até aos sovacos na banheira do lobby. Já para não falar naquele que francamente ainda devia usar boina e que se acha tanta graça que decidiu começar uma carreira de stand up – e a quem alguém devia dizer para parar já!

Tudo isto bem regado com o lixo que sai de uma das invenções resultantes do fenómeno stand up em Portugal e que foram os cursos. Cursos de stand up e de escrita criativa e de escrita humorística que não têm outra utilidade que não a de cagarem a cada não sei quantos meses gente sem qualidade que aprende a não mais do que acreditar piamente que afinal sempre tem o jeito que a avozinha lhes dizia que tinham e que passam o resto das suas vidinhas miseráveis a fazerem de uma simples ida a um bar ver a actuação de um amigo um inferno na terra.

E isto não vai melhorar. Se para chegar a um canal de televisão, mesmo que somente na televisão por cabo, basta ter sucesso nas redes sociais, então nem imagino o que se segue. Sei que vai ser mau, porque se até aqui não esteve nem perto de ser bom…

Quanto ao tal meu amigo que fui ver ao tal bar, demito-me de falar aqui nele para não ser acusado (compreensivelmente) de falta de isenção. Mas que é brilhante lá isso é. E a fazer uma coisa bem mais difícil e de uma qualidade que não está ao alcance destes farsolas, que não só não o compreendem, e por isso é que o levam a sério, como não o engolem nem com arroz de tomate malandrinho.

BOYHOOD: A VIDA ABORRECIDA DE UM RAPAZ



Muito se tem falado e muito mais se vai falar ainda desse filme Boyhood e do trabalho do seu realizador, Richard Linklater. Chegada a época dos prémios da indústria cinematográfica, e tendo em conta o hype em torno de Boyhood, é previsível, a esta distância, que o filme vá limpar um grande número de estatuetas. É inevitável.

E compreendo a histeria provocada pelo filme e compreendo, porque também a senti, a enorme curiosidade que ele provoca em quem ainda não o viu. Não é normal, e pelo que sei nunca terá acontecido, um filme demorar doze anos a realizar. Não por questões orçamentais ou técnicas, mas por questões de argumento. Ou melhor, Boyhood demorou doze anos a realizar por vontade de Linklater; porque queria acompanhar o crescimento de um rapaz e o envelhecimento dos que o rodeiam de forma natural, sem prostéticas caricatas, sem artifícios, com a realidade do passar do tempo. E isso é obra. E isso leva-nos incontornavelmente à questão como foi possível?

É de facto impressionante, a premissa do filme e a coragem e paciência e organização de Linklater. Alguns dirão que foi uma sorte que os actores se mantivessem agarrados ao projecto e que nada surgisse como obstáculo à conclusão do trabalho. Pode até ser, mas a perseverança da uma equipa apostada em levar até ao fim um projecto desta dimensão é realmente o grande segredo de Boyhood. E isto tudo merece que se pense em Boyhood, que se veja o filme e que se volte a pensar nele e em como foi possível ser feito.

E tudo acaba aqui, também. Porque é este, na verdade, o único trunfo de Boyhood e o seu único motivo de interesse. Por outras palavras: como projecto artístico e documental – porque acaba por o ser – o filme de Richard Linklater fica para sempre, e de forma inteiramente justa, na história do cinema. Como filme, tem toda uma série de falências que fazem com não possa ser ainda maior.

A começar precisamente pelo argumento, escasso e desinteressante ao ponto de por vezes se tornar aborrecido. O que até seria admissível se este Boyhood fosse somente um documentário acerca do crescimento daquele rapaz. Não é. É uma obra de ficção que espelha uma certa realidade que não é real. Presumo, a esta altura, que Linklater tenha sido influenciado pela série documental The Up Series, da Granada Television, em que um grupo de quatorze crianças era acompanhado a cada sete anos por uma equipa de televisão, mostrando ao mundo como era crescer na Inglaterra. Essas histórias são reais, por muito desinteressantes que possam ser, e esse é o seu único e importante interesse. E é um interesse antropológico, sim, mas que alimenta o voyeurismo que há, mais ou menos, em todos os espectadores. Boyhood não tem nada disto. É um híbrido que fica a meio caminho entre qualquer coisa e outra coisa qualquer.

E depois há os actores, em ritmo sonolento, sem rasgo, sem energia e dos quais somente Ethan Hawke parece realmente querer contribuir com alguma qualidade. O seu trabalho é bom, sólido, credível e emocionante. Todos os restantes passam o filme a dormir em pé e a arrastar-nos com eles para uma dormência que a dada altura começa a chatear profundamente. E aqui apetece-me dizer que, ao contrário de tudo o resto, não consigo compreender a histeria em torno de Ellar Coltrane, o actor principal, e de quem se tem dito e escrito as maiores maravilhas. Coltrane, um não-actor, começa bem e acaba mal, mostrando a quem vê, que as suas capacidades de interpretação não existem realmente e que em miúdo – provavelmente porque se sentia mais motivado a participar neste projecto – era-lhe mais fácil fazer de conta. Mas admito: fazer um filme destes num esquema tão complexo como o que Linklater escolheu, pode muito bem provocar problemas no trabalho dos actores e na forma como se relacionam com os seus personagens. Ainda assim, é um elenco aborrecido e que não nos empolga.


E pouco mais há a dizer sobre Boyhood. Porque pouco mais Boyhood tem para nos dar. É um filme importantíssimo, um marco na história, forte candidato a todos os prémios de cinema e a ser eleito rapidamente como filme-culto de uma geração. Algo a que Richard Linklater, de resto, não é estranho. O início da sua carreira elegeu-o como porta voz de uma desalinhada geração de jovens americanos. A sua trilogia Before Sunrise, Before Sunset e Before Midnight tornou-o o realizador de eleição de uma geração de novos intelectuais românticos. O que leva à segunda questão incontornável: e a seguir a isto, o que fará Linklater e a que geração apontará?

Para além disto, Boyhood é um filme longuíssimo, aborrecido, nada emocionante, nada empolgante e que no fim me deixou exactamente no ponto em que estava quando o comecei a ver. Mas ainda me questiono: como foi possível? E é por isso que tenho por ele e por aquela gente o maior respeito.

domingo, novembro 30, 2014

OS COMUNISTAS TAMBÉM VÃO À ESCOLA



Sexta à noite entrei numa escola profissional a fim de assistir a um espectáculo de teatro. Na dita escola, também por força do que por lá se ensina, existe uma mesa destinada à exposição de diversos flyers que divulgam outros espectáculos de teatro, cursos e workshops, concertos e outras actividades de índole cultural e artística. Estava eu a passar os olhos por este painel de informação quando sou desviado para um pequeno flyer, tamanho postal, assim meio mal amanhado, uma fotocópia a preto e branco. Pensei videntes africanos ou um concerto punk numa cave qualquer? Nem um nem outro mas antes um flyer da juventude comunista com o sugestivo e muito explícito título LUTA PELOS TEUS DIREITOS! TOMA PARTIDO! ADERE À JCP! Assim, aos gritos, para os miúdos de 14 anos que estudam naquela escola não terem dúvidas.

E pus-me a pensar não será isto ilegal? Não será isto um claro desafio a qualquer regra de ética? Não deve ser, uma coisa destas não se fazia assim às claras sem consequências se fosse ilegal. E portanto…
Portanto, não sendo ilegal, várias conclusões se retiram deste flyer a convocar a criançada para se juntar às trincheiras da petizada comunista:
  1.           O PCP pensou muito atentamente no tio Mao e decidiu que ele tinha razão e que é de facto de pequenino que se torce o pepino;
  2.       Os outros partidos andam claramente a nanar e ainda não perceberam o potencial de recrutar novos aderentes nas escolas e outros espaços onde a juventude gaste o seu tempo;
  3.      Outras instituições podiam seguir o exemplo da JCP e deixar o mesmo tipo de divulgação nas escolas. Os escuteiros, por exemplo, ou a igreja católica que, dessa forma, poderia facilmente inverter a tendência negativa e aumentar exponencialmente o número de novos sócios; 

Para além disso uma ideia nunca é uma ideia à prova de bala e há sempre como melhorá-la. Por essa razão, deixo aqui a minha pequena contribuição em jeito de conselho ao comité central do PCP: porque não partem para outros espaços e outros escalões etários e até para outras formas de angariação de soldados? Podiam, por exemplo, começar a trabalhar nos infantários; os miúdos em idade pré-escolar não resistem a um bom balão e toda a gente sabe que um balão vermelho (porventura até com a famosíssima silhueta do Che) daqueles cheios de hélio é coisa para chamar a atenção dos pequenitos aí a uns bons duzentos metros.

Podem também intervir junto dos orfanatos e convencer a criançada que por lá mora de que se estão ali a culpa é das políticas de direita e ainda fazê-los acreditar de uma vez por todas que não, não querem ser adoptados por homossexuais que os tios russos e chineses não gostam lá muito dessas modernices. Podem fazer tudo isto com um simples caderno para ilustrar e muitos crayons vermelhos.

Por fim, uma sugestão que tem mais a ver com a gestão dos conteúdos deste tipo de divulgação. O flyer que trouxe da escola tem aquele palavreado e discurso já tantas vezes engolido e vomitado que o PCP usa em tudo o que comunica. Já sabem, são as conquistas de Abril, os filhos da revolução, a força da luta e tantas outras patacoadas que, sinceramente, já ninguém aguenta. Se querem modernizar as formas de angariação de camaradas, convém que modernizem a linguagem e que a tornem compreensível especialmente para putos de 14 e 15 anos, que não só não percebem nada de política, como não percebem nada de, convenhamos, muita coisa…
espera lá…

já percebi! Boa, PCP! BEM VISTO, CAMARADAS! (Assim, aos gritos)