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Bom Karma... ou não!

sábado, abril 16, 2011

COM TODA A SINCERIDADE...



A crónica é o comentário noticioso de factos, que vive do quotidiano mas não visa a informação. Pode ser uma espécie de narração de acontecimentos, uma apreciação de situações ou, na definição tradicional, assumir-se como relato histórico.

Antigamente, a crónica era um relato histórico ou uma narração de factos históricos redigida segundo a rodem do tempo (a palavra grega cronos significa tempo; e em latim chronica, diz-se da narrativa de factos de acordo com o decorrer dos tempos).

A crónica moderna é, muitas vezes, uma apreciação crítica, um comentário ou uma narração de acontecimentos reais ou imaginários, a que se exige oportunidade e carácter pessoal, alterna a subjectividade literária com o relato de factos.



Nas últimas semanas, fui acusado (simpaticamente, diga-se) de dar muita importância e, consequentemente, visibilidade pública, ao fel que há em mim. Passo demasiado tempo a falar mal e dedico muitos textos deste blog a críticas ácidas. Falar mal. Não é bem isso, mas mais à frente explico melhor.

Antes de me aprofundar nesta crónica, quero deixar bem claro que essas acusações, de pessoas cuja opinião respeito, aliás, não só não me caiem mal, como não me melindram de maneira alguma. Entendo-as, aceito o ponto de vista, mas considero ser um ângulo de abordagem demasiado linear e pouco dado a outras hipóteses de explicação. As minhas hipóteses. As minhas razões para escrever o que escrevo.

Sempre concordei com o ditado que diz que um conselho só se dá a quem o pede, pese embora nem sempre seja fácil calar o conselho e limitar-me a abanar com a cabeça em sinal de compreensão pelo problema alheio. As opiniões, no entanto, são outra conversa, e algo que procurei sempre não guardar por demasiado tempo, correndo o risco sério e real de começar a perder o ar. Chamem-me implicativo, esquisitinho ou picuinhas, mas a verdade é que gosto de opinar, mesmo que o sermão não me seja encomendado.

Opinar é um exercício da mais pura e abnegada sinceridade. A sinceridade, lamento, implica falar bem e falar mal. E é aqui que tentarei explicar o meu conceito - discutível, admito - desta expressão, «falar mal». Falar mal, para mim, é atacar algo ou alguém com a intenção, disfarçada ou não, de provocar danos, nem que para isso seja necessário inventar argumentos. Não o faço.

A minha crítica é a minha sinceridade, quer isso agrade ou desagrade aos que ainda têm paciência para ler o que escrevo. Não invento argumentos. Digo, isso sim, o que penso, sinceramente e sem artifícios que não os permitidos pela gramática portuguesa. E é só.

Por isso mesmo, é doloroso ouvir os conselhos psicológicos dos meus amigos, que acham que eu escrevo as barbaridades que escrevo porque tenho problemas por resolver. Memórias atravessadas na garganta, fantasmas encravados no fígado e frustrações que me pesam no discernimento. Acreditar nisso, é acreditar em duas coisas que me parecem absurdas: uma, que as pessoas que passam a vida a falar bem e que se escusam a dizer mal - vou assumir a expressão - têm a vidinha bem resolvida, sem fantasmas, frustrações ou memórias recalcadas. Outra, que todos os que expressam opiniões negativas, são cínicos, pessimistas e serial killers prestes a desabrochar. E aqui reside a tal linearidade de que falava no início desta crónica. E isso faz-me lembrar dos psicólogos, que defendem que tudo o que fazemos ou dizemos tem uma ligação directa aos nossos traumas.

Preocupam-me bem mais as pessoas que passam a vida a apregoar o bem, ou a afirmarem publicamente que passam a vida a apregoar o bem - o que é bem pior, diga-se. Como não me convencem de que têm apenas coisas boas para dizer da vida, acredito que incorrem no risco de guardar o tal fel por demasiado tempo. E é um risco porque esse azedo pode sair-lhes repentina e agressivamente, ou na forma do mais cruel gozo. Não deixa de ser sinceridade, mas é bem mais desagradável.

É curioso, no entanto, que a sociedade aprendeu a gostar - a divertir-se, até - com os que ganham dinheiro e fazem carreira a falar mal e a gozar com os outros. Os humoristas, por exemplo. Os Gato Fedorentos da nossa praça; os Herman Josés da nossa televisão; os opinion makers a quem o fel é encomendado e muito bem pago. Esses estão autorizados a fazê-lo, têm as opiniões abençoadas, gozam do beneplácito popular.

O que escrevo aqui no blog, e desculpem-me a aparente imodéstia, são crónicas. São apreciações de situações, escritas com sinceridade, sem intenção de prejudicar, ofender ou espicaçar. Como esta, que escrevi hoje. Parece-me é que existe muita gente a falar em sinceridade, honestidade e verdade, sem saber realmente o peso dessas palavras. Parece-me, mas posso estar enganado, que estes predicados, tantas vezes elevados a prioridades pessoais, são levados de uma forma pouco séria, leviana e superficial. E de todo são exercitados na totalidade do seu potencial. Mas isto, como tudo o que digo, de resto, é só a minha opinião.

1 Comments:

  • At 15:46, Blogger Eduardo said…

    Que nunca te engasgues, nem gaguejes como eu!

     

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