kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

domingo, fevereiro 08, 2009

DE UMA CONVERSA...

Daquelas que se escrevem e por razões que sempre me escapam são mais reveladoras do que as que se falam. É curioso como uma página em branco - seja ela um papel ou um ecrã de um impessoal computador - nos permite, nos dá a liberdade, para falar tão à vontade.

Amigos. A conclusão tão simples de que os amigos importantes são os que estão connosco numa determinada altura da vida. Pouco importa se logo a seguir essa relação se desvaneça. Pouco importa os motivos, até porque podem ser tantos. O que importa realmente, o que nos fica na memória - mente, coração e corpo - é esse binómio tão pouco matemático: amigos e determinada altura da vida.

Muitas vezes cria-se algo poderoso nestas relações ocasionais e surpreendentes. Muitas das vezes há algo que fica para lá desse binómio, algo que nos faz querer voltar atrás no tempo, passar nos locais que sobraram de uma rotina à procura de alguém mesmo sem nos apercebermos de que o estamos a fazer.


Vida. A conclusão óbvia de que a vida não pode ser uma flatline, que tem de ter altos e baixos, vazios e cheios, picos e depressões; que tem de ser atribulada, mais, muito mais, do que confortavelmente aborrecida. Aborrecidamente confortável. Já estive lá e agradeço, mas não, obrigado. Prefiro de longe a irresponsabilidade, o arrepio da incerteza, o não saber o que vem a seguir, o calendário de cozinha, com os dias bem à vista. Alguém me contava que um centro de recuperação de toxicodependentes utilizava um método que muitos de nós seguimos - alguns conscientemente, outros... - e que consiste no assumir que hoje não me vou drogar. Amanhã... Pois bem, hoje não vou ser chato, responsável, planeado, defensivo, organizado, consciente. Amanhã, quem sabe?

Precisamente, estou a ler pela segunda vez um fantástico livro de Paul Auster intitulado "A Noite Do Oráculo" no qual o protagonista acaba de ter uma segunda hipótese na vida. Escritor, acaba de sair de um estado de coma para voltar à escrita. Entre outras coisas fala-nos de uma personagem de um outro livro a quem a morte passa ao lado em forma de viga de aço que lhe cai aos pés enquanto passeia na rua. Traumatizado - desperto? - por esse acontecimento decide mudar de cidade, sem dizer nada a ninguém, e recomeçar uma segunda vida do absoluto zero. Tenho a certeza de que já todos tivemos essa vontade/curiosidade. E eu, eterno inconformado mas terrivelmente assustado, preguiçoso, defensivo e aborrecido, nunca tive a coragem para o fazer. Em compensação fui encontrando pequenas mudanças na minha vida que me fizessem sentir menos culpado, e à excpeção de três anos em que me arrisquei a desaparecer da face da terra, a verdade é que sempre me senti aproximadamente feliz com as minhas minúsculas opções. Tardias mas positivas.

Por isso mesmo, por tudo isto, esta ida a Liége integrado num festival de teatro, representa tudo o que eu sempre quis fazer e nunca consegui. Ou seja, aos 36 anos sinto-me no papel do trintão ridículo que se mistura com os jovens para se sentir rejuvenescido. Paciência. Vale bem a pena.

Muito havia agora para escrever, e sinto a vontade de escrever tanta coisa. Mas estou cansado, e a cabeça ainda anda cheia de muita tralha e o espaço para organizar idéias é apertado cá dentro e não consigo pensar direito. Já foi bom.
Obrigado pela conversa.

1 Comments:

  • At 07:59, Blogger Morada said…

    Ao fim e ao cabo todos, cada um no seu tempo e a seu tempo percorremos as mesmas estradas, caminho, vielas e becos.
    Mas desde que se veja o horizonte lá ao fundo, está tudo bem.
    Parabéns pela escrita. Desconfia-se logo que h´apor aí um livro para ser escrito!

    Abraço africano!

     

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