kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

quarta-feira, março 26, 2008

É A VIDINHA




Os meus pais divorciaram-se há vinte anos, mais coisa, menos coisa. Lembro-me de na altura ter ficado revoltado e zangado com o mundo pela maneira como o que parecia ser apenas isso, um divórcio, foi encarado pelas pessoas que constituiam o pequeno núcleo lá da rua. De repente a minha mãe começou a pagar a factura da terrivel ousadia que havia cometido. Perdeu amigos, dos que são a sério e dos que só dizem "bom dia", perdeu família (afastada), e perdeu a alegria de andar na rua com a leveza de quem não deve nada a ninguém. Lutou contra isso, com o orgulho e indiferença que lhe eram habituais, mas ninguém imagina a força que o desprezo pode ter, e a minha mãe não fazia idéia. Foi vergada pelo peso da ignorância que, pensava ela, já não devia existir por aquela altura. Foi quando começou a ficar sozinha.
Como estava a dizer, lembro-me de ficar indignado e revoltado com a atitude de todos os que lhe viravam a cara na rua; dos que disfarçavam, dos que fingiam olhar para qualquer coisa no preciso momento em que a minha mãe se cruzava com eles. Sempre me considerei uma pessoa justa - corrijam-me os que discordarem -, de modo que aquilo tudo me parecia tremenda e injustificadamente injusto. Aos poucos, e sem dúvida com a ajuda de algumas mudanças de mentalidade, a minha mãe foi reconquistando a sua personalidade extrovertida e superior a merdas dessas. Demorou, mas conseguiu.

Vinte anos depois apercebo-me que nem só algumas coisas boas se mantêm inalteradas. Vinte anos depois vejo pessoas à minha volta que, mais ou menos disfarçadamente, agem exactamente da mesma forma que aqueles que de repente ja não conheciam a minha mãe.
Não é fácil falar do assunto sem expôr acontecimentos e pessoas que de modo algum pretendem ser expostas; afinal são pessoas que preferem virar a cara e fazer de conta de que tudo está na mesma; pessoas que, em nome de uma (falsa) normalidade que lhes permita dormir mais descansadas, varrem literalmente o lixo para debaixo do tapete para que os convidados não se sintam incomodados com a sujidade.

Não posso dizer que não pensei várias vezes que algo do género pudesse acontecer. Quando fazia a viagem de carro de regresso a casa, e pensava no divórcio que havia de consumar, tinha muitas vezes a certeza de que algo de grave haveria de mudar na minha relação com um sem número de pessoas. Mesmo com tanta previsão confesso que não estava preparado para uma tão grande mudança. Sem dúvida, parte da culpa é minha, mas o resto da responsabilidade/causa dessa mudança ter sido tão inesperada vem não sei bem de onde. Ouço alguns dos argumentos e não consigo enquadrá-los no passado que tive com essas pessoas. Pessoas que de modo algum fazem de conta que não me conhecem, mas que sem dúvida alguma me varreram para debaixo do seu tapete. E nem seque é o tapete de entrada, bem juntinho à porta da rua. Ouço os motivos que levaram a um enorme afastamento - e que apontam todos para mim com dedos acusatórios - e não percebo como podem ser suficientes para apagar o que havia antes.

De repente, do nada, comecei a notar o desconforto que a minha presença provocava em alguns dos meus amigos; o embaraço que lhes provocava apenas por aparecer em locais que considero ainda hoje como sagrados na minha vida e na relação que mantínhamos. Aos bocadinhos fui-me dando conta das fintas e das curvas apertadas que tinham de fazer para tentarem contornar a minha potencial ida a tal parte; da falta de um convite, da total ausência de planos a dois, a três, a quatro e a cinco. Os meus amigos tornaram-se contorcionistas. Que já não fazem festas de aniversário, que já não celebram o S. João ou o fim de ano, que não vão a concertos ou ao cinema. E dou por mim à procura de uma praia em Portugal onde eles não estejam para poder marcar uma semana de férias sem os ofender com a minha presença e com a da mulher que amo. E sinceramente não compreendo como as coisas chegaram a este ponto tão rapidamente. Justificadamente questiono-me sobre que histórias e versões da história estarão a ocupar os seus juízos de valor. O que terão ouvido para sentirem uma tão pouca vontade de voltar a estar comigo como durante tanto tempo. E claro, ponho em causa a minha personalidade; acuso-me, procuro encaixar nos seus argumentos, culpo-me de tudo e mais alguma coisa para tentar alcançar alguma paz de espirito e enterrar o assunto de uma vez por todas e, como eles, dormir mais repousado à noite.

Tenho a certeza de que tudo isto que escrevi só serve para piorar a situação; tenho a certeza de que vou ser novamente motivo de conversa, de crítica, de repúdio. Como o fui anteriormente e apenas por ter optado pela tal semana de férias na praia onde eles estavam. E é sempre assim: as pessoas preferem descobrir razões que justifiquem os seus actos, do que a resolver as coisas com uma simples e rápida conversa. É mais rápido, dá menos trabalho e concede a ilusória força da razão ao colectivo ululante.

Vinte anos depois de me ter zangado pelo que fizeram à minha mãe, chego também à conclusão de que não sou nada como ela. A minha mãe entristeceu, secou, renasceu e enrijeceu. Eu continuo com saudades do que tinha. Dos dias, das noites, das viagens, das maçãs, da música e das gargalhadas.
A minha mãe avisou-me. Disse-me vezes sem conta que isto ia acontecer - embora eu tenha a certeza de que nem mesmo ela soubesse que se ia passar desta forma.

Não sei se é isto que significa, mas faz sentido ouvir as palavras oh man I read it in boks of lafter, oh man I read it in books of pain enquanto acabo de escrever este texto. Um texto mal escrito, desconexo, sem fio condutor, provavelmente com erros de sintaxe e que não deve fazer grande sentido. Não era suposto ser fácil escrevê-lo.


Alguém me dedicou há dias as palavras "há coisas que nos passam por cima e levam tudo arrastado. Temos então que sacudir as pedrinhas do casaco. E guardar com felicidade as que ficaram debaixo da pele. Mas cuidado depois ao pousar essa mão no chão". Não te preocupes, esta mão já está boa para muita coisa. Para voltar a ser guarda-redes, para pegar no tacho e escorrer a água dos gnocci e, acima de tudo, para me poder levantar sem ter de fazer força nos joelhos, que esses sim, estão velhinhos.

10 Comments:

  • At 01:42, Blogger bazulinha said…

    Bem...agora fiquei eu sem palavras!

     
  • At 11:46, Blogger supirinha amarela said…

    Se é que me é permitido dizer qualquer coisa sobre este assunto. A mim tudo me parece bem simples, e nem por isso menos doloroso, amigos só os temos por certos nestas alturas, portanto esses de que falas não o são!

    Beijinhos amarelos de prima emprestada a viver na luminosa capital!

     
  • At 12:26, Blogger karmatoon said…

    EMPRESTADA!!???

     
  • At 13:56, Anonymous zito hioshimito said…

    Gostemos de ti Papi!

    Por momento ocorreram-me mais uma ou duas finalidades para essas mãos, mas depois trans,mito-tas no nosso ninho do amor.

    Beijoto.

    Saudade.

     
  • At 18:29, Blogger pinkpoetrysoul said…

    Olá Nuno! Passei por aqui e não podia deixar de comentar. Embora te conheça há relativamente pouco tempo, tenho que te dizer que no pouco tempo que convivi contigo adquiri uma admiração e um respeito enorme por ti. Digo-te com toda a sinceridade que és das pessoas mais fascinantes que conheço. Esses amigos que falas, que viram a cara seja lá pelos motivos que forem, só perdem a oportunidade de conviver com uma pessoa como tu, na verdade eles nem se aperceberam da sorte que tinham por te ter como amigo. Querido Nuno, os amigos de verdade estão sempre presentes e por esses é que vale a pena o incómodo. Beijinho e desculpa a invasão =*

     
  • At 10:27, Blogger Mouro said…

    abraço

     
  • At 15:43, Blogger supirinha amarela said…

    Emprestadada, serve?

     
  • At 19:48, Blogger Isabel said…

    Abraço mui apertadito :)
    Isabel***

     
  • At 21:38, Anonymous Anónimo said…

    Ora toma!
    Não vale a pena mais comentários porque te sabes defender, sim?
    beijo na nuca
    ChillangoP

     
  • At 13:45, Anonymous A.T. said…

    é aqui que se deixa as manifestações simpatéticas pela tua pessoa? toma uma, de mim! **

     

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