kar(ma)toon

Bom Karma... ou não!

quinta-feira, junho 15, 2006

Só uma história, então...



(...) -Sirva-se. Deixe que lhe façam carinhos - diz Marta, a mulher de Ladislao, entregando-me um prato com duas empadas.
Cumprimento as senhoras da fazenda. Marta é veterinária; Isabel, a mulher de Iñaqui, é professora e encarrega-se de educar a nova geração de Eznaolas e as demais crianças da fazenda, Flor, a mulher de Agustín, é já uma lenda na Patagónia. Trabalhava como enfermeira no hospital de Río Mayo, na Argentina. Agustín viveu sempre apaixonado por ela, mas nunca se atreveu a confessar-lhe os seus sentimentos. Via-a uma vez por ano e depois de cada visita o seu amor aumentava até quase lhe rebentar o peito. Um dia soube que Flor ia casar com um empregado bancário. Agustín subiu para a sua "chata", pegou também na guitarra e pediu aos irmãos e às cunhadas que embelezassem a casa porque regressaria com a mulher dos seus sonhos.
Chegou a Río Mayo no domingo do casamento e, com a guitarra nas mãos, instalou-se na igreja à espera da mulher que amava. Flor apareceu vestida de noiva, acompanhada pelos pais. O noivo não tardaria a apresentar-se. Agustín pediu-lhe que o ouvisse sem nada dizer até que o noivo chegasse. Então tocou a guitarra e começou a desfiar umas décimas em que o seu amor se mostrava com toda a beleza da poesia, e com toda a dor de quem a amava e amaria até depois da morte. Quando chegou, o noivo quis interromper o cantor, mas Flor e os habitantes de Río Mayo impediram-no. Agustín cantou durante duas horas e, no final, quando se dispunha a partir a guitarra para que ninguém pudesse manchar os seus versos de amor, Flor pegou-lhe na mão, conduziu-o até à "chata" e empreenderam juntos a viagem em direcção à fazenda. Flor chegou vestida de noiva e, desde então, Agustín, que é um dos melhores payadores* da região, chama-lhe a "minha musa branca".

* Cantor popular errante, normalmente gaúcho, que se acompanha a si próprio com violão. (...)


Luis Sepúlveda in Patagónia Express