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Bom Karma... ou não!

quinta-feira, outubro 30, 2014

TEATRO EXPANDIDO (COM O RABO DE FORA)



É com alegria que vejo o Campo Alegre habitado por novos inquilinos. Um espaço daquela qualidade, mesmo que deslocalizado do epicentro da energia da cidade, merecia vida, merecia acontecimento, merecia sangue novo a correr-lhe pelos corredores. É com alegria, portanto, que vejo o TEP, a Companhia Radar 360º, o NEC, a Erva Daninha e o Teatro Expandido… Teatro Expandido? Pausa na crónica para investigação rápida nos meios tecnológicos ao dispor. Quem É o Teatro Expandido? Já volto…

Acreditem ou não, fui mesmo investigar o Teatro Expandido e descobri que… não existe. Ou melhor, não existe grande coisa acerca de. Ou por outra, não há notícias relativas a alguma actividade do Teatro Expandido a não ser aquela que vai passar a desenvolver no TCA. Ou seja, as únicas notícias com o nome do Teatro Expandido são as que dão conta da sua nova habitação, o TCA, e de um grupo no Brasil que terá inventado o conceito de teatro expandido, ou algo do género. Isto é, existe de facto um nome associado ao Teatro Expandido que esse sim apresenta alguma relevância e que é o de João Sousa Cardoso, um rapaz com página na Wikipedia e tudo. Nessa página rapidamente ficamos a saber que o João Sousa Cardoso está principalmente ligado ao cinema, tendo também passado pelo teatro, pela performance e pelas exposições. João Sousa Cardoso tem, diga-se de passagem, um CV bastante interessante.

Na página da Wikipedia de João Sousa Cardoso não existe, no entanto, qualquer referência ao projecto (seu projecto, ao que tudo indica) Teatro Expandido. O que é uma pena, porque não há como não querer saber quem é o Teatro Expandido e porque merece honras de inquilino do renovado (filosoficamente falando, claro) Teatro Municipal Campo Alegre. Não há como querer saber porque foi esta companhia considerada como uma das importantes do Porto ­­­– palavras do director do Teatro Municipal do Porto.  

O que leva a questionar: quem é João Sousa Cardoso? É realizador do filme Santa Joana dos Matadouros, uma produção que tem sido publicamente e fortemente apoiada por Paulo Cunha e Silva, vereador da cultura da Câmara do Porto. E mais? E mais nada. Ou melhor, e como já disse, João Sousa Cardoso é de facto senhor de um currículo bastante diversificado e interessante. Mas isso chega para que um projecto seu, que não existe a não ser nas notícias que dão conta pela primeira vez da sua existência, ocupe um espaço privilegiado num equipamento cultural do Porto? Porquê o Teatro Expandido numa cidade em que há tantas companhias que não têm sequer um escritório, quanto mais um espaço de ensaio e de construção de projectos?

Volto ao início para reforçar o quanto fico satisfeito com a nova vida do Teatro Municipal Campo Alegre. Como fico satisfeito com a mudança de atitude deste executivo camarário e em especial com o comportamento de Tiago Guedes, director do Teatro Municipal do Porto. Contudo, e isto é algo que deve estar bem presente nas cabeças de quem agora decide a cultura na cidade, o povo não dorme em serviço e está bem atento ao que lhe querem empurrar pela goela abaixo ­– em especial depois de toda a novela La Féria. Situações menos claras são o que menos se deseja numa altura em que há um nítido esforço para mudar a política cultural do município; numa altura em que a mudança de filosofia começa já a fazer-se sentir na cidade e nas pessoas; numa altura em que muitos rascunham já um balanço positivo (e justo) da vereação da cultura e da direcção artística do Rivoli e do Campo Alegre.

As coisas têm a importância que têm, nem mais nem menos. E a frase que acabei de escrever vale o que vale. E não há nada como realmente. Isto tudo para não dizer nada de jeito mas para dizer que tudo isto em torno do Teatro Expandido pode na verdade ser só um medo irracional de velhos hábitos que nunca morrem realmente. Pode sim, é verdade. Mas também pode mesmo ser um velho hábito que não morre nunca e isso seria uma tremenda chatice. 

Tenho uma gata que adora brincar com o seu próprio cocó. Ele rebola e salta e isso, como é sabido, é demasiado irresistível para um gato. Volta e meia, há um leve odor a cocó de gato debaixo de um sofá ou de uma mesa. A dúvida não dura mais do que uns segundos: arrasta-se o sofá e lá está ele, o pedacinho de cocó seco que foi ali parar por ter sido bola de futebol. Os gatos, como se sabe também, bem podemos barafustar com eles e tentar provar-lhes que aquilo de brincar com cocós secos é errado e uma tremenda porcaria, mas a verdade é que nunca vão aprender e esse hábito não vão perder. Lixa-se quem mora cá em casa, que de vez em quando tem de levar com um leve odor a cocó escondido.